[conjunto vazio]

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O Golpe!

In artefatos, performance on maio 5, 2016 at 14:51

 

O Golpe - Coletivo [conjunto vazio]

As revoluções fracassaram.

É necessário admitir que o inimigo não tem cessado de vencer, que a teoria não irá nos redimir e muito menos a arte sublimará os fantasmas que ainda restam.

Nossas brincadeiras nunca serão uma ameaça e não há nada mais para se alcançar agora, nem mesmo o fracasso…

O que fazer?

Trabalhadores de todo mundo, voltem para casa!

(o teatro está fechado)

 

Realização: coletivo [conjunto vazio]

Belo Horizonte

2016

 

 

O Capitalismo é a nossa religião!

In blog on janeiro 5, 2013 at 20:45

 “Os mundos uivam o próprio canto fúnebre. e nós somos macacos de um Deus frio

Karl Marx

Um bom sujeito burguês sabe muito bem que não existe nada de mágico no dinheiro, que ele é apenas um objeto que simboliza um conjunto de relações sociais. Mesmo assim, agimos em nosso cotidiano, na vida real, como se acreditassemos que o dinheiro é uma coisa mágica.

Na teoria, o capitalista agarra-se ao nominalismo utilitarista (“dinheiro é só dinheiro”), mas, na prática (da troca), segue os “caprichos teológicos e argúcias metafísicas” e age como um idealista especulador.

A maior mentira da economia mercantil, a qual afimava que Deus havia morrido, acabou por nos cegar com sua glória de prosperidade e liberdade… mas, não somos nós que, todos os dias colocamos as mãos nos bolsos ou olhamos nossos extratos bancários e agradecemos silenciosamente com um enorme sorriso no rosto, por ainda podermos fingir que temos uma vida?

Amém.

verbete #8: [cidade e anti-cidade]

In vocabulário de palavras em desuso on fevereiro 10, 2012 at 20:05

Cidade

Diderot no século XVII escreveu na Enciclopédia o verbete “cidade”. Esse verbete traça um panorama histórico e simbólico sobre como as cidades são criadas e, mais do que isso, a forma como o poder na cidade é retirado das mãos dos cidadãos em direção a um outro, garantindo segurança e outras comodidades. Podemos perceber que os ideais Iluministas explicam a sujeição do povo ao poder por meio de um voluntarismo. Os homens por seu próprio interesse aceitariam a subordinação ao poder e as leis da cidade.

Esse pequeno exemplo demonstra o óbvio: a cidade sempre foi um local de poder conformado em uma estrutura que força seus habitantes a uma abdicação constante de suas vontades em prol de uma suposta segurança. O poder pode emanar do povo, mas isso não implica que será gerido por ele.

Mesmo que parte de um circuito de saberes sobre a cidade de Paris, que envolveram profissionais de diversos países, a figura do Barão de Haussmann contribuiu significativamente para a configuração da ideia de cidade moderna.  A cidade é remodelada pelo poder de forma explicita, com a transformação das ruas estreitas de Paris em longas vias, bairros centrais anteriormente habitados por trabalhadores pobres foram aburguesados. Tais medidas visavam conter qualquer lastro de revolução e negação do poder, além de cumprir um papel central na manutenção e na reprodução do modo de produção capitalista. O uso de barricadas, aproveitando as conformações espaciais e arquitetônicas era muito comum no centro de Paris, com as reformas o exército poderia manobrar canhões facilmente contra os levantes, um exemplo disso foi a Comuna de Paris, mesmo que com suas enormes barricadas em 1871 já assinalassem o fracasso circunstancial do empreendimento urbanístico e uma resistência a ele, isso não evitou a reiteração e expansão de seus paradigmas.  As barricadas depois de Haussmann tornaram-se quase impossíveis (até Maio de 68 ). A reforma de Paris uniu habilmente a repressão às insurreições e um senso estético homogeneizador, que ganhou um belo nome “embelezamento estratégico”. O poder – aqui entendido como um conjunto de instituições (dentre elas, aquelas pertencentes ao Estado) e grupos de influência de interesse privado que se juntam convenientemente à estrutura institucional – constrói um imaginário e molda a cidade por meio de grandes construções. Há a destruição da memória da cidade através do urbanismo, principalmente no caso de Paris onde as revoluções deixaram marcas profundas na cidade e que foram apagadas.

A formação da cidade moderna (considerando Paris como esse modelo paradigmático), seu crescimento vertiginoso e o desenvolvimento da técnica evidenciam não só uma mudança social, econômica e urbanística, mas também da própria percepção dos moradores e transeuntes da cidade. A experiência urbana moderna, com seus aspectos mais rápidos, caóticos e fragmentários, acabou por provocar novos registros da experiência subjetiva através de choques físicos e sensitivos do ambiente. Em meio ao tráfego, barulho, grandes prédios e multidões, o indivíduo se defrontava com o aumento da estimulação sensorial, com o bombardeio de impressões. O ritmo da vida se configurava mais frenético e acelerado pelas formas de transporte rápido, pelos horários prementes do capitalismo moderno e pela velocidade apressada da linha de montagem. Esse tempo é rapidamente internalizado (que passa a ser encarado como algo natural), modificando as relações concretas das pessoas e sua relação com o espaço.

Se por um lado a multidão e a experiência na cidade parecem fazer com que a noção de identidade seja dissipada, por outro, temos a formação de uma nova identidade desses homens na multidão. Esse novo habitante da cidade vai se constituir a partir da própria fragmentação, do anonimato e da despersonalização. A cidade moderna instaura a contradição: a mesma alienação que priva os homens de sua individualidade, provocando um senso de não pertencimento, também permite a formação de novas maneiras de socialização. Ou seja, a mesma cidade moderna que aliena é justamente a que instaura possibilidades de emancipação. É com a cidade moderna que podemos perceber claramente esse desenraizamento, a perda de uma “constituição originária”.

 É importante notar como as atuais e influentes noções de política e de espaço público ainda são marcadas por um forte traço idealizador do passado. Devemos tentar quebrar essas ideias que firmam o modelo grego (ou até mesmo anterior e primitivo) como um ideal normativo.

Não há situação ou estado mais “natural”, “livre” e “verdadeiro” para onde possamos voltar (momentos quase sempre colocados em um ponto imemorial do passado). Não se trata de esquecer o passado, mas de evitar sua imagem mítica e arcaica, tendo sempre em vista que um dos traços da modernidade e do capitalismo é o apagamento do passado recente, colocando a novidade como o mais importante e nos fazendo crer no passado remoto como eternamente presente e permanente. O que podemos fazer é recolocar tais noções em jogo, atualizando radicalmente essas lutas do passado sem avaliá-las por referencia a um modelo, mostrando que nem sempre o mundo foi assim e fugindo de um tempo pseudo-cíclico que nos afasta do presente.

O atual senso comum afirma que uma cidade define-se como uma área urbanizada com população, densidade populacional, estatuto definidos e avaliados sobre critérios técnicos específicos.  Essa noção facilmente disseminada por especialistas e burocratas acaba por perder a dimensão subjetiva e simbólica, assim como um conjunto de relações políticas que também constituem a cidade com seus encontros, confrontos, conhecimentos e reconhecimentos. É importante lembrar que ainda que a cidade possua relações cotidianas potencialmente emancipatórias, carregadas do particular e do vivido, elas transmitem, ao mesmo tempo, as mensagens hegemônicas do poder e da dominação, representações das relações sociais de produção.

A cidade contemporânea é aquela administrada e controlada sob critérios supostamente democráticos, em que a condição de “indivíduo” não possui nenhuma dimensão política – restando o confinamento no espaço privado e domesticador do mundo urbano. O “público” nada mais é do que a manutenção da ordem pública em favor da ordem privada, uma relação de subordinação dos bens comuns e do uso das coisas. Ainda que atos legais públicos possam trazer mudanças e sejam reconhecidos pelo Estado como legítimos por exporem as falhas do sistema, dificilmente tais ações deixam de ser cooptadas, geram pressões por mudanças mas não colocam em xeque o próprio ordenamento legal existente.

A condição de “cidadão”, daquele que habita a cidade e que deveria caracterizar um indivíduo que goza dos direitos civis e políticos de um estado livre (tão falsamente alardeado como um “progresso” e um “bem”), é parte de uma terminologia burocrática que submete indivíduos a mecanismos de dominação complexos baseados no mercado e na submissão política. A cidade, desde o século XIX, vem se consolidando em sistemas de administração de produção e serviços, e nós nos distanciamos cada vez mais da possibilidade de uma experiência consciente. Já que construir e morar em cidades implica necessariamente em uma vida coletiva, os princípios de coletividade deixaram de ser definidos por qualquer lampejo de vida social autônoma. Sob esse parâmetro, não são os indivíduos que definem a sociedade, mas sim, os cidadãos submetidos ao poder urbano que definem a coletividade e o que poderia vir a ser a vida social na cidade. Entretanto, somos privados de participar dessa vida social, já que a experiência hoje se dá de maneira particularizada e fragmentária. Então, somente nos é “permitido” a contemplação espetacular, a performance da participação e o consumo dos espaços. A cidade como conhecemos impede a real relação entre as pessoas (aqui, o “real” só pode ser entendido em seu sentido negativo à atual ordem das coisas e como uma condição de possibilidades que se apresentam a partir dessa negação).

Então devemos lembrar que a cidade não é liberdade, é a centralização do poder em algum lugar sob nossas cabeças. É confinar o indivíduo e administrar seus desejos. Quanto mais complexificada, mais expandida, maiores os mecanismos de controle e dominação da cidade.

Anti-cidade” ou “pelo fim da cidade”

A consciência necessária para a libertação do indivíduo urbanizado, e para a subsequente apropriação e ressignificação da cidade, é a de que cidade não é um fenômeno natural. É um artefato que tende a corresponder com os mecanismos de dominação de um poder centralizador, e deve ser reconhecida como tal. Mesmo com o atual discurso de uma descentralização das gestões e da participação popular nas decisões da cidade, esses modelos não se concretizam principalmente por conta do emaranhado burocrático construído historicamente numa estrutura hierárquica. A tal “democracia participativa” acaba funcionando apenas como uma instância performativa e como um belo nome para os mesmos processos hierárquicos. Essa dominação tem se desenvolvido sob a inaceitável “crença no poder emancipatório da evolução capitalista” que funcionaliza o cotidiano e o torna um vazio de ações espontâneas e autônomas.

Para uma cidade melhor é necessário buscar o fim da cidade. O fim da hierarquização e do controle político, o fim da submissão ao espaço construído. É necessário romper com os valores simbólicos constituídos e cristalizados, que nos definem como seres inferiores ao espaço urbano controlado, que docilizam nossos corpos e acabam por internalizar os padrões normativos impostos pelo poder. Devemos rejeitar também a arquitetura e o urbanismo como saberes dominados por especialistas em favor de qualquer espaço transformado pelo trabalho humano.

 A anti-cidade é justamente a negação diária da cidade como ela se mostra e é dessa negação, dessa recusa que se faz no cotidiano, que é possível uma abertura para novas possibilidades que não essas já reificadas e mortas.

Post-Scriptum

Talvez esse texto soe determinista e catastrófico, pelo fato de não nos preocuparmos em explicar como essa situação histórica opressiva se formou (assim como propor concretas reversões desse quadro),  mas aqui colocaremos o seguinte problema/proposta: não bastaria simplesmente apelar à existência do sofrimento social resultante da opressão, da pauperização persistente, das práticas disciplinares presentes em múltiplas instituições sociais e na própria cidade para que nós nos insurjamos?

A Tradição Praieira Insurgente de Belo Horizonte

In blog on maio 28, 2011 at 04:06

(o presente texto não pretende ser uma versão definitiva sobre as movimentações de Belo Horizonte, principalmente sobre a Praia da Estação, já que sua proposta desde o início era a de não eliminar os vários discursos e motivações que a compunham )

Belo Horizonte, no início de 2010 foi tomada pela Praia da Estação, ação aliando estética e política com a proposta de questionar os processos higienizadores que a cidade passa (cujo um dos pontos mais evidentes foi o decreto Nº 13.798 DE 09 DE DEZEMBRO DE 2009 do prefeito Márcio Lacerda que proibia “eventos de qualquer natureza” na Praça da Estação). Durante quase um ano (mesmo que com alguns períodos esparsos) pessoas vestidas com roupas de banho, cadeiras de praia e guarda-sóis aproveitavam as manhãs de sábado para ocuparem a praça de uma forma divertida e debater sobre questões relativas à cidade.

É verdade que a Praia permitiu vários e preciosos encontros e a partir dela muitas articulações foram organizadas, por outro lado, isso não impediu que depois de alguns meses ocorresse um certo apaziguamento de suas propostas, fato que acabou transparecendo na recepção da Praia como apenas mais um evento cultural e fetichizado (um risco que já havia sido tratado pelo próprio [conjunto vazio] em um texto publicado logo após a primeira Praia e que outras pessoas também haviam apontado) .

O que deveria ser um espaço aberto para vivenciar e discutir a utilização da cidade acabou por se tornar um local mais para ver e ser visto, um point obrigatório e descolado. A apreensão da imprensa muitas vezes ajudou a reforçar apenas esse lado festivo, a reportagem da revista Encontro intitulada “Até Parece A Lapa” aparece como a mais sintomática nesse aspecto. A matéria não expõe, nem mesmo superficialmente,as críticas feitas ao Prefeito Márcio Lacerda que com seus mandos e desmandos foi o mote para a primeira praia, no relato da revista jovens aparecem, como que em um passe de mágica,usando trajes de banho e tomando sol na Praça com o intuito de revitalizar o Centro.

Também nos parece significativo que vários banhistas da Praia fossem sistematicamente convidados para participarem de debates sobre os novos rumos da cultura na cidade. Alinhando discursos com os de alguns grupos artisticos, os quais não vão além da crítica reformista e mais preocupados comas leis de incentivo e a “classe artistica”. Muitas dessas discussões acabavam por personalizar prefeito Márcio Lacerda como “o” inimigo, atacando apenas a representação do poder. É absolutamente claro que o prefeito faz uma das gestões mais desastrosas e totalmente alinhada com os interesses mercadológicos, mas não nos parece uma boa estratégia elegê-lo como o único e maior mal da cidade, como se bastasse apenas trocar o prefeito para que os problemas de Belo Horizonte se resolvessem .

Não se trata de negar o caráter estético e alegre que a Praia TAMBÉM teve, mas de explicitar a hipótese de que houve a perda de um potencial político e questionador em prol de seu lado cultural e lúdico. Importante frisar que para muitos dos frequentadores da Praia e das pessoas que a discute (no blog e na lista de e-mails), isso não é de fato uma questão relevante, mas nos parece problemático que uma movimentação com um  tamanho potencial agregador e crítico seja tomada apenas como mais uma atração divertida no final de semana.  Ou seja, ao invés da Praia (e das relações que se criaram dentro dela) conter críticas revestidas de um senso festivo e estético, sua inversão a transformou em um produto cultural com leve um verniz  crítico.

O que se chamou e o que se pretendia como constituição de um movimento, não conseguiu dar um passo a frente em direção a uma crítica mais radical, contundente e aprofundada, tampouco conseguiu dialogar com outras agitações da cidade e com outros locais da cidade (mesmo que se tenha tentado, e é necessário destacar, outras ações como o “Que Trem é esse?” e  a Praia no Aglomerado da Serra). Novamente, cabe dizer que também não sabemos qual seria esse próximo passo e o problema permanece aberto ( sem que isso seja um demérito, pelo contrário, só nos instiga a propor mais questionamentos e ações).

Cabe aqui então desmontar a idéia de “novidade”, que acaba por fascinar muita gente e nublar as discussões, historicizando e dando a ver uma série de ações questionadoras da cidade que já continham uma estética “praieira”. Então, apresentaremos um pequeno panorama do que chamamos (pomposamente e de maneira idiota)  de “Tradição Praieira Insurgente” .

Não morreremos na Praia!



Grupo Galpão – Queremos Praia

Em 1989, o Grupo Galpão  criou o happening “Queremos Praia”. O grupo convidou atores e bailarinos de vários grupos teatrais de Belo Horizonte para essa intervenção urbana, realizada na Savassi e na Praça Sete. Todos vestidos em trajes de banho, saem às ruas convocando a população para um protesto em que reivindicavam a criação de uma “praia” em Belo Horizonte.



Lotes Vagos

“Lotes Vagos” foi um documentário de 2006, realizado por Ines Linke e Louise Ganz que retratam a ocupação de seis lotes vagos. Esses lotes tinham tamanhos e características diversas, estavam espalhados por vários bairros da cidade e em cada um foi dado um uso específico, tentando fazer dialogar esse lote com o espaço em torno. Em um desses lotes, foi criado uma praia, com piscina de plástico, espreguiçadeiras e guarda-sóis.



[conjunto vazio] – A Ilha

O coletivo [conjunto vazio] em meados de 2008 realizou a intervenção urbana “A Ilha”, que se propôs a ocupar rotatórias e espaços aparentemente sem uso.

Com uma proposta bem simples, ocupávamos a cidade com nossos amigos, avós e alguns traseuntes para uma tarde divertida e despretensiosa.


Banho de Sol na Praça Raul Soares

 Em julho de 2008 a designer Márcia Amaral ia de maiô à praça Raul Soares, aproveitar a fonte e o sol. Reivindicava o uso e a tomada desse espaço, para que famílias fizessem piqueniques, que as crianças, cadeiras e cangas pudessem ficar no gramado (ainda hoje não é permitido utilizar o gramado). Em agosto de 2008, Marta foi presa enquanto tomava sol na praça, segundo os policiais por desacato à autoridade.


Coletivo Azucrina – Rotatória de Praia

O coletivo Azucrina em dezembrol de 2009 promoveu a rotatória de Praia (importante frisar que o coletivo já estava a alguns anos fazendo festas temáticas e shows em rotatórias), que ocupou com shows a Praça da Estação.



Praia da Estação


Iniciada em 16 de janeiro de 2010, a Praia da Estação é uma ação direta, uma festiva e lúdica forma de ocupar a cidade.



 Praia Atlântico Clube

Intervenção artistica realizada por Ines Linke, Louise Ganz e Daniel Carneiro em agosto de 2010 que transformou um espaço clube-praia com a intenção de discutir temas como consumo,  espaços urbanos e lazer. Foram vendidas  cotas para se tornar sócio do clube por R$0,50.



 Praia da Estação em Coronel Fabriciano

Em maio de 2011 inspirados pela Praia da Estação de Belo Horizonte alunos de Arquitetura da Unileste-MG realizaram uma praia na Praça da Estação  de Coronel Fabriciano na  “17ª Semana Integrada de Arquitetura“.


Piscinão de Ramos em Belo Horizonte

Se você acha a Praia da Estação elitista, não tem mais desculpa: venha para o Piscinão de Ramos da Rodoviária!” em tom de humor e ao mesmo tempo crítico, o Piscinão de Ramos de Belo Horizonte é herdeiro direto da Praça da Estação. A partir da constatação de que era pouco discutir e ocupar apenas a Praça da Estação, sua proposta é levar a praia para um um lugar visto apenas como de passagem, onde habitualmente apenas mendigos e prostitutas se aventuram a permanecer.



O que fazer quando o capitalismo é muito mais divertido e estético do que a arte?

In blog on abril 15, 2011 at 12:50

Quando eramos novos acreditavamos que fazer arte, criar e expressar nossas idéias era por si só revolucionário. Dizíamos que ter uma banda, montar um coletivo, fazer fanzines, etc. era o caminho para sermos mais autênticos,  coerentes com os nossos desejos e uma forma para combater o status quo dominante. Nossos ideais e ações tinham sempre como premissa a festa e o estético, isso servia para afastar todo o rancor, seriedade e postura militante que encarávamos na “velha esquerda”, ortodoxa e caduca.

Não que agora estejamos velhos ou renegando tais práticas (e muito menos querendo deslegitimar quem ainda crê e realiza tais posturas), trata-se aqui de ser coerente em tentar levar a cabo a crítica que propomos a partir do problema que se apresenta,  mesmo que seja necessário colocar em xeque e até abandonar nossas velhas e entranhadas prerrogativas.

Talvez a questão central: “O que fazer quando o capitalismo é muito mais divertido e estético que a própria Arte?”  não possa ser respondida, mas tampouco poderá ser evitada por aqueles que acreditam que lidar com o estético pode carregar potencias questionadoras e emancipatórias.

Grande parte daqueles  que são atravessados por esses problemas (artistas engajados, artistas políticos, artivistas  ou outro nome qualquer que queiram dar) respondem a questão tentando conciliar um fazer crítico com o estético sem de fato se atentar que em nossa época, as condições para a criação de relações anticapitalistas, criativas, divertidas e rizomáticas nunca foram tão propícias e estimuladas. Estaríamos então simplesmente encarcerados no próprio ciclo de produção que acreditávamos combater?

"Se alguém pensa que Hakim Bey é subversivo é porque ainda não conheceu os publicitários da Volkswagen"

Nessas configurações nos parece evidente que o problema do capitalismo no futuro será a utilização do tempo livre.  O artista aparecerá então, não mais como um pária ou crítico (como querem alguns), mas como um organizador dos  lazeres, cabendo a ele propor eventos e situações (qualquer um que já visitou uma loja da Apple sabe que o vendedor, quase sempre misto de DJ e Designer, não vende o produto mas suas potencialidades de uso e criação) . Tal previsão cria para aqueles que tiverem conhecimento, mesmo que mínimo, das vanguardas artísticas do século XX uma sensação de familiaridade e pavor já que as propostas de emancipação e utopia foram invertidas e incorporadas à lógica capitalista. O potencial disruptivo de tais vanguarda foram transformadas em glamour e novas tendências disponíveis para todos os setores do consumo .

Se a crítica aos moldes clássicos e todo um fazer estético que antes era questionador se mostra inócuo, a simples indiferença também não se mostra um caminho (como algumas críticas querem nos fazer crer ser a única e apocalíptica alternativa) como se bastasse sentar e esperar ruir o mundo sob nossos pés.

Impossível não levar tais críticas para o interior do [conjunto vazio] já que procuramos desvincular estética da Arte,  buscando fugir da lógica de apreensão de um objeto ou evento como imediatamente artístico. Fugindo de lugares onde essa relação já se dá de imediato e tentando de fato usar “procedimentos artísticos” na cotidianidade. Mas qual a real efetividade de tal estratégia?

O problema está posto, resta saber se não estamos incorrendo aos mesmos erros que apontamos…  cabe então, não apenas reelaborar questões e críticas, mas a possibilidade de criar uma nova práxis que se faz no cotidiano para além da Arte, da especulação vazia e da aceitação de grupo.

verbete #6: [arte como ideologia]

In vocabulário de palavras em desuso on junho 8, 2010 at 21:52

Esse texto pretende relacionar arte, poder e ideologia partindo da constatação de que cada época deu um valor e uma conceitualização ao termo “Arte”. Se tal problema é abordado de uma maneira histórica e não metafísica, veremos que é só a partir de um período histórico que a Arte, semelhante a como conhecemos hoje, começa a exercer um enorme poder simbólico, servindo grande parte das vezes apenas como um instrumento das classes dominantes para a manutenção de seu status quo. Não se trata aqui de tentar retirar as potências e o valor de uma experiência estética, mas justamente estabelecer uma cisão entre o conceito de Arte e os objetos/eventos estéticos.
A fraude contida no conceito moderno de Arte começa em como ela foi tomada, como uma atividade universal e indissociável da condição humana. Parece incongruente que pinturas rupestres e manifestações de povos antigos sejam expostas e definidas por nossa sociedade ocidental como Arte. Tal afirmação demonstra que não é levado em consideração que tal atividade está inserida em um contexto muito especifico, são importantes rituais de fundo místico e social. Além disso, os objetos criados a partir desses rituais não ficavam expostos para a apreciação do público, não existindo uma separação de quem os cria daqueles que os observa. Essa experiência não estava separada da vida cotidiana.
Então, por qual razão nos nossos livros de História do colégio estão repletos de capítulos, fotos e escritos dedicados à chamada Arte dos ditos “povos primitivos”? Para responder a isso será necessário adentrar nas redes de poder presentes no cotidiano, já que a maioria meios de formação do indivíduo (principalmente a escola) existe para induzir habilidades e interesses que dependem muito dos valores, crenças e do caráter da vida “cultural” de uma sociedade. Nosso gosto passa a ser moldado pelo meio social em que vivemos e é através desse meio que se começa a instituir para o sujeito que tipo de Arte será valorizada. Mesmo as pessoas que afirmam não gostar ou entender de Arte costumam demonstrar interesse por música (emissoras de rádio e majors), cinema (blockbusters), arte dramática (novelas), dança (boates e danceterias), ficção (romances e best-sellers), mas tais interesses não são abarcadas pelo escopo do que seria considerado realmente Arte. Isso acontece pois a Arte se apresentaria como uma subcategoria dessas categorias mais genéricas, ou seja, a Arte não seria: cinema, pintura, teatro, música, etc., sendo considerada como algo superior e além. Parece óbvio que no exemplo citado ocorre uma clara diferenciação das percepções de valor. Se alguém diz que o livro que acabou de ler é uma obra de Arte, na verdade, está dizendo é que o livro lido tem mais valor que os outros, dos quais a classificação de Arte foi retirada.
Somente a partir do século XVII, com as mudanças sociais vigentes, é que começam a aparecer definições de Arte que se assemelham àquelas perpetuadas ainda hoje no senso-comum. Tais  definições aparecem socialmente localizadas na Europa, por uma burguesia incipiente que começava a invadir o espaço da aristocracia e a tomar valores dessa para si.
O conceito Arte como conhecemos hoje emerge na era industrializada, embora as produções culturais “de valor” tenham surgido anteriormente em um conceito aristocrata. A Arte seria uma invenção dessa aristocracia, mas ela não chegou a elaboração de uma  teorização e uma categorização. A burguesia não inventou a Arte, mas reinventou o conceito que gerou todo um novo vocabulário e um valor para se referir à Arte. É muito claro para os românticos que o artista era o depositário oficial da criatividade humana e da consciência. Apenas o artista possuía as paixões que a necessidade espiritual, um dia, forçaria a sociedade como um todo a adotar. Esse novo objetivo da Arte retrataria e glorificaria essa antiga ordem sócio-econômica que a burguesia havia ameaçado destruir por completo. Após as revoluções em que haviam conquistado seu posto privilegiado como classe dominantes os burgueses viam essa radicalidade como algo que poderia ser abandonada. Desse momento em diante, o desenvolvimento da Arte fica amarrado ao desenvolvimento da classe burguesa.
É possível observar mudanças concretas na Arte Moderna como, por exemplo, a reclassificação da literatura e da pintura como Arte, ao contrário do que ocorria até o século XVI. Ainda hoje o conceito de “Arte” vem sendo alargado para receber novas (e rentáveis) formas estéticas. Mesmo assim, é interessante notar que o valor metafísico atribuído à Arte ainda não desapareceu, funcionando de modo semelhante ao das religiões, já que, assim como o objeto religioso necessita da fé para tornar-se sacro, também um objeto “artístisco” necessita de uma crença estética para que seja visto como arte.

Tendo adotado uma perspectiva materialista e antiessencialista da Arte, é preciso atentar-se sobre os dois únicos pontos em comum que agruparia objetos sobre a categorização de Arte: serem tratadas e recebidas como tal. Em outras palavras, obras de Arte são qualquer coisa que aqueles em posição de poder cultural afirmem que seja Arte. Este poder está representado pelas instituições de Arte, críticos, estetas, teóricos e todo um sistema de poder que os legitima, são mantidos por essa validação e trabalham juntos para definir o que é tratado como Arte e, principalmente, o que não é (ou o que não é considerada “Alta Arte”).  A Arte seria definida a partir da circunscrição de suas condições de produção e apresentação, aquilo que no teatro, por exemplo, atores, diretores e dramaturgos apresentam é Arte, e é Arte porque é apresentado no quadro do mundo do teatro, uma argumentação propositadamente circular. O produto artístico é elaborado e recebido pelo “mundo da Arte”, no qual somente especialistas (essas redes de legitimação já citadas) e um grupo de iniciados tem acesso.
A chamada cultura popular perde sua amplitude e a capacidade de manifestação, já que a camada dominante acaba por desmerecer e diminuir as manifestações culturais, estéticas e criativas das classes populares. Se cultura é só o que está nos museus, teatros e outros espaços especializados, rapidamente decorre-se que as classes populares não possuem cultura. Portanto, a Arte passa a ser antes de tudo um fator de coesão social, mas também de produção de capital tanto monetário como simbólico. Números aproximados revelam que o mercado de Arte movimenta cerca de US$ 30 a 40 bilhões ao ano, sendo um dos maiores setores de geração de recursos. Portanto, a questão de um poder econômico relacionado ao que é produzido, consumido e legitimado como Arte não pode ser desconsiderado.
O conhecimento do mundo da Arte está intimamente relacionado à hierarquia social e não possuir tal conhecimento significa ser excluído dos grupos que detêm poder e status. Assim a Arte não passaria de um grande jogo para vender um estilo de vida como algo superior e elevado, então parece óbvio por qual razão  ela se apresenta como a mercadoria ideal. Não é estranho que se queira oferece-la a todos com tanto empenho…

Respostas ao texto “Pixação: questões sobre arte, mercado e práxis”

In blog on abril 26, 2010 at 10:15

Reproduzimos abaixo um e-mail de Djan Cripta em resposta ao texto “Pixação: questões sobre arte, mercado e práxis“,  achamos que é extremamente relevante publica-lo aqui pois problematiza questões ainda obscuras e relevantes da questão . Além disso, esse e-mail corrige algumas informações erradas do texto anterior e exibe a visão de alguém que está totalmente imerso na pixação.

Outra resposta ao texto do [conjunto vazio], dessa vez sob uma perspectiva de revelar o que é o desejo por trás da crítica e questionar o proprio posicionamento do coletivo , pode ser encontrada aqui .

“Salve Coletivo (CV).

Meu comentário foi mais em questão de algumas colocações erradas de vocês sobre nos, Não somos o coletivo Sustos, Sustos é o nome de uma das turmas ou gangs como preferirem, Sustos é a turma que a Caroline faz parte.
Nossa revolução foi batizada de “Alem do Bem e do Mal”, varias turmas da pixação paulista resolverem se juntar a essa causa após receberem um convite que foi distribuído em points de pixadores, o mentor intelectual de todos os ataques foi o Rafael Pixo BomB porem ele precisou da minha influencia com vários pixadores para executar os ataques, eu sou conhecido por Cripta Djan entre os pixadores, foi levantando o nome da turma Cripta que fiquei conhecido no movimento.
Eu e Rafael que sempre pixamos e escalamos prédios juntos nos juntamos nessa revolução, eu como líder das ações e Rafael como mentor intelectual, vou explicar o motivo de todos os ataques para que vocês entendam melhor.

Dez do primeiro ataque nosso propósito foi o de resgatar o lado contestador da Pixação que estava perdido e inserir o movimento em uma discussão no meio artístico, começamos pelo meio acadêmico que acabou rejeitando a tese de RAFAEL PIX BOMB que defendeu em seus quatro anos de estudos na Faculdade de Belas Artes a Pixação como forma de expressão artística.
A Galeria Choque Cultural sempre disse ser a única representante da arte de Rua do Brasil, e que não tinha preconceitos com nenhum tipo de expressão urbana, então demos a eles uma verdadeira exposição de Pixação dentro do contesto do movimento que é a ilegalidade, a resposta deles foi prestar uma queixa crime na policia.

A Bienal foi um convite da própria curadoria que declarou que a Bienal daquele ano (Em vivo contato) estava aberta para intervenções urbanas, e a resposta deles foi mandar a Pixadora Caroline Piveta da Motta para cadeia.

Os atropelos aos painéis de Grafites autorizados e financiados e uma cobrança a conduta dos Grafiteiros que se renderam ao sistema e assassinaram o espírito marginal do Graffiti, pois o verdadeiro Graffiti nasceu na ilegalidade e sempre se apropriava de espaços públicos de forma ilegal, alem disso o Graffiti passou a ser usado como antídoto contra a Pixação, já que os donos dos muros empresários e Governantes perceberam que locais Grafitados não eram pixados.

Neste ultimo ataque (Painel de Graffiti dos irmãos Os Gêmeos) entra duas questões, a do Graffiti autorizado e financiado, e da prefeitura estar mais preocupada em maquiar a cidade do que cuidar de outros problemas que a ela tem, independente se o mural foi patrocinado ou não pela Associação comercial de Empresários de São Paulo, essa iniciativa poderia ser tomada para cuidar de outras necessidades muitos mais importantes que a cidade tem, um painel de Grafite não tem utilidade nenhuma a não ser de enfeitar, e do que adiante pintar um local que cheira a bosta e urina humana, onde pessoas dormem na rua convivendo com ratos e baratas, esse projeto cidade limpa é varrer a sujeira da cidade para de baixo do tapete.

A exposição na fundação Cartier em Paris foi um tapa na cara da sociedade hipócrita Brasileira que sempre reduziu a Pixação somente a sujeira e vandalismo, a única obrigação que a Pixação tem é de ser ilegal é na RUA, em outros locais como no caso da Fundação Cartier será somente representativa, e só fiz essa reprodução por que em Paris não existe nossa Pixação, e nada mais justo para a Pixação do que ser lembrada em uma exposição que retratava a historia da arte de rua mundial.

Ao todo participaram dessa revolução cerca de 100 turmas de pixadores, em vista do numero de turmas que existe ainda é pouco, muitos ainda preferem se dedicar somente a seus pixos, esse é um problema, a vaidade atrapalha muito para que aconteça um levante maior, mas estamos lutando pra mudar isso.

No caso de agora estarmos envolvidos nessa Bienal até parece que estamos nos rendendo, mas não vou estragar a surpresa sobre de que forma vamos fazer isso sem cair em contradição.

Qualquer outra duvida me avisem.

Abraço”

Pixação: questões sobre arte, mercado e práxis

In blog on abril 21, 2010 at 19:30

A quem interessa uma inserção mercadológica e um status de arte da pixação*?

O que antes era considerado vandalismo e um ato criminoso começa a ser visto e reivindicado como produto artístico. Podemos observar tal fato se lembrarmos do livro “Pixação: São Paulo Signature” do pesquisador, arquiteto, designer gráfico, tipografo e fotografo francês, François Chastanet, que foi à São Paulo catalogar as letras espalhadas em muros e prédios, lançando este livro, que expõe a tipografia e caligrafia da pixação. Fato semelhante ocorreu com o livro “Ttsss… a Grande Arte da Pixação em São Paulo, Brasil“ organizado pelo pixador Boleta, considerado um dos maiores nomes do gênero. O livro é vendido como o “primeiro grande livro de arte de vanguarda” e tem grande aceitação na Alemanha, Estados Unidos, França, Espanha e Holanda. Lá fora a pixação já é considerada uma arte e é vista por alguns como artigo de exportação, o que seria comprovado com a recente camisa de futebol da seleção brasileira, feita pela Nike, em que se utilizou a estética do pixo.

 

Nunca x Nike Sportswear "Team Brazil" Pack

Design: Nike Sportswear

 

A questão parece ser ainda mais relevante se analisarmos as últimas ações organizadas pelo Susto’’s e o recente anúncio da participação de pixadores na 29ª Bienal Internacional de Arte de São Paulo. Estes acontecimentos levantam importantes indagações sobre a comercialização e o apaziguamento do caráter subversivo da pixação. Isso não parece surpreender aqueles que já acompanham os desdobramentos de uma polêmica que começa em junho de 2008,  com a invasão de Rafael  PixoBomb (integrante do Susto’’s) à  formatura/exposição da Faculdade de Belas Artes, curso que fazia e que estava prestes a se formar. Pixaobomb acompanhado de outros pixadores intervieram em várias obras de arte que lá estavam e acabaram por entrar em confronto com alunos, familiares e seguranças da galeria, saindo algemados do local. Pixabomb alegou ter sido esse o seu Trabalho de Conclusão de Curso (TCC).

Em setembro de 2008, acontece a invasão da Choque Galeria de Arte, especializada na chamada Street Art. Cerca de 30 pixadores invadiram a Choque e pixaram não só as paredes, como várias obras que lá estavam expostas. A ação foi organizada através de um manifesto chamado “Atack Part 2: A Caminho da Revolução 2008” como uma critica a galeria Choque, que mesmo sendo considerada uma galeria dedicada à arte de rua underground, não abriria espaço e nem exporia obras de pixadores. Sobre essa intervenção, falou-se  até de uma suposta valorização monetária das obras pixadas, como se um maior valor simbólico fosse agregado a elas.

Um mês depois, em outubro de 2008, acontece a invasão da 28ª Bienal de  arte de São Paulo. Cerca de 40 pixadores (integrantes do Susto”s, Secretos e 4) invadiram a abertura da Bienal ao público pixando as paredes do segundo andar que estava propositadamente vazio. Tal ação gerou muita repercussão, principalmente pela prisão da pixadora e integrante do Sustos, Caroline Pivetta.

Um aspecto problemático vem a tona com as ações do Susto’’s. Do ponto de vista de uma atitude antiartística, as intervenções do coletivo parecem extremamente coerentes com uma crítica revolucionária aos padrões de arte dominante. A grande questão recairia sobre os discursos proferidos pelo Susto’’s e, principalmente, pelo  Pixobomb, que remetem sempre a uma tentativa de inserção  no mercado, citando várias vezes sobre como o pixo não é considerado arte ou sobre como apenas algumas pessoas ganham dinheiro com a pixação. É notório como parece haver nessas intervenções um caráter espetacularizado e midiático, gerando sempre a dúvida: é uma oposição/questionamento da arte ou simplesmente uma atitude para que o pixo tenha o mesmo status da arte (e consequentemente tenha o mesmo valor financeiro)? Aparentemente, o que seria uma relação negativa à arte, com ações que levariam a crer em um total desprezo de instituições, obras, artistas e da própria arte,  revela-se marcada pela tentativa de fazer do pixo ele mesmo uma categoria de arte elevada e legítima, em que os pixadores seriam reconhecidos como artistas e, consequentemente, obteriam inserção mercadológica nos circuitos artísticos.

O pretenso discurso revolucionário e questionador do Susto’’s e Pixobomb, afirmando fazer protestos contra a comercialização, institucionalização e domesticação da cultura de rua parece soar ainda mais contraditório e ingênuo após o aceite ao convite da Bienal para a participação de pixadores no evento. O que antes era considerado uma contravenção pelos antigos curadores, que chamaram a ação de “vandalismo agressivo e autoritário”, é visto pelo atual curador da Bienal, Moacir dos Anjos, como um convite ao pensar. Para ele, o pixo borraria e questionaria os limites que separam a arte e a política, fato que  o levou a convidar os mesmos lideres da invasão do pavilhão vazio , em 2008, a expor seus ( agora assim chamados) trabalhos artísticos. A atitude da curadoria nos parece não só esperta, mas extremamente coerente, já que funcionaria como uma forma de expiar a omissão da instituição e sua repercussão negativa no caso da última edição (principalmente pela prisão de Pivetta). Esse “polêmico” convite da curadoria também daria visibilidade ao evento, criando um falso debate que lota jornais, revistas e meios acadêmico ávidos por esse tipo de celeuma. Não é preciso dizer que isso só ajuda a anular o pixo em suas dimensões políticas e de diálogo com a cidade para transforma-lo em apenas mais uma “escola” absorvida na instituição da arte.

Não se trata, aqui de fazer um juízo moral/estético sobre o pixo ou uma tentativa de retirar todo potencial questionador e revolucionário, os quais acreditamos existir nas ações dos pixadores. Concordamos com Baudrillard, que sobre o assunto diz: “A cidade é um “corpo sem órgãos”, como diz Deleuze, um cruzamento de fluxos canalizados. Os pichadores se vêm como aqueles que colocam ordem territorial. Eles se territorializam decodificado espaços urbanos – uma rua, parede ou bairro vem à vida através deles, tornando-se um território coletivo novamente. Eles não se limitam ao gueto, eles exportam o gueto através de todas as artérias da cidade, eles invadem a cidade branca e revelam que ele é o verdadeiro gueto do mundo ocidental “. A pixação é uma atividade em íntimo contato com a cidade, já que o pixador ressignifica violentamente o espaço. Mesmo assim, não podemos nos furtar de indicar que um dos problemas da pixação  reside em seu aspecto muitas vezes bairrista e exibicionista, servindo apenas para reafirmar a  demarcação de um território por um indivíduo ou um grupo. Tais grupos constantemente se organizam na forma de “gangues” com um caráter verticalizado e hostil à outros grupos que também intervêm na cidade.

Para além dessa discussão sobre o caráter positivo/negativo da pixação, é necessário questionar o uso que alguns fazem da pixação, evitando que sua prática se transforme em algo estéril, domesticado e  longe da juventude que já a quase 20 anos faz uso dela como uma forma de diversão e protesto. É através do pixo que eles expressam seu desrespeito ao urbanismo que não contempla a permanência na cidade, tratando-a apenas como um ponto de passagem sem que se favoreça uma real interação entre pessoas e esses locais e, principalmente, não permite que tais jovens, em sua maioria, moradores de regiões distantes dos centros urbanos, vivam a cidade de outras formas que não essa. Então, deveríamos pensar se o que dizem os Amig@s da Próxima Insurreição sobre o Susto’’s e Pixobomb está correto (“…os companheiros do Grupo Susto’s são inimigos da arte moderna e da liberdade artística”) ou se por trás de toda essa prática questionadora exista apenas o desejo de alguns serem integrados ao sistema da arte que aparentemente se opõem? Talvez seja esse o perigo de toda práxis crítica, transformar-se exatamente no que combate!

 

* Utilizamos a grafia “pixo” no lugar de “picho”, conforme o uso que os próprios interventores fazem

A quem interessa uma inserção mercadológica e um status de arte da pixação? O que

verbete #5: [mobilização e catarse]

In vocabulário de palavras em desuso on fevereiro 4, 2010 at 01:33

A história está recheada de situações nas quais ocorre uma mobilização social incapaz de levar a uma modificação das relações sociais, mas que, ao contrário apenas prolonga a sua existência. Há, dessa forma, um gozo substituto para as massas: tal mobilização visa a uma representação e não à causa que motiva a demanda. É o caso de linchamentos, quando a reação de uma comunidade frente a um crime não é voltar-se contra as causas do crime, mas eleger um indivíduo como a encarnação de todo mal. O linchamento é uma espécie de performance para afirmar os valores morais de uma determinada comunidade sem tocar na delicada questão de reformulá-los. O mesmo ocorre, por exemplo, com as medidas públicas de segurança. Está fora de cogitação uma política social para eliminar as causas da violência urbana, mas apenas voltar-se contra infinitos substitutos.

A manipulação de substitutos é um tópico essencial para compreender o modo de funcionamento da ideologia contemporânea. Se há uma decadência da esquerda é também porque todo descontentamento é realizado em “representações ou imagens de descontentamento”, não dando origem a uma verdadeira posição crítica. Antes é preferível oferecer signos de revolta através de objetos de consumo, do que reformular os próprios modos de envolvimento com a realidade social. Sem dúvida, a internet e a democratização da informação são ferramentas úteis para refinar a aderência dessas identificações em nós mesmos.

Algo estranho ocorre em sociedades democráticas. As mobilizações sociais não são totalmente proibidas, mas também não têm, geralmente, poder para transformar as relações sociais. Na verdade, por mais divergentes que elas sejam, elas têm a função precisa de garantir a auto-imagem de democracia. Elas são frequentemente mais performances que conferem certeza do quanto somos democráticos, do que uma verdadeira intervenção política.


Não é possível pensar a recusa de envolvimento político ou jurídico de mobilizações espontâneas como as chamadas T.A.Z (Zonas Autônomas Temporárias) nesses termos? Ou até mesmo passeatas e protestos longe de serem as mobilizações mais subversiva, não são apenas uma catarse para nossos descontentamentos?

Voltaríamos, então, a velhas questões e querelas, como por exemplo, definir quais seriam as formas centrais de se fazer política e efetivar a crítica, já que há uma enorme falácia na chamada “democracia”. Temos voz e podemos pronunciar qualquer critica, mas não há nenhuma comunicação ou horizonte de mudança possível. Além disso, é notório como os próprios meios da política “tradicional” estão sempre prontos a deslegitimar qualquer modo que desvie da sua burocracia e docilização, fomentando a sensação de que o estado das coisas seguem o seu curso de maneira autônoma sem que possamos sequer interferir,  uma tragédia grega onde só podemos sucumbir ao destino.

É necessário evidenciar que a política como conhecemos é uma atividade especializada e separada, exercida por poucos. Por isso, o embate político entre os que procuram gerenciar vidas e aqueles que resistem se dá já no cotidiano (qualquer proletarizado ou minoria política entende isso de imediato). Não poderíamos fugir de confrontar esse fato nem se quiséssemos, basta andar nas ruas ou ligar a TV para que isso salte aos olhos. Essa perspectiva reforça que não podemos nos furtar de inventar novas formas políticas que vão além de um “mudar o estilo de vida” ( discurso usado diversas veze pela publicidade como única forma de mudança possível na sociedade capitalista) ou de uma organização aos moldes da velha esquerda, que está sempre a espera de uma revolução que nunca chega. Não é possível sustentar posições reformadoras!


Seriam as T.A.Z, intervenções urbanas, ações estético-politicas, marchas e protestos (ou outro nome que queiram dar a essas manifestações) capazes de avançar em direção a uma perspectiva mais radical de mudança, mesmo que muitas vezes tais ações sejam usadas em grande parte das vezes para o simples expurgo do tédio cotidiano?

Nossa crítica não significa a  priori a negação de uma potência subversiva que essas ações podem provocar. O grande problema acontece quando há uma satisfação interminável com os “fins de semana revolucionários” sem que isso seja transportado para o cotidiano como um todo negando a especialização e a fragmentação. Embora apreendida e difundida como um modismo contido em kits literários para ativistas, os procedimentos que borrem as instâncias do poder, quando aplicados à prática cotidiana materializada, podem ser bons exemplos das possibilidades de transformar velhas e novas estratégias em radicais territórios autônomos e autogeridos.

Se tomados não como uma espécie de modelo e performance mas a partir de sua potência, tais ações podem enfim nos jogar imediatamente para o agora – é notório o quanto de nós vive no passado ou em planos que ainda não se concretizaram- servindo para esclarecer e trazer a tona o quanto estamos em descompasso com o cotidiano. A partir disso, as falsas promessas que nos vendem e transmitem a ilusória crença de felicidade e reconciliação ficam latentes e carregam a possibilidade de serem alterada. A urgente necessidade de afastar a premissa introjetada de que seria necessário primeiro aceitar as regras do poder instituído com todos os seus procedimentalismos burocráticos, para depois reivindicar a chance de alterar a vida também é posta em xeque. Todas essas manifestações, aparentemente muito simples e banais, serviriam para construir estrategias e ações capazes de criar novas formas de política e subjetividade; Experimentações capazes de gerar resultados imediatos, prazerosos, festivos e questionadores (mas que não encerram a discussão e muito menos as reivindicações).

É necessário frisar e perceber o enorme risco de que tais atividades possam ser inócuas e encerrem-se em si mesmas caso não compreendam o limite tênue em que se equilibram, entre o reificado ativismo e o lazer, como o tempo “livre” passivamente consumido.

Praia da Estação: Debaixo da praça a praia , debaixo da praia uma cidade inteira a ser ocupada

In blog on janeiro 21, 2010 at 00:23


 

“Sous les pavés la plage”

pichação  em um muro de Paris, maio de 1968

 

A Praia já aconteceu e foi  extremamente prazerosa.  Talvez soe clichê dizer que as pessoas pareciam estar em uma mesma sintonia.  Havia ali na Praça da Estação uma pluralidade de discursos,  com pessoas de vários pontos da cidade, de diversas idades e ideologias, todos compartilhando o mesmo espaço com o intuito de se divertirem e debaterem sobre o significado de se estar ali.

Mas é importante frisar: a Praia já aconteceu e acabou. Não se trata de afirmar que outras não poderão ocorrer ou clamar por um espontaneísmo purista de sua organização, mas pensarmos que quanto mais gerarmos expectativas para algo que se mostra fluido e de agregação horizontal corremos o risco de cairmos em  um evento que incida na perda do seu potencial político e radical, preocupando-se apenas em fornecer mais um serviço cultural para tirar as pessoas de seu final de semana entediante.


 

É preciso que se comece a pensar de fato no que pode significar invadir uma praça, fazendo dela um espaço de convivência e interação para, depois de tudo, voltar para casa em um ônibus que cada vez fica mais caro, no trânsito abarrotado de carros e em meio a pessoas sem perspectivas. Você tem o seu final de semana divertido e lúdico, mas na segunda-feira é obrigado a acordar cedo e ir trabalhar em um emprego que não gosta. Não seria contraditório esquecer isso? Todas estas contradições cotidianas estão relacionadas também com essa intervenção, e revelam o quanto não podemos nos limitar às questões de eventos artísticos poderem ou não ocorrer na Praça da Estação, como a maioria da imprensa noticiou em sua cobertura rasa e primária, um release.

O cerco se fecha em toda a cidade, sob o nome requintado de “revitalização”, que acontece não só em Belo Horizonte, mas atinge São Paulo e suas rampas/bancos antimendigos, a proibição da permanência em algumas áreas do centro; varre a região do cais do porto no Rio de Janeiro, desalojando famílias, recrudescendo investidas nos morros. Só alimentam uma cidade gentrificada e “limpa”, cujo uso não interessa, desde que possa gerar belos cartões postais. Belo Horizonte segue essa inclinação urbanística, esperando que a Copa de 2014 faça escorrer pela cidade uma torrente de dinheiro turístico que justifique essa paranóia higienista e orwelliana, como o “Projeto Olho Vivo” que coloca centenas de câmeras no centro da cidade, querendo nos fazer crer que o preço da “segurança” é a eterna vigilância.


Ações como a Praia vão na direção contrária dessa tendência e nos mostram que parece ser muito mais simples afastar o tédio, se divertir e dialogar com a cidade… então por qual razão esperar que alguém promova algo para aproveitar a cidade? Por que fazer isso só no centro, na praça da estação e não em seus próprios bairros?

 

É por essa razão que vale pensar no paradoxo de se fazer da Praia mais um evento espetacularizado. Por que não exigir tudo? Tudo que pode ser tomado de volta merece ser ocupado, e isso quer dizer não só a Praça da Estação mas todas as praças, todas as ruas e pontos não utilizados da cidade. Impossivel não dialogar com outras mobilizações de Belo Horizonte (Movimento Passe Livre, Brigadas Populares, movimentos dos sem-teto, Bicicletada, dentre outros), é necessário que saiamos do gueto artistico, ainda conservando todo o bom-humor e aspecto lúdico que nos permita exigir TUDO!

… pois a práxis é nossa!

 

Amig@s da Próxima Insurreição e [conjunto vazio]