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Belo Horizonte e (algumas de) suas movimentações subterrâneas

In blog on janeiro 18, 2015 at 20:45

“O mainstream vem até você, mas é você quem tem que ir até o subterrâneo.”

Frank Zappa

As insurgências cotidianas não começaram em junho de 2013 e não vão parar lá! É importante que se diga e se repita para que toda uma história de lutas não seja apagada pelo maravilhoso sopro do eventual que foi junho.

O apagamento da história recente em prol do fetiche da novidade é algo que beneficia igualmente acadêmicos, intelectuais públicos, estetas e o próprio poder econômico-político. No esforço para que nada ocorra, uma das estratégias mais claras de qualquer poder é impedir o acesso ao que veio antes e assim poder evitar o que virá, mantendo o separado enquanto separado, a experiência isolada e estranha. É negando o esquecimento que podemos fazer jus aqueles que vieram antes, substituindo o olhar meramente de espectadores por um olhar político, afirmando o passado como uma abertura, não homogênea e não contemplativa. É esse olhar que permite elementos dispersos possam ser reconhecidos como uma tradição insurrecional.

O crescente interesse nas práticas festivas, estéticas e políticas, com suas pretensões horizontais, autogestionárias, apartidárias e anticapitalistas é indício da difusão de idéias e experiências que até então estavam limitadas a pequenos grupos, subterrâneas. Para que muitas dessas vivências não se percam no tempo e na busca do sempre novo fizemos um apanhado altamente pessoal, totalmente parcial e criminosamente afetivo. Não pretendemos aqui realizar uma narrativa definitiva (sabemos como muitas coisas ficaram e ficarão de fora), longe disso… queremos também de certa forma estabelecer a NOSSA genealogia, já que somos altamente devedores das movimentações citadas!

Começaremos então uma pequena e confusa linha de (algumas) movimentações subterrâneas em Belo Horizonte:

– MANSÃO LIBERTINA/COMUNA

Mansão Libertina

Espaço anticultural do final dos anos 90 e início dos 20000 que contava com biblioteca, estúdio para ensaio, shows, festas e palestras. A Mansão era um espaço de moradia mas que também abrigava maravilhosas bandas como o Saddest Day, Libertinagem, Retórica e projetos como o coletivo Cisma, além de ser um local central importância para as movimentações da época.

– CARNAVAL REVOLUÇÃO

Carnaval Revolução

Criado em 2002 na Mansão Libertina e posteriormente realizado em diversos lugares inusitados (de um hotel no centro a um lava-jato, passando por um sítio e uma escola pública) o evento ocorreu durante 10 anos sempre no período de carnaval com shows, debates, oficinas, apresentações de teatro, performance, palestras.

Constituía como um importantíssimo ponto de encontro de diversos indivíduos e movimentações em todo Brasil afim de discutir, divulgar e vivenciar práticas libertárias.

Pequeno texto no Centro de Mídia Independente sobre o Carnaval Revolução (www.midiaindependente.org/en/red/2003/12/269216.shtml)

Carnaval Revolução - Bloco

– GATO NEGRO – CENTRO (ANTI)CULTURAL

 Gato Negro

Criado após o Carnaval Revolução em 2002, o Gato Negro – Centro (anti)cultural funcionou no Maletta até 2005 com uma vasta programação que incluía vídeos, debates, palestras, oficinas (incluindo de arte urbana e culture jamming) e cursos. Permanentemente qualquer pessoa podia ter acesso à livros, revistas, vídeos e fanzines. Funcionava lá também um café vegano.

O Gato Negro hoje se constitui como um coletivo voltado a causa dos direitos animais e divulgação do veganismo.

Pequeno texto no CMI sobre o espaço (http://brazil.indymedia.org/content/2003/06/256866.shtml)

Gato Negro - Centro Anticultural

– COLETIVO ACRÁTICO PROPOSTA (CAP)

S26 - Belo Horizonte

Coletivo anticapitalista que estava em constante contato com diversos outros coletivos dentro e fora do Brasil durante os protestos antiglobalização no início dos anos 2000 em Belo Horizonte. Em conjunto com o Alimento & Ação, coletivo inspirado no Foods Not Bomb e que também estavam envolvidos como Carnaval Revolução, convocaram as manifestações do S26 [26 de setembro de 2000] em Belo Horizonte dentro dos dias de Ação Global dos Povos (AGP). A importância do CAP se dá pela articulação e crítica das diversas lutas na cidade e outros pontos do Brasil e do mundo, buscando ligar o local ao global e o global ao local. Em 2001 e 2002 com outros coletivos fazem duras críticas ao Fórum Mundial Social por seu caráter reformista e hierarquizado.

E-mail convocando para o “26 de Setembro: Carnaval Contra o Capitalismo” (https://br.groups.yahoo.com/neo/groups/libertarios/conversations/topics/1918).

Considerações extemporâneas sobre nossa não-ida ao FSM” texto crítico de 2001 sobre o Fórum Social Mundial do Coletivo Acrático Proposta, Coletivo Contra-a-Corrente e Comunidade Piracema (http://www.inventati.org/contraacorrente/panfletos.htm#materia1).

“Mais do Mesmo… novamente afirmamos: não vamos ao Fórum Social Mundial de Porto Alegre!” texto de 2002 sobre o Fórum Social Mundial do Coletivo Acrático Proposta, Coletivo Contra-a-Corrente e Comunidade Piracema ( http://www.inventati.org/contraacorrente/panfleto/fsm2002.htm).

S-26 - Praça 7

– DIA SEM COMPRAS

Dia Sem Compras

Inspirado no Day Buy Nothing Day do coletivo americano Adbuster, manifestação que critica o consumismo e a cultura capitalista com a proposta de passar um dia sem nada comprar. Nos EUA é comemorada na Black Friday, no Brasil comumente na véspera de Natal já que é justamente nessa data quando as pessoas ficam mais insanas para consumir.

Em 1999 ainda no dia 26 de novembro e coordenando com os “Buy Nothing Day” pelo mundo, o coletivo Alimento & Ação coordenou uma ação na entrada do Shopping Cidade com seus integrantes elegantemente trajados de terno distribuindo comida e panfletando. Foram exibidos diversos cartazes com slogans anticapitalistas e anticonsumo (http://www1.fotolog.com/tooleo/263867/ e http://www1.fotolog.com/tooleo/268505/).

Em 2000 já na véspera de Natal, manifestantes fizeram uma intervenção na porta do Shopping Cidade, com panfletagem e comida grátis, sendo duramente reprimidos por seguranças do estabelecimento que chegaram a quebrar o braço de um dos manifestantes. (http://www.midiaindependente.org/pt/red/2000/12/3.shtml -> curiosamente é o primeiro post do CMI Brasil).

Em 2007 o coletivo [conjunto vazio] passou fita zebrada em diversas portas de lojas do centro pela madrugada e pela manhã passeou com um carrinho de compras e distribuiu pedras como se fossem presentes (continham um laço de fita e estavam envolvidas em um panfleto anticapitalista) para transeuntes. (http://www.comjuntovazio.wordpress.com/2009/12/05/dia-sem-compras-2007/).

Em 2008 O coletivo Azucrina realizou um vídeo divulgando do Dia Sem Compras em BH. Na data do boicote, uma tremenda chuva despencou, forçando várias lojas a fecharem. (http://vimeo.com/3977491)

Em 2009 o coletivo [conjunto vazio] entrou no shopping Diamond Mall jogando do alto na praça de alimentação moedinhas de 1 centavo ao mesmo tempo que panfletos eram jogados do 3º andar do shopping e soltavam uma faixa dizendo “Não Consuma!” presa a balões de gás. (https://comjuntovazio.wordpress.com/2009/12/23/panfleto-dia-sem-compras/).

Em 2013 o coletivo [conjunto vazio] vai jogar Banco Imobiliário dentro do Banco do Brasil, fazer depósitos com dinheiro falso e enviar cartas ameaçadoras aos bancos (https://comjuntovazio.wordpress.com/2013/01/02/banco-imobiliario-auri-sacra-fames).

– RÁDIO SANTÊ FM

Importante rádio comunitária de Belo Horizonte que contava com diversos programas, que iam da divulgação da música independente da cidade, passando por programas voltados a causa negra, ao anarquismo e também sobre a causa feminista (como o programa “O.B. jetivo”) . A rádio funcionava no bairro em Santa Tereza, funcionando em diversos espaços físicos dentro do bairro, inclusive no Mercado Distrital de Santa Tereza criando uma forte relação comunitária. Um dos primeiros movimentos de radiodifusão publica e livre na cidade, funcionava de maneira autogestionada.

Foi fechada em 2000 pela ANATEL (Agência Nacional de Telecomunicações) por não possuir concessão para funcionamento.

Áudios da ocupação da ANATEL na Rádio Santês (http://www.midiaindependente.org/pt/red/2003/05/254301.shtml)

– CENTRO DE MÍDIA INDEPENDENTE (CMI)

CMIO Inydmedia ou Centro de Mídia Independente foi concebido, planejado e executado como uma ferramenta de mídia para os diversos movimentos sociais, políticos e artistas que iriam às ruas de Seattle contra a OMC em novembro de 1999 (também dentro do contexto de manifestações globais advindas da AGP). Seguindo o lema torne-se a mídia, o CMI começa a criar vários núcleos em diversas partes do mundo e através do site (www.indymedia.org) qualquer um poderia postar seus textos, fotos e reportagens. Em Belo Horizonte desde 2001 já havia colaboração CMI Brasil, a partir de 2002 forma-se o núcleo do CMI-BH. Esse coletivo ficava encarregado de alimentar o site do site do CMI e cobrir manifestações e atividades na cidade, além de propagar a ideia de uma mídia não mediada por valores econômicos e políticos.

Uma das iniciativas mais interessantes era o Jornal “O Poste” era um importante jornal, feito no melhor esquema faça-você-mesmo que era colado em postes pela cidade.

Entrevista de 2002 do CMI ao Jornal Hoje em Dia (http://brasil.indymedia.org/pt/red/2003/12/270532.shtml).

Lista do CMI-BH com importantes registros e discussões (http://archives.lists.indymedia.org/cmi-bh/).

– RADIOLA LIVRE

Radiola LivreCriada em 2004 é uma das primeiras iniciativas de radio livre na cidade.

A Radiola LiVre estava situada na UFMG e era composta por estudantes da graduação, mestrandos, funcionários da UFMG e ex-programadores de outras Rádios fechadas pela Anatel (como a Rádio Santê).  Tinha o intuito de divulgar e experienciar a formas de radiofusão livre através de uma organização autonoma não-hierárquica, sempre problematizando as formas de sustentação e a relação com os poderes instituídos.

Texto do CMI-BH sobre a Radiola (http://www.midiaindependente.org/pt/blue/2004/11/294676.shtml).

“Rádios Livres: As controvérsias ainda pairam no ar? Uma análise antropológica das novas relações sociais de radiodifusão” dissertação de mestrado sobre as rádios livres (http://pt.scribd.com/doc/242117891/Dissertacao-da-Flora-Completa-pdf#scribd).

– DOMINGO NOVE E MEIA (D9eMeia)

Domingo Nove e Meia

Surgido em 2007, era um encontro de cunho libertário, uma atividade para re-significação do espaço urbano e as relações entre os seus participantes. O D9eMeia possibilitava que pessoas de todos os lugares e ideias se apropriassem da rua para manifestar suas vontades: festas, debates, oficinas, churrascos veganos, shows, performances, apresentações artisticas, feiras grátis ou apenas um momento de encontro. Acontecia todo primeiro domingo do mês debaixo do Viaduto Santa Tereza, no baixo centro de Belo Horizonte em uma época que havia quase nada por lá, apenas o Duelo de MC’s (que começou concomitante ao D9eMeia e consideramos uma das atividades mais importantes e significativas de BH, já que efetivamente ocupa, resiste e trás a periferia ao centro da cidade).

Vídeo sobre o Domingo Nove e Meia (http://www.youtube.com/watch?v=Zx3CrgLVy6Q)

Wiki do Domingo Nove e Meia (http://rarbh.wikispaces.com/Domingo+Nove+e+Meia)

Domingo Nove e Meia - Show

– LOJA GRÁTIS

Loja Grátis

Surgida em 2009 diretamente das experiências com a Feira Grátis no D9eMeia (e seu cantinho das dádivas onde era possível pegar e deixar objetos) a Loja Grátis era um espaço localizado no Mercado Novo em uma loja emprestada pela Administração para a criação da mesma. Inspirada nos freeshop era possível pegar produtos sem precisar pagar ou trocar. Por meio de doações a Loja Grátis tinha o intuito de efetuar uma crítica prática a forma-mercadoria e ao dinheiro como mediador universal.

Matéria que saiu da Loja Grátis na Revista Vida Simples (http://ritacarvalhoportfolio.blogspot.com.br/2009/09/loja-gratis-vida-simples-abril-2009.html)

Wiki da Loja Gratis (http://www.lojagratis.tk/)

– ESPAÇO YSTILINGUE

YstilingueSurgido primeiramente como um coletivo de tecnopoéticas e depois sendo apropriado como um espaço aberto e horizontal pelas pessoa envolvidas no D9eMeia, Loja Grátis e outras agitações na cida.

Localizado no Edifício Maleta o Ystilingue era um local de experimentação e trocas em um contexto de liberdade de participação e de cooperação solidária entre grupos autônomos e indivíduos. Continha na época uma biblioteca, discoteca, videoteca comunitária, espaço de bricolab, a saudosa lanchonete “Barata Vegana”, desenvolvia oficinas, conversas, mostras de vídeos e festas.

O Ystilingue funciona ainda hoje como um dos espaços que compõem a Associação Elástica, juntamente com o Olympio (bar autogerido) e Gata Negra (futuro estúdio para experimentos sonoros, localizado na antiga sala onde ficava o Espaço Gato Negro).

Wiki do Espaço Ystilingue (http://ystilingue.wikispaces.com/).

Espaço Ystilingue

– BICICLETADA

bicicletadaTambém surgida da experiência direta do D9eMeia e inspirada em outras experiências de Bicicletadas e da Massa critica de outros estados e países. Em Belo Horizonte a Bicicleta iniciou suas atividades em 2008 e foi chamada no melhor estilo “faça você mesmo” com um rolê de bicicleta pela cidade. Além de permitir o encontro de pessoas interessadas em questionar o carrocentrismo, propagandear o uso da bicicleta na cidade e permitir uma mobilidade segura, a Bicicletada também produziu diversos panfletos e materiais gráficos.

Durante cerca de 1 ano e meio acontecia sempre última sexta-feira do mês, passando a ficar cada vez mais esparsa até cessar. Anos depois o evento volta a acontecer como “Massa Crítica”.

Relato da primeira Bicicletada (http://demagrela.blogspot.com.br/2008/03/bicicletada-bh.html)

Video da primeira Bicicletada (https://www.youtube.com/watch?v=Gi2F_4BuE_o)

Wiki da da Bicicletada (http://bicicletadabh.wikispaces.com)

Bicicletada - 1 ano

– COLETIVOS DE INTERVENÇÃO URBANA

Belo Horizonte tem uma longa tradição de coletivos e indivíduos intervindo na cidade. Dentre eles destacamos: grupo Poro (realizando intervenções poéticas e sutis na cidade); coletivo Renúncia (praticavam prankings  anticapitalistas como no McDonalds e culture jamming); Cidadão Comum ( intervém por meio de stencils, sticks e pixos); Vacas Magras (organizava eventos parodiando a Cow Parade); coletivo EntreAspas (além de realizar graffites também interviam por meio de assemblages feitos de objetos descartados que eram deixados nos espaços na cidade); coletivo Azucrina (realizavam graffites, além de shows e festas temáticas em rotatórias); coletivo Cisma (lançaram um dos melhores zines de Belo Horizonte “O Idealista” e estavam envolvidos em diversas bandas, além do grupo  de teatro de marionetes “A Revolução de Papelão“); coletivo [conjunto vazio] (intervenções, performances e agitações); 4e25 (lançaram diversas publicações, realizam graffites e murais).

O Sem Rosto é um vídeo importantíssimo pois evidencia muito bem um recorte sobre as práticas de culture jamming, intervenção e vandalismo pelos idos dos anos 2000 na cidade (https://www.youtube.com/watch?v=BWy6GBg_FAc).

– HORTA DA CHINELADA PRETA

Horta comunitária formada em 2008 após receberam um lote por concessão para desenvolver o plantio junto a comunidade, com a ajuda dos membros do bairro e membros de coletivos diversos. Entre as atividades desenvolvida estavam o estudo de permacultura, o plantio, compostas, irrigação alternativa.

A Horta da Chinelada Preta foi importante como uma das primeiras experiências dos grupos anarquistas em BH com as questões da permacultura, plantio e autonomia alimentar.

– ESCOLA AUTÔNOMA DE FERIADO (EAF)

Escola Autônoma de FeriadoEvento de cunho libertário e contracultural inspirado diretamente na experiência do Carnaval Revolução que havia acabado em 2008. Diversos espaços, coletivos, bandas e indivíduos (como o Espaço Ystilingue, coletivo Azucrina, Gato Negro, coletivo [conjunto vazio], Casa Somática, Horta da Chinelada Preta,  Exército Chapatista de Libertação da Culinária, Ü, Grupo Porco de Grindcore Interpretativo, dentre outros) se reuniram no carnaval de 2009 para criar a Escola Autônoma de Feriado. A EAF foi realizada no Espaço Ystilingue e na casa que abrigava o Azucrina e tinha como sugestivo lema: “Absenti Finxi Anus Factum Secui Vos” (“Tira o dedo do cu e faça você mesmo”). O evento durante 3 dias contou com festa, palestras, debates, oficinas, almoço vegano, bazar livre, bandas e um bloco DIY de carnaval que saiu pelas ruas de BH.

Site do evento (http://www.blog.azucrina.org/eaf).

Escola Autonoma de Feriado - discussão

– CASA SOMÁTICA

 Espaço organizado e gerido inicialmente por praticantes da terapia anarquista Somaiê. Funcionava de maneira autogestionada e horizontal. Realizava diversas atividades relacionadas a somaterapia, mas também oficinas, horta, shows, exibição de filmes, conversas e palestras. Além de abrigar a Escola Pirata (projeto de educação libertária e não-hierarquica) e ser um espaço convergente de pessoas e movimentações diversas.

– PRAIA DA ESTAÇÃO

Praia na Praça da EstaçãoHerdeira direta dessas movimentações passadas e surgida em 16 de janeiro de 2010, a Praia da Estação é uma proposta de ação direta, festiva e lúdica para ocupar a cidade. Organizada primeiramente sob o pseudônimo coletivo Luther Blissett, posteriormente Ommar Motta. Sempre com o intuito de se organizar de maneira horizontal e auto-organizada. A primeira Praia foi Convocada contra os mandos e desmandos do Prefeito Márcio Lacerda (que havia proibido eventos de qualquer natureza na Praça da Estação, local tradicional de Belo Horizonte) e contra os processos gentrificadores que cidade passava, rapidamente ganhou uma adesão enorme. O evento ainda hoje acontece reunindo milhares de pessoas com roupas de banho, bóias, guarda-sol e um caminhão pipa.

Texto sobre a “A Tradição Praieira Insurgente de Belo Horizonte” do coletivo [conjunto vazio] onde a Praia é inserida em uma longa tradição de outra ações festivas-artística-políticas (https://comjuntovazio.wordpress.com/2011/05/28/tradicao-praiera).

“Uma Praia nas alterosas, uma antena parabólica ativista” mestrado sobre a Praia da Estação defendida no ano de 2012 na FAE/UFMG (http://pt.scribd.com/doc/105508186/Uma-Praia-nas-alterosas-uma-antena-parabolica-ativista).

“ ‘EI, POLÍCIA, A PRAIA É UMA DELÍCIA!’: Rastros de sentidos nas conexões da Praia da Estação” dissertação de mestrado em Comunicação pela UFMG defendida em 2013 (http://www.joanaziller.com.br/ppgcom/m2013carolinaalbuquerque.pdf).

“Praia da Estação: carnavalização e performatividade” dissertação de mestrado em Artes pela UFMG defendida em 2014 (http://www.bibliotecadigital.ufmg.br/dspace/bitstream/handle/1843/EBAC-9REMHA/praia_da_esta__o___cdr.pdf?sequence=1).

Texto crítico do [conjunto vazio] escrito logo após a primeira Praia em 2010 (https://comjuntovazio.wordpress.com/2010/01/21/praia-da-estacao).

Praia da Estação - Banho de Caminhão Pipa

– ASSEMBLEIA POPULAR HORIZONTAL (APH)

Assembleia Popular Horizontal de Belo Horizonte

Surgida durante as manifestações de Junho de 2013 também por inspiração anarquista, autonomista e libertária, a APH é na nossa minha humilde visão um desdobramento dessas diversas ações na cidade. É uma tentativa de abrir um espaço de encontro entre indivíduos, grupos, partidos, coletivos de diversas ideologias e práticas. APH é constituída por dois eixos, por um lado auto-organizativo constituído por Grupos de Trabalho variados (que vão de metedologia a mobilidade urbana, passando por reforma urbana e democratização da mídia) e por outro um eixo composto propostas de ações diretas, protestos, escrachos. A APH por meio da busca de uma linguagem comum, anti-hierárquica e combativa. Através da autonomia, horizontalidade e ação direta buscam se organizar e ampliar a luta por uma auto-gestão generalizada da vida e da política.

“Nas Ruas” livro sobre as Manifestações de Junho de 2013 em Belo Horizonte e sobre o contexto de formação da APH (https://www.editoraletramento.com.br/nasruas.html)

Wiki da APH (https://aph-bh.wikidot.com/) .

Assembleia Popular Horizontal (ocupação da Câmara)

ENCONTRO LIBERTÁRIO TERRA PRETA

Encontro Libertário Terra Preta

 Evento  que aconteceu em agosto/setembro de 2013, na ocupação urbana Guarani Kaiowá (em Contagem – região Metropolitana de Belo Horizonte), com o intuito de reunir anarquistas, libertários,  autonomistas e interessados em vivência libertária e horizontal. 

Durante três dias diversas pessoas de diversas partes do Brasil acamparam na comunidade com debates, oficinas, mesas, sarau, filmes, performance, música, atividades culturais e outras atividades de cunho libertário. A participação era gratuita e a alimentação foi feita de modo coletivo e solidário por todos.

Página do evento ( https://www.facebook.com/encontrolibertarioterrapreta).

Fotos do evento (https://www.flickr.com/photos/mariaobjetiva/sets/72157635342674575 e https://www.flickr.com/photos/dq-pb/sets/72157635345659489).

Encontro Libertário Terra Preta - roda de conversa

Aos que vieram antes, agora e depois de nós…

Encontro Libertário Terra Preta

In blog on agosto 30, 2013 at 02:16

Nos dias 30, 31 e 01 de agosto/setembro, acontecerá na Ocupação Guarani Kaiowá, em Contagem, o Encontro Libertário Terra Preta.

Serão três dias de acampamento na comunidade com debates, oficinas, mesas, sarau, filmes, músicas, atividades culturais e outras atividades de cunho libertário. Três dias de vivência libertária e horizontal em uma comunidade de luta que abraçou a proposta do Terra Preta!

O convite é aberto e feito à tod@s que desejam aprofundar o debate, o conhecimento e o contato com ideias, pessoas e relações autogeridas, horizontais e livres, além de dar mais visibilidade e força à luta por moradia na região metropolitana da capital.

A participação é gratuita e a alimentação será feita de modo coletivo e solidário por tod@s.

O coletivo [conjunto vazio] é um dos vários agentes que participa da organização do evento, além disso, apresentará a performance “A Dialética pode Quebrar Tijolos?”.

Saudações libertárias!

Mais informações: www.terrapreta.pw

 

Encontro Libertário Terra Preta

O Capitalismo é a nossa religião!

In blog on janeiro 5, 2013 at 20:45

 “Os mundos uivam o próprio canto fúnebre. e nós somos macacos de um Deus frio

Karl Marx

Um bom sujeito burguês sabe muito bem que não existe nada de mágico no dinheiro, que ele é apenas um objeto que simboliza um conjunto de relações sociais. Mesmo assim, agimos em nosso cotidiano, na vida real, como se acreditassemos que o dinheiro é uma coisa mágica.

Na teoria, o capitalista agarra-se ao nominalismo utilitarista (“dinheiro é só dinheiro”), mas, na prática (da troca), segue os “caprichos teológicos e argúcias metafísicas” e age como um idealista especulador.

A maior mentira da economia mercantil, a qual afimava que Deus havia morrido, acabou por nos cegar com sua glória de prosperidade e liberdade… mas, não somos nós que, todos os dias colocamos as mãos nos bolsos ou olhamos nossos extratos bancários e agradecemos silenciosamente com um enorme sorriso no rosto, por ainda podermos fingir que temos uma vida?

Amém.

O destino das Vanguardas Artísticas

In blog on dezembro 14, 2011 at 04:48

Guy Debord teria dito que a vanguarda da arte é o seu desaparecimento, mas o real  destino de toda vanguarda é virar uma apresentação no Power Point.

A Tradição Praieira Insurgente de Belo Horizonte

In blog on maio 28, 2011 at 04:06

(o presente texto não pretende ser uma versão definitiva sobre as movimentações de Belo Horizonte, principalmente sobre a Praia da Estação, já que sua proposta desde o início era a de não eliminar os vários discursos e motivações que a compunham )

Belo Horizonte, no início de 2010 foi tomada pela Praia da Estação, ação aliando estética e política com a proposta de questionar os processos higienizadores que a cidade passa (cujo um dos pontos mais evidentes foi o decreto Nº 13.798 DE 09 DE DEZEMBRO DE 2009 do prefeito Márcio Lacerda que proibia “eventos de qualquer natureza” na Praça da Estação). Durante quase um ano (mesmo que com alguns períodos esparsos) pessoas vestidas com roupas de banho, cadeiras de praia e guarda-sóis aproveitavam as manhãs de sábado para ocuparem a praça de uma forma divertida e debater sobre questões relativas à cidade.

É verdade que a Praia permitiu vários e preciosos encontros e a partir dela muitas articulações foram organizadas, por outro lado, isso não impediu que depois de alguns meses ocorresse um certo apaziguamento de suas propostas, fato que acabou transparecendo na recepção da Praia como apenas mais um evento cultural e fetichizado (um risco que já havia sido tratado pelo próprio [conjunto vazio] em um texto publicado logo após a primeira Praia e que outras pessoas também haviam apontado) .

O que deveria ser um espaço aberto para vivenciar e discutir a utilização da cidade acabou por se tornar um local mais para ver e ser visto, um point obrigatório e descolado. A apreensão da imprensa muitas vezes ajudou a reforçar apenas esse lado festivo, a reportagem da revista Encontro intitulada “Até Parece A Lapa” aparece como a mais sintomática nesse aspecto. A matéria não expõe, nem mesmo superficialmente,as críticas feitas ao Prefeito Márcio Lacerda que com seus mandos e desmandos foi o mote para a primeira praia, no relato da revista jovens aparecem, como que em um passe de mágica,usando trajes de banho e tomando sol na Praça com o intuito de revitalizar o Centro.

Também nos parece significativo que vários banhistas da Praia fossem sistematicamente convidados para participarem de debates sobre os novos rumos da cultura na cidade. Alinhando discursos com os de alguns grupos artisticos, os quais não vão além da crítica reformista e mais preocupados comas leis de incentivo e a “classe artistica”. Muitas dessas discussões acabavam por personalizar prefeito Márcio Lacerda como “o” inimigo, atacando apenas a representação do poder. É absolutamente claro que o prefeito faz uma das gestões mais desastrosas e totalmente alinhada com os interesses mercadológicos, mas não nos parece uma boa estratégia elegê-lo como o único e maior mal da cidade, como se bastasse apenas trocar o prefeito para que os problemas de Belo Horizonte se resolvessem .

Não se trata de negar o caráter estético e alegre que a Praia TAMBÉM teve, mas de explicitar a hipótese de que houve a perda de um potencial político e questionador em prol de seu lado cultural e lúdico. Importante frisar que para muitos dos frequentadores da Praia e das pessoas que a discute (no blog e na lista de e-mails), isso não é de fato uma questão relevante, mas nos parece problemático que uma movimentação com um  tamanho potencial agregador e crítico seja tomada apenas como mais uma atração divertida no final de semana.  Ou seja, ao invés da Praia (e das relações que se criaram dentro dela) conter críticas revestidas de um senso festivo e estético, sua inversão a transformou em um produto cultural com leve um verniz  crítico.

O que se chamou e o que se pretendia como constituição de um movimento, não conseguiu dar um passo a frente em direção a uma crítica mais radical, contundente e aprofundada, tampouco conseguiu dialogar com outras agitações da cidade e com outros locais da cidade (mesmo que se tenha tentado, e é necessário destacar, outras ações como o “Que Trem é esse?” e  a Praia no Aglomerado da Serra). Novamente, cabe dizer que também não sabemos qual seria esse próximo passo e o problema permanece aberto ( sem que isso seja um demérito, pelo contrário, só nos instiga a propor mais questionamentos e ações).

Cabe aqui então desmontar a idéia de “novidade”, que acaba por fascinar muita gente e nublar as discussões, historicizando e dando a ver uma série de ações questionadoras da cidade que já continham uma estética “praieira”. Então, apresentaremos um pequeno panorama do que chamamos (pomposamente e de maneira idiota)  de “Tradição Praieira Insurgente” .

Não morreremos na Praia!



Grupo Galpão – Queremos Praia

Em 1989, o Grupo Galpão  criou o happening “Queremos Praia”. O grupo convidou atores e bailarinos de vários grupos teatrais de Belo Horizonte para essa intervenção urbana, realizada na Savassi e na Praça Sete. Todos vestidos em trajes de banho, saem às ruas convocando a população para um protesto em que reivindicavam a criação de uma “praia” em Belo Horizonte.



Lotes Vagos

“Lotes Vagos” foi um documentário de 2006, realizado por Ines Linke e Louise Ganz que retratam a ocupação de seis lotes vagos. Esses lotes tinham tamanhos e características diversas, estavam espalhados por vários bairros da cidade e em cada um foi dado um uso específico, tentando fazer dialogar esse lote com o espaço em torno. Em um desses lotes, foi criado uma praia, com piscina de plástico, espreguiçadeiras e guarda-sóis.



[conjunto vazio] – A Ilha

O coletivo [conjunto vazio] em meados de 2008 realizou a intervenção urbana “A Ilha”, que se propôs a ocupar rotatórias e espaços aparentemente sem uso.

Com uma proposta bem simples, ocupávamos a cidade com nossos amigos, avós e alguns traseuntes para uma tarde divertida e despretensiosa.


Banho de Sol na Praça Raul Soares

 Em julho de 2008 a designer Márcia Amaral ia de maiô à praça Raul Soares, aproveitar a fonte e o sol. Reivindicava o uso e a tomada desse espaço, para que famílias fizessem piqueniques, que as crianças, cadeiras e cangas pudessem ficar no gramado (ainda hoje não é permitido utilizar o gramado). Em agosto de 2008, Marta foi presa enquanto tomava sol na praça, segundo os policiais por desacato à autoridade.


Coletivo Azucrina – Rotatória de Praia

O coletivo Azucrina em dezembrol de 2009 promoveu a rotatória de Praia (importante frisar que o coletivo já estava a alguns anos fazendo festas temáticas e shows em rotatórias), que ocupou com shows a Praça da Estação.



Praia da Estação


Iniciada em 16 de janeiro de 2010, a Praia da Estação é uma ação direta, uma festiva e lúdica forma de ocupar a cidade.



 Praia Atlântico Clube

Intervenção artistica realizada por Ines Linke, Louise Ganz e Daniel Carneiro em agosto de 2010 que transformou um espaço clube-praia com a intenção de discutir temas como consumo,  espaços urbanos e lazer. Foram vendidas  cotas para se tornar sócio do clube por R$0,50.



 Praia da Estação em Coronel Fabriciano

Em maio de 2011 inspirados pela Praia da Estação de Belo Horizonte alunos de Arquitetura da Unileste-MG realizaram uma praia na Praça da Estação  de Coronel Fabriciano na  “17ª Semana Integrada de Arquitetura“.


Piscinão de Ramos em Belo Horizonte

Se você acha a Praia da Estação elitista, não tem mais desculpa: venha para o Piscinão de Ramos da Rodoviária!” em tom de humor e ao mesmo tempo crítico, o Piscinão de Ramos de Belo Horizonte é herdeiro direto da Praça da Estação. A partir da constatação de que era pouco discutir e ocupar apenas a Praça da Estação, sua proposta é levar a praia para um um lugar visto apenas como de passagem, onde habitualmente apenas mendigos e prostitutas se aventuram a permanecer.



Piscinão de Ramos de Belo Horizonte

In blog on maio 20, 2011 at 01:40

Se você acha a Praia da Estação elitista, não tem mais desculpa: venha para o Piscinão de Ramos da Rodoviária!

Futebol, farofa, gente diferenciada e se fizer sol gente de sunga e biquíni.


Onde? Praça da Rodoviária – Belo Horizonte

Quando? Domingo, 29 de Maio, 13:00

Quanto? De graça!

Debate: Qual é a cidade que queremos?

Belo Horizonte passa por um período de proibições e possibilidades. A cidade com seus despejos, “revitalizações”, decretos forçados, prisão de pixadores, especulação imobiliária, parcerias público-privadas feitas por debaixo dos panos, poder público e a população seduzidos pela Copa, convivem com  movimentos populares, festas de rua, ocupações, com o Movimento Passe Livre, Brigadas Populares, Praia da Estação, Massa Crítica, Comitê Popular dos Atingidos pela Copa, Piores de Belô dentre outros.

Então de qual lado estamos? Qual é a cidade que queremos? Qual é a cidade que eles querem?

Se nos é negado o direito de permanecer em qualquer espaço público da cidade, ocuparemos esses espaços de maneira divertida, lúdica e  aparentemente despretensiosa. Todo espaço vago deve ser tomado!

Traga sua roupa de banho (bermuda, calção, biquini, maiô, cueca), boias, cadeiras, toalhas de praia, guarda-sol, cangas, farofa e a vitrolinha… e se fizer frio, traga seu calor humano.

Traga tambores e viola!

Traga bola, vamos mostrar que futebol vai para além da Copa!

Traga comida para um banquete coletivo!

Venha vivenciar a cidade!

O que fazer quando o capitalismo é muito mais divertido e estético do que a arte?

In blog on abril 15, 2011 at 12:50

Quando eramos novos acreditavamos que fazer arte, criar e expressar nossas idéias era por si só revolucionário. Dizíamos que ter uma banda, montar um coletivo, fazer fanzines, etc. era o caminho para sermos mais autênticos,  coerentes com os nossos desejos e uma forma para combater o status quo dominante. Nossos ideais e ações tinham sempre como premissa a festa e o estético, isso servia para afastar todo o rancor, seriedade e postura militante que encarávamos na “velha esquerda”, ortodoxa e caduca.

Não que agora estejamos velhos ou renegando tais práticas (e muito menos querendo deslegitimar quem ainda crê e realiza tais posturas), trata-se aqui de ser coerente em tentar levar a cabo a crítica que propomos a partir do problema que se apresenta,  mesmo que seja necessário colocar em xeque e até abandonar nossas velhas e entranhadas prerrogativas.

Talvez a questão central: “O que fazer quando o capitalismo é muito mais divertido e estético que a própria Arte?”  não possa ser respondida, mas tampouco poderá ser evitada por aqueles que acreditam que lidar com o estético pode carregar potencias questionadoras e emancipatórias.

Grande parte daqueles  que são atravessados por esses problemas (artistas engajados, artistas políticos, artivistas  ou outro nome qualquer que queiram dar) respondem a questão tentando conciliar um fazer crítico com o estético sem de fato se atentar que em nossa época, as condições para a criação de relações anticapitalistas, criativas, divertidas e rizomáticas nunca foram tão propícias e estimuladas. Estaríamos então simplesmente encarcerados no próprio ciclo de produção que acreditávamos combater?

"Se alguém pensa que Hakim Bey é subversivo é porque ainda não conheceu os publicitários da Volkswagen"

Nessas configurações nos parece evidente que o problema do capitalismo no futuro será a utilização do tempo livre.  O artista aparecerá então, não mais como um pária ou crítico (como querem alguns), mas como um organizador dos  lazeres, cabendo a ele propor eventos e situações (qualquer um que já visitou uma loja da Apple sabe que o vendedor, quase sempre misto de DJ e Designer, não vende o produto mas suas potencialidades de uso e criação) . Tal previsão cria para aqueles que tiverem conhecimento, mesmo que mínimo, das vanguardas artísticas do século XX uma sensação de familiaridade e pavor já que as propostas de emancipação e utopia foram invertidas e incorporadas à lógica capitalista. O potencial disruptivo de tais vanguarda foram transformadas em glamour e novas tendências disponíveis para todos os setores do consumo .

Se a crítica aos moldes clássicos e todo um fazer estético que antes era questionador se mostra inócuo, a simples indiferença também não se mostra um caminho (como algumas críticas querem nos fazer crer ser a única e apocalíptica alternativa) como se bastasse sentar e esperar ruir o mundo sob nossos pés.

Impossível não levar tais críticas para o interior do [conjunto vazio] já que procuramos desvincular estética da Arte,  buscando fugir da lógica de apreensão de um objeto ou evento como imediatamente artístico. Fugindo de lugares onde essa relação já se dá de imediato e tentando de fato usar “procedimentos artísticos” na cotidianidade. Mas qual a real efetividade de tal estratégia?

O problema está posto, resta saber se não estamos incorrendo aos mesmos erros que apontamos…  cabe então, não apenas reelaborar questões e críticas, mas a possibilidade de criar uma nova práxis que se faz no cotidiano para além da Arte, da especulação vazia e da aceitação de grupo.

Sobre a masturbação teórica para além da especulação vazia

In blog on março 25, 2011 at 01:47

Raoul Vaneigem,  um dos principais teóricos da Internacional Situacionista (I.S.)  juntamente com Guy Debord,  publicou no número 10 da revista do grupo o texto Alguns tópicos teóricos que precisam ser tratados sem debate acadêmico ou especulação ociosa” sobre questões a serem debatidas e pensadas para além da pura especulação vazia e por aqueles que efetivamente estão envolvidos nas lutas para subverter  a ordem vigente.

“Crítica da economia política – Crítica das ciências sociais – crítica da psicanálise (em especial Freud, Reich e Marcuse) – Dialética da decomposição e da superação na realização da arte e da filosofia – A semiologia, contribuição para o estudo de um sistema ideológico – A natureza e as suas ideologias – O papel do lúdico na História – História das teorias e teorias da História – Nietzsche e o fim da filosofia – Kierkegaard e o fim da teologia – Marx e Sade – Os estruturalistas.

A crise romântica – o maneirismo – O barroco – As linguagens artísticas – A arte e a criatividade cotidiana – Crítica do dadaísmo – Crítica do surrealismo – Perspectiva pictórica e sociedade – A arte autoparódica – Mallarmé, Joyce e Malévitch – Lautréamont – As artes primitivas – Da poesia.

A revolução mexicana (Villa e Zapata) – A revolução espanhola – Astúrias 1934 – A insurreição de Viena – A guerra dos camponeses (1525) – A revolução espartaquista – A revolução congolesa – As revoltas camponesas na França de 1358 e depois – As revoluções desconhecidas – A revolução inglesa – Os movimentos comunalistas – Os Enragés – A Fronda – A canção revolucionária (estudo e antologia) – Kronstadt – Bolchevismo e trotskismo – Socialismo e subdesenvolvimento – A cibernética e o poder – O Estado – As origens do Islã – Teses sobre a anarquia – Teses para uma solução definitiva para o problema cristão – O mundo dos especialistas – Da democracia – As internacionais – Da insurreição – Problemas e teoria da autogestão – Partidos e sindicatos – Da organização dos movimentos revolucionário – Crítica do Direito Civil e do Direito Penal – As sociedades não industrializadas – Teses sobre a utopia – Louvor de Charles Fourier – Os conselhos operários – O fascismo e o pensamento mágico.

Do repetitivo na vida cotidiana – Os sonhos e o onirismo – Tratado das paixões – Os momentos e a construção das situações – O urbanismo e a construção popular – Manual do détournement subversivo – Aventura individual e aventura coletiva – Intersubjetividade e coerência nos grupos revolucionário – Jogo e vida cotidiana – Os devaneios individuais – sobre a liberdade de amar – Estudos preliminares para a construção de uma base – Loucura e estado de transe.”

A Implantação das Perversões Sexuais

In blog on fevereiro 28, 2011 at 19:44

Em contraponto aos teóricos da repressão como Reich e Marcuse, Michel Foucault defende que os discursos a respeito do sexo foram incitados e estimulados progressivamente, constituindo o que mais tarde (a partir do final do século XVIII) configuraria um fenômeno que o francês chama de “explosão discursiva”. Entretanto, a importância da incitação dos discursos não reside no mero aumento quantitativo, mas nos meios pelos quais se fala de sexo (as formas de imposição do discurso), bem como no conteúdo desses dizeres. Em suma, a partir do pensamento foucaultiano nos direcionaremos à  posição que a proliferação discursiva toma em meio à sistemática das instituições, e não à simples abordagem superficial do crescimento dos discursos. Nesta análise, remontaremos o contexto do dispositivo da aliança, onde o casamento era o principal foco dos regimentos sexuais, e o surgimento do dispositivo da sexualidade em meio a essa conjectura, concentrado, principalmente, nas sexualidades desviantes, classificadas e vistas como desvios patológicos da conduta sexual recomendável. O dispositivo da sexualidade, desse modo, foi extremamente favorecido pela chamada proliferação discursiva, visto que é por meio desta que se observa uma implantação de perversões cada vez mais variadas, especificadas e plurais, destinadas a qualificar e a apontar comportamentos indesejáveis.

De fato, a partir do século XIX, houve uma multiplicação das sexualidades e suas variáveis, uma implantação múltipla das heterogeneidades sexuais através da propagação dos discursos. Um cenário bem distinto daquele antecedente, onde apenas três grandes códigos explícitos concentravam as diretrizes sexuais: o direito canônico, a pastoral cristã e a lei civil. Tais normalizações se ocupavam, principalmente, da estipulação do lícito e do ilícito, do permitido e do proibido. Por sua vez, esta fixação, é necessário dizer, tinha uma área de atuação bem definida: a relação matrimonial. Definia, dessa maneira, o dever conjugal, seu cumprimento e a capacidade de desempenhá-lo, bem como sua fecundidade e periodicidade. O casamento tomava para si todas as atenções das normas a respeito do prazer, sendo o sexo do casal excessivamente regrado por essas constrições. Outras questões, como a sodomia ou a sexualidade das crianças, eram vistas com incerteza e certa negligência.

Outra característica peculiar a esses códigos está na falta de distinção nítida entre as infrações às regras da aliança. Eram igualmente condenados o desrespeito às leis do casamento e a prática de sexualidades estranhas. Assim, o adultério e a sodomia eram consideradas subversões, antes de qualquer coisa, ilegais, e tratadas dentro do campo das ilegalidades. Algo que Foucault chamou de “ilegalismo global”, sem diferenciação das condutas sexuais condenáveis, sendo todas punidas como subversões contrárias à lei. Em outras palavras, embora o considerado “contra-natureza” fosse marcado por uma abominação particular, constituía apenas uma forma extremada do “contra-a-lei”, não trazendo os agentes de tais condutas nenhuma característica essencialista ou patológica fundamentadora. O sodomita, por exemplo, era, antes de mais nada, um infrator, assim como o adúltero ou qualquer outra figura que viesse a cometer uma prática contra legem.

As proibições relativas ao sexo, desse modo, portavam uma natureza jurídica, isto é, configuravam-se como interdições legais. Essa característica mostra-se evidente ao se estudar que, por exemplo, durante muito tempo os hermafroditas foram considerados criminosos, ou filhos do crime. Sua disposição anatômica e sua própria existência, embaraçavam a lei que distinguia os sexos e prescrevia sua conjunção.

A explosão discursiva iniciada no final do século XVIII, e desenvolvida, principalmente, durante o século XIX, provocou duas modificações no cenário que havia se estabelecido durante o dispositivo da aliança. A primeira delas diz respeito a um movimento “centrífugo” em direção à monogamia heterossexual. Com isso, embora as relações heteromonogânicas tenham continuado como paradigma, fala-se delas cada vez menos, e com crescente sobriedade. Elas não são interpeladas ou acuadas para que mostrem seus segredos e particularidades, pois o casal legítimo tem direito à discrição. A aliança heterossexual “normal” está inserida em um contexto mais rigoroso, porém silencioso e velado.

Há ainda uma segunda modificação, no campo das práticas sexuais: o que se interroga a partir do século XIX são as sexualidades desviantes do padrão. A sexualidade das crianças, dos loucos, dos criminosos, dos homossexuais, bem como as obsessões e pequenas taras, tornam-se os principais alvos do discurso. Todas essas figuras, anteriormente apenas entrevistas, passam agora de avançar para tomar a palavra e fazer a difícil confissão daquilo que são. Sem dúvida não são menos condenadas, mas passam a ser escutadas. A partir dessas sexualidades periféricas que a sexualidade regular será constituída.

Esta definição da sexualidade regular a partir das sexualidades desviantes configura um movimento de “refluxo”. Portanto, essas duas imagens (a centrífuga e o refluxo) demonstram a transformação da sistemática discursiva a respeito do prazer, observada a partir do final do século XVIII. Desse modo, houve, no campo da sexualidade, a consagração de uma dimensão específica do “contra-natureza”, tomada como mais grave. Antes, como já foi dito, não existia diferenciação entre esse grupo de práticas consideradas anti-naturais e os outros tipos de subversão à aliança matrimonial. A sodomia, assim, torna-se algo mais grave do que se casar com um parente próximo, por exemplo. Como resultado, as sexualidades desviantes ganham autonomia em relação às demais ilegalidades do prazer. Torna-se bastante evidente a nova ordem das condutas sexuais: de um lado, há as infrações à legislação do casamento, da família e da moral; de outro, existem os danos à regularidade de um funcionamento natural (que a lei, inclusive, pode muito bem sancionar).

Com isso, passa a existir, no âmbito do prazer, condutas originárias de uma natureza desviada, perversões patológicas essenciais ao agente. Leis naturais do casamento passam a ocupar um registro distinto das regras imanentes da sexualidade. Cria-se um “mundo das perversões”, que é secante ao da infração moral ou legal, mas que é totalmente autônomo em relação a ele. Há, com isso, uma mudança de pensamento. Os “pervertidos”, embora também tenham sido perseguidos pelos códigos e regimentos, passam a ser tratados como vítimas de um mal inerente à própria pessoa, ou seja, anseiam por tratamento, normalização, correção de um caráter essencial que lhes pertence necessariamente. Podem, inclusive, incidir dentro do âmbito da lei, porém enquadram-se dentro de outra seara: a dos viciados, isto é, das vítimas escandalosas dos vícios contra a natureza.


“Crianças demasiado espertas, meninas precoces, colegiais ambíguos, serviçais e educadores duvidosos, maridos cruéis ou maníacos, colecionadores solitários, transeuntes com estranhos impulsos: eles povoam os conselhos de disciplina, as casas de correção, as colônias penitenciárias, os tribunais e asilos; levam aos médicos suas infâmias e aos juízes suas doenças. Incontável família dos perversos que se avizinha dos delinqüentes e se aparenta com os loucos. No decorrer do século, eles carregaram o estigma sucessivamente da ‘loucura moral’, da ‘neurose genital’, da ‘aberração no sentido genésico’, da ‘degenerescência’ ou do ‘desequilíbrio psíquico’ “¹

Assim, aquilo que se desvia das relações matrimoniais torna-se o centro do discurso e não mais o casamento e as regras da aliança. O contra a natureza, antes abarcado pelo domínio das infrações conjugais, ganha agora um destaque e uma condenação maior. Passa a ser classificado, precipuamente, como patologia, ultrapassando assim a condição de mera subversão normativa.

Dessa forma, as sexualidades periféricas estiveram, a partir do séc. XIX, no posto de objeto principal de um ardil suplementar à severidade dos códigos. Foram transformadas em sede principal de atuação de instâncias de controle e mecanismos de vigilância instituídos pela pedagogia e pela medicina. A justiça, em muitas situações, cede lugar às diretrizes médicas de normalização (ou é aplicada de acordo com elas). Os “desviados” passam a ser taxados exaustivamente pelos regimentos institucionais terapêuticos. O interesse maior das redes de poder recai sobre as anormalidades sexuais e suas incontáveis variedades. Prevê-las e listá-las, determinando o tratamento adequado aos doentes, torna-se a fulcral preocupação das forças políticas. Por isso, campos como a medicina são tão importantes: eles estipulam o limite entre o normal e o patológico, substituindo a dicotomia legal/ilegal.

Aliás, é perceptível que a medicina começou a desempenhar também, a função da Igreja de intervir na sexualidade conjugal: inventou toda uma patologia orgânica, funcional ou mental, originada nas práticas sexuais “incompletas”; classificou com desvelo todas as formas de prazeres anexos, integrou-os ao “desenvolvimento” e às “perturbações” do instinto, empreendeu a gestão de todos eles. Apresentam-se aqui, como as práticas disciplinares dialogam com práticas discursivas: o anormal passa a ser interrogado para que seja, assim, tratado de acordo com determinações paradigmáticas. Ele não é, de forma alguma, forçado a se calar, mas pelo contrário, é coagido a dizer tudo sobre si e sua natureza “decaída”.

Percebe-se, então, que a proibição não foi o principal mecanismo de propagação, de controle e de normalização das sexualidades desviantes. A censura e a interdição funcionaram, principalmente, inseridas dentro de uma complexa sistemática de exercício de poder, muito mais direcionada à incitação do discurso que no combate dele.

 

 

NOTAS

1- Trecho de “A História da Sexualidade, Volume 1: A vontade de saber ” de Michel Foucault

Manifesto: LIBERDADE AOS PIORES DE BELÔ

In blog on setembro 28, 2010 at 21:50

Longe dos holofotes da Bienal Internacional de Arte de São Paulo e da imprensa especializada sobre arte, a pixação* invade a cidade e ainda é duramente reprimida pelo poder.

No dia 24 de agosto, cinco pixadores do grupo conhecido como os Piores de Belô foram presos. A polícia havia pedido a prisão preventiva dos integrantes por formação de quadrilha, pichação, invasão a propriedade alheia, crime ambiental, depredação de patrimônio público e apologia ao tráfico de drogas.

Tal fato não se mostra de forma nenhuma isolado, já que, desde junho do ano passado, a Polícia Civil desencadeou a “Operação BH Mais Limpa”, que resultou no cumprimento de nove mandados de busca e apreensão. Ainda esse ano, a Polícia Civil criará uma delegacia para combater especificamente as gangues de pixadores que agem em Belo Horizonte, fato já amplamente divulgado como uma ação visando a Copa do Mundo. Nos parece óbvio que, com a aproximação da Copa e o ímpeto de gerar uma cidade limpa e asséptica, serão criados cada vez mais novos meios de repressão.

Além dessa nova delegacia, a Prefeitura de Belo Horizonte prevê também uma central de monitoramento eletrônico. As câmeras serão instaladas para vigiar os prédios públicos e locais de grande concentração de pessoas, como o Parque Municipal no Centro, o mirante das Mangabeiras e também a Praça da Estação (que, como já sabemos, é um espaço que só atende às demandas da própria Prefeitura, da socialite Ângela Gutierrez, o seu Museu de Artes e Ofícios e o interesse de grandes empresas que podem pagar o preço absurdo de utilização da praça). Essas novas formas de combate ao crime são legitimadas pela falsa sensação que o cidadão comum tem de que o poder público efetivamente o protege e zela pela boa conservação da cidade quando, na verdade, a cidade só deve estar limpa e bem apresentada para receber o capital estrangeiro que escoará por aqui no período da Copa. Tais ações transformam a cidade em um lindo cartão postal, longe de qualquer uso efetivo e real pelas pessoas.

O preço de toda essa “segurança” e limpeza?! Eis aqui a conhecidíssima resposta: a eterna vigilância e a repressão constante. Tudo pretensamente justificado  pelos dados que a própria prefeitura apresenta, alegando gastar R$ 2 milhões por ano em reparos de equipamentos públicos depredados, incluindo pixações. Parece ser preferível pelo poder público gastar com reparos e repressão do que efetivamente discutir o problema para além do âmbito criminoso. Como transformar jovens com rolinhos de tinta em assaltante ou traficante? Prenda o pixador por formação de quadrilha e enjaule todos juntos! A manobra política efetuada pela força tarefa do Ministério Público em conjunto com Prefeitura e a Polícia Civil para enquadrar os Piores de Belô como uma quadrilha, modificando o procedimento normal dispensado ao delito, além de cruel, é extremamente simplista, reduz a questão a um caso de polícia e encarcera sumariamente os autores de uma das práticas estéticas mais questionadoras do espaço urbano. Nos parece que tal acusação é só uma forma de infligir penas mais duras para aqueles que, como dizem os próprios Piores de Belô, apenas “jogam tintas nas paredes”.

O que nos surpreende é o caso ter sido negligenciado tanto por artistas quanto por “intelectuais”, pois é necessário e urgente que haja uma defesa da pixação, dos Piores de Belô e das movimentações que vão contra os processos de gentrificação que Belo Horizonte está passando. A única defesa pública do fato vem de Deborah Pennachin, doutoranda da Escola de Belas Artes da UFMG que tem como objeto de estudo a pixação e que, ao defendê-los em uma reportagem, afirma: “Para quem estuda, eles são top de linha da pichação em Belo Horizonte”. Sabemos o quanto é provável que a impressa tenha cortado partes importantes do seu argumento, mas não podemos deixar de considerar que defendê-los apenas por seu valor estético, além de ser um argumento fraco, soa oportunista. Afinal, isso pode acontecer com qualquer “pixadorzinho meia-boca” e é o que de fato ocorre: a maioria desses pixadores vive em comunidades carentes onde traficantes e assassinos não passam o que eles passaram nas mãos da polícia por causa da pixação. De janeiro a agosto deste ano, foram presos 257 pixadores em Belo Horizonte.

Sem entrar em qualquer mérito sobre a pixação, espaços excludentes, relação com a cidade, arte/anti-arte, colocamos a questão: será que só o fato de ser uma medida autoritária que vai aumentar a quantidade de processos desnecessários no judiciário, abarrotar ainda mais nossas cadeias que ferem cotidianamente o básico dos direitos humanos e possivelmente servir de escola de bandidagem para jovens que só andavam por aí armados de rolinhos e tinta, será que só isso não basta para ser contra a prisão destes jovens?

Devemos lembrar que Os Piores de Belô ainda estão detidos por tempo indeterminado em uma unidade comum até que ocorra o julgamento.

* Utilizamos a grafia “pixo” no lugar de “picho”, conforme o uso que os próprios interventores fazem