[conjunto vazio]

Archive for setembro \22\UTC 2014|Monthly archive page

[BRAÇO ARMADO]

In intervenção urbana on setembro 22, 2014 at 23:30

BRAÇO ARMADO

O coletivo [conjunto vazio], tentando levar a cabo a máxima que diz que todo movimento contracultural precisa de sua banda de rock para conquistar o mundo, formou seu [BRAÇO ARMADO]. O projeto (de mau gosto) é um ataque auditivo-performático-imagético em espaços abertos e/ou não apropriados. Ou simplesmente mais um karaôke punk-auto-destrutivo.

BRAÇO ARMADO 1

BRAÇO ARMADO 2 BRAÇO ARMADO 3 BRAÇO ARMADO 4 BRAÇO ARMADO 5 BRAÇO ARMADO 6 BRAÇO ARMADO 7 BRAÇO ARMADO 8

BRAÇO ARMADO 9

A intervenção ocorreu no dia 26 de julho de 2014,  no Perturbe – Festival de Ruído e Performance do selo Meia-Vida em Curitiba.

Realizado com um carrinho de compras roubado e transformado em uma maquina infernal de ruído, o [BRAÇO ARMADO] foi a tentativa do coletivo de criar focos de guerrilha sonora e imagética durante 2 km pela cidade de Curitiba.

“Trabalhadores de todo mundo, descansem”/”Artistas: desistam!”

Trechos em vídeo, aqui e aqui.

Anúncios

verbete #7: [representação política e ações não-representativas”]

In vocabulário de palavras em desuso on setembro 12, 2014 at 18:59

Fora TODOS

Um espectro ronda nosso tempo – o espectro da autonomia e da recusa total das representações políticas. Todas as fracassadas instituições e hierarquias unem-se para esconjurá-lo… porém, já é tarde!

Mais uma eleição se aproxima e com ela todo o mal estar referente a uma “juventude” à qual nenhuma representação política corresponde (ainda que desdenhosamente riam desse teatro farsesco tão conhecido). Intelectuais públicos se apressarão a falar e os jornais em seus editoriais analisarão como a falência do sistema de representatividade ainda não encontrou uma consolidação institucional capaz de dar materialidade a toda esse descontentamento, ainda assim uma parte da população mesmo descrente acreditará que essa é a única forma possível de expressão política. No momento em que milhares de pessoas em todas as partes do mundo se dedicam a deserção das velhas formas de vida (escola, família, partidos, sindicatos, etc.), à sabotagem deste velho mundo por meios das festas e danças em volta das fogueiras feitas com as mercadorias que se negaram a desejar, é necessário ser muito estúpido ou um policial para procurar líderes, uma “célula financiadora” ou um acadêmico que explique as razões dessa pretensa insensatez.

Ainda que eleições sejam apresentadas como o ápice do ato política e muito comumente como a única forma de participação nas sociedades capitalistas (além do “direito” a trabalhar e a consumir), é através dela que ocorre um dos principais processos de mistificação conservadora e alienante do atual estado das coisas, visto que se trata sempre de uma transferência de poder para outros e do abandono da luta direta. As eleições funcionam sob o véu da participação para realizar a máxima: mudar para que as coisas continuem as mesmas.

Desde a modernidade, o conceito de representação política está associado ao consentimento e alienação da população. Por essa lógica, o representante seria o agente autorizado a atuar em nome do povo e a defender seus interesses. Mesmo que do próprio povo emane o poder é absolutamente necessário que ocorra a autorização e transferência para aquele que, pretensamente, em meio às múltiplas demandas da população identificará e atenderá seus anseios. No espetáculo atual a ampliação do direito de eleger os representantes e membros dos órgãos do Estado significa, única e exclusivamente, a performatividade da decisão que toma substância através dos dispositivos supostamente democráticos. Longe de ampliar direitos ou avançar frente às formas anteriores de dominação, supostamente mais despóticas, esse dispositivos conseguem apenas mascarar a nossa miserável condição de dominados e submetidos a um poder externo.

Nesse processo de submissão as técnicas de poder tanto a “esquerda” e quanto a “direita” permanecem ideologicamente comprometidos em deixar tudo exatamente como está. Essa é a justa concretização do círculo da representação política que nunca cessa de rodar e a oferecer pseudo-respostas a todos que estão cansados demais para tentar insurgir mais uma vez. Aqueles que ainda votam mantêm uma esperança ingênua ou um cinismo que parece ter como intenção dar materialidade a representativa frase-clichê que desde junho de 2013 vem sendo incessantemente proferida: “devemos protestar nas urnas”. Por mais risível que pareça a proposição, é efetivamente essa a fantasia primordial que tanto a esquerda quanto a direita fazem questão de sustentar, a saber, que as pessoas devam continuar votando ad infinitum para protestar contra o fato de que se pudessem não votariam! Já não é mais possível alimentar falsas esperanças e toda ingenuidade que reforce isso é um erro, assim como fingir que há qualquer solução que capitule o que aí está e apague a história em troca da inocência. Não basta apenas “saber” que as eleições servem para reproduzir o mesmo sistema de coações através da ilusão de representatividade, pois nunca foi tão atual o cinismo como a ideologia que opera um distanciamento performativo, fantasiando-se de posicionamento crítico. O que se vê a partir daí é a proliferação do discurso que afirma “sei bem que votar não irá resolver, MAS…”. Somos capazes de “saber” que eleger alguém não mudará nada (principalmente pela razão de como o poder se estrutura), que o problema não se resume a quem ocupa o cargo e que a democracia representativa tem problemas incontornáveis. Efetivamente “sabemos” que a ideia de democracia mascara uma forma particular de exploração, mas mesmo assim, continuamos a seguir essa ideia sendo incapazes de aderir ao próprio discurso e a readequar nossas condutas práticas.

Festa da democracia!

Tanto a esquerda quanto a direita prestam ao Capital esse precioso serviço de mistificar as eleições e o papel do Estado, ajudando a disciplinar e circunscrever as lutas no interior da sociedade capitalista aos limites da institucionalidade. Essa visão de que o Estado deveria ser alargado para receber as demandas da população e se consolidar como uma mediação entre os diversos desejos difusos, só afastou ainda mais a possibilidade de qualquer mudança significativa ajudando a fomentar entre os descontentes a crença de que o poder externo poderia manter a “ordem” e suprir demandas. O caráter arcaico e ao mesmo tempo absolutamente moderno consistiu em abstrair o Estado da rede de relações sociais capitalistas da qual é parte e apresentá-lo como um ente autônomo em relação ao capital. Dessa forma, o Estado é apresentado de forma invertida: de agente ativo do processo de dominação capitalista e defensor dos interesses da classe dominante, ele aparece como principal agente de mudança e defensor dos interesses da classe dominada. Nesse aspecto a luta contra a representatividade política apresenta seu potencial mais radical, quando se efetiva não apenas como negação política, mas na luta contra toda e qualquer economia-política! O que de fato impressiona é que mesmo o marxista mais ardoroso e radical (que deveria saber dessa obviedade) se transforma em um kautskistabernsteiniano ao se aproximar da simples – e quase sempre longínqua- possibilidade de chegar ao poder. Os ideólogos da esquerda “radical” dirão que se trata de luta “contra-hegemônica”, de contrapor discursos, de se “infiltrar na máquina”, da possibilidade de diálogo com as massas, de passos táticos para a revolução… quem ainda acredita nisso?

É importante não perder de vista que também a esquerda precisa legitimar o processo viciado das eleições, afinal de contas, é disso que dependem seus cargos, as contas do partido, os salários dos parlamentares e assessores, os privilégios, as posições de poder das lideranças, dos burocratas partidários e até a ascensão social de uma parte da militância. Mesmo o minúsculo partido de extrema-esquerda se constitui sob uma base hierárquica em que as formas de poder são exercidas e legitimadas por essa estrutura, mesmo que não exista absolutamente nenhum tipo de ganho monetário envolvido diretamente, esse poder não deixará de ser contabilizado, reforçado e desejado. Ainda que usem o discurso de que o partido é um meio de organização – o que “justificaria” sua existência- sabemos bem como tais organizações se autonomizam e passam a ser um fim em si mesmo, altamente dependentes do sistema político e do Estado. Aquilo que deveria ser a função de toda organização comprometida com a mudança, ou seja, a luta e busca de diálogo real é substituída pelas disputas por cargos, pelo recolhimento às tarefas administrativas e burocráticas. Toda a possibilidade de mudança cede lugar a realpolitik, ao apaziguamento reconciliatório entre classes e à dependência financeira. Onde deveria haver a busca de comunicação direta, há o voto e onde deveria haver a desconstrução do poder soberano, há a alienação.

Se há algo que junho de 2013 nos mostrou, foram as potencialidades da auto-organização e da ação direta, da força não-hierárquica que emerge da demanda total, desejo que não se contenta com as vitórias parciais e com a meia-vida. Resta saber se os partidos políticos ( também os sindicatos e outras organizações, cuja lógica é a mesma) não entenderam ou agem com sua alienação esclarecida, tentando mediar aquilo que escapa de suas mediações. Justamente eles que “participaram” do processo de junho, seja para negá-lo, tentar cooptar os processos ou de maneira muito rara, construir… justamente eles que perceberam muito tardiamente o quanto estavam atrasados em seus anseios de “dialogar com o povo”! O que vemos hoje são os vários candidatos que se reivindicam como os “legítimos” representantes das ruas; candidatos cujo discurso flertam com o ataque à representatividade ao mesmo tempo em que pretendem renovar a fé no sistema político (através da própria candidatura, claro); ou até mesmo aqueles que clamam pela revolução sem que isso reflita em uma negação que ultrapasse a pura abstração. Essas candidaturas chamadas de “alternativas” parecem afirmar em sua práxis que é necessário votar primeiro, eleger candidatos e só depois poderemos finalmente discutir o que é democracia real, pois segundo os mesmos, ainda que não devamos ter esperanças no sistema democrático temos de ser “realistas” em ver que não há formas além dele. O recado implícito parece claro “Tivemos nossa catarse em junho e agora é necessário fazer política DE VERDADE!”ou “Vocês não tem um projeto para o dia seguinte!”.

Esquerda Socialista - A Volta dos Que Não Foram

A concreta construção da resistência ao estado atual das coisas exige o abandono das ilusões em torno dos que ainda advogam uma convivência pacífica entre as classes, daqueles que ainda acreditam ser possível humanizar e administrar o capitalismo por meio do Estado e de políticas reformistas. Ao rejeitarmos o Capital, o Estado e sua democracia representativa, propomos como alternativa a autonomia, a ação direta e a auto-organização das lutas. Não há fórmulas prontas, mas os inúmeros exemplos históricos e atuais do desenvolvimento das assembléias populares, horizontais e descentralizadas, das comunas, de toda organização para além do voto e das “assembléias gerais” aparecem como recusas das coações, da coagulação do poder coercitivo e sua linguagem não-comunicativa. Os movimentos e lutas que com sua capacidade de definirem seus próprios objetivos, métodos de organização e de luta de forma independente, não se submetendo a qualquer partido político, governo e empresa apresentam um aspecto importante da negação total das formas hierarquizadas e confronto com as mediações impostas. Não se trata mais de constituir um partido ou projeto mas aprender a partilhar a recusa!

É necessário que não se cesse de efetivar e descobrir as tantas negações práticas existentes. Que possamos criar espaços e nos reencontrar nas lutas, mantendo a iniciativa de integração sempre viva entre os desertores e essas inúmeras negações atuais. As possibilidades nunca foram tão reais quanto nesses dias em que tantas insurreições ocorrem em todo mundo como as de junho de 2013 no Brasil, a Primavera Árabe, os Indignados na Espanha, as inúmeras revoltas na Grécia, os levantes nas periferias da França de 2005, em Londres em 2011 e tantas outras. Há nesses exemplos uma onda libertária e autônoma com uma disposição para a luta e ações diretas conseguindo disseminar seu teor crítico, emancipador e anti-representativo para além dos meios militantes inócuos. Essas insurreições por sua radicalidade inevitavelmente atingem o Estado que não cessa de diariamente nos jogar uns contra os outros, arremessando-nos na maquina infernal do trabalho e do mercado. Por isso, não tardou ao poder estatal e também aos meios militantes (que já não viam hora de voltarem às suas rotinas entediantes e devolver as ruas à normalidade) pedirem que passivamente voltemos às velhas crenças no sistema representativo, mas como fazer isso depois que encontramos nas ruas tomadas a brecha para nos unirmos como cúmplices e respondermos a violência inerente ao cotidiano das cidades? A violência do poder econômico-político corre invisibilizada e naturalizada em todas nossas relações sociais, no trabalho ou no tempo livre, na linguagem ou no amor. É nas barricadas que as formas emancipatórias de comunicação e de sociabilidade tornam-se críticas diretas ao poder, consciência prática do brutal cerceamento das potencialidades de nossas próprias vidas.

Nossa capacidade em nos sentirmos parte do processo de mudança se configura como a ponta do horizonte que se anuncia, admitir isso é passo necessário para descobrir os diálogos e a negação prática em todo mundo. Conectar e articular a resistência tem a ver tanto com tomar uma posição diante de tudo o que é espetacular geograficamente próximo a nós, quanto com redescobrirmos na distância espacial e temporal as proximidades que vinculam a negação quando ela decide a dialogar. Insistimos no caráter negativo da luta, pois o que resta para aquém disso é somente a obediência e a passividade generalizada.

A perspectiva de negação não é feita visando um futuro longínquo, mas a mudança do presente e em nome de todos aqueles que lutaram e tombaram na luta contra o espetáculo, como Carlo Giuliani na Itália,  Alexandros Grigoropulos na Grécia, Brad Will e Sali Grace em Oaxaca no México, Morcego e Dinho da banda Bosta Rala em Salvador, Douglas Henrique e Luís Felipe em Belo Horizonte, e outros tantos que nos antecederam. É preciso saber olhar para as derrotas e admiti-las, ter coragem para que possamos dizer novamente: “Fora TODOS!” (como também foram derrotados e silenciados os argentinos há dez anos atrás, mas cujo fantasma ainda assombra todos os dirigentes, estejam eles onde estiverem, nos partidos, sindicatos, organizações ou Estado, com o grito “Que se vayan todos!”). Temos sido desde sempre derrotados – a História continua a ser a dos vencedores – mas nossa insistência em lutar também diz respeito a todos aqueles que um dia se opuseram a essa constante, não deixando a história dos vencidos esquecida podemos redimir as lutas anteriores no combate emancipador do presente. Não há luta pelo futuro sem essa memória do passado! Então, não podemos nos contentar a meramente dissentir em torno da ordem porque os fracassos que nos trouxeram até aqui sempre se deram pela redução da negação ao “só isso agora é possível”.

Para tornar essa rebeldia em negação generalizada é preciso avançar na crítica total, não apenas nos epifenômenos do sistema espetacular. Isso não se dará pela negação abstrata ou por uma atitude externa (alienada, alienante e dirigista), mas por meio do diálogo prático… falar enquanto se faz! Só é possível dialogar a partir do que acreditamos, isto é, através de uma necessária recusa da totalidade sistêmica que naturalizou a soberania do poder. Se os partidos e movimentos sociais alimentaram durante anos ilusões eleitorais que sequer conseguem avançar no que se propõem – nada de radicais mudanças, “avanço” na “consciência do trabalhador”, apenas a mesma e velha performatividade do dissenso – quando então surgirá o momento da autogestão generalizada da vida e da destruição do mercado e do Estado?

Estamos atrasados!

Longe de manter a letargia isso deve nos impulsionar na busca e reapropriação do poder de agir, no desejo de decidir sobre nossos próprios destinos, de restabelecer vínculos de apoio mútuo e solidariedade essenciais entre os que buscam um novo devir. Se já não temos nada a perder (somente o tédio) não devemos nunca repetir a velha divisão bolchevique entre estratégia e tática, presente e futuro, ganhos a curto prazo e revolução, como se pudéssemos impunemente trair nossos desejos porque o que queremos é sempre taxado como da ordem do impossível. É isso a própria derrota do desejo, o eterno adiamento e responsabilização daquilo que acreditamos e pelo qual lutamos, colocando-os sempre em um futuro inalcançável. Londres, Espanha, Oaxaaca, Argentina, Grécia, junho, todas essas lutas são exatamente as explosões desse agora revolucionário (Jetztzeit) que não se generalizou e foram derrotadas pelo próprio isolamento. A recusa da representatividade é aquilo pode nos permitir estar efetivamente próximos, sem qualquer ideal de apaziguamento e reconciliações forçadas.

Sabemos que tais modos de resistência e de luta contem o risco de serem apenas mais um dispositivo de poder, mas não há porque se enganar, as formas anti-autoritárias trazem mais problemas que soluções. Entrincheirar, resistir e combater é exercer uma força contrária que busca criar fissuras no poder instituído, cuja renuncia e volta aos velhos moldes sempre se constituirá como a própria derrota da criação de algo novo. Esse novo só pode ser levado a cabo na destruição do próprio poder e suas representações.

É necessário ter fé no negativo e se permitir experimentá-lo… ninguém disse que seria fácil!

Invenções para efetivar a democracia