[conjunto vazio]

A Tradição Praieira Insurgente de Belo Horizonte

In blog on maio 28, 2011 at 04:06

(o presente texto não pretende ser uma versão definitiva sobre as movimentações de Belo Horizonte, principalmente sobre a Praia da Estação, já que sua proposta desde o início era a de não eliminar os vários discursos e motivações que a compunham )

Belo Horizonte, no início de 2010 foi tomada pela Praia da Estação, ação aliando estética e política com a proposta de questionar os processos higienizadores que a cidade passa (cujo um dos pontos mais evidentes foi o decreto Nº 13.798 DE 09 DE DEZEMBRO DE 2009 do prefeito Márcio Lacerda que proibia “eventos de qualquer natureza” na Praça da Estação). Durante quase um ano (mesmo que com alguns períodos esparsos) pessoas vestidas com roupas de banho, cadeiras de praia e guarda-sóis aproveitavam as manhãs de sábado para ocuparem a praça de uma forma divertida e debater sobre questões relativas à cidade.

É verdade que a Praia permitiu vários e preciosos encontros e a partir dela muitas articulações foram organizadas, por outro lado, isso não impediu que depois de alguns meses ocorresse um certo apaziguamento de suas propostas, fato que acabou transparecendo na recepção da Praia como apenas mais um evento cultural e fetichizado (um risco que já havia sido tratado pelo próprio [conjunto vazio] em um texto publicado logo após a primeira Praia e que outras pessoas também haviam apontado) .

O que deveria ser um espaço aberto para vivenciar e discutir a utilização da cidade acabou por se tornar um local mais para ver e ser visto, um point obrigatório e descolado. A apreensão da imprensa muitas vezes ajudou a reforçar apenas esse lado festivo, a reportagem da revista Encontro intitulada “Até Parece A Lapa” aparece como a mais sintomática nesse aspecto. A matéria não expõe, nem mesmo superficialmente,as críticas feitas ao Prefeito Márcio Lacerda que com seus mandos e desmandos foi o mote para a primeira praia, no relato da revista jovens aparecem, como que em um passe de mágica,usando trajes de banho e tomando sol na Praça com o intuito de revitalizar o Centro.

Também nos parece significativo que vários banhistas da Praia fossem sistematicamente convidados para participarem de debates sobre os novos rumos da cultura na cidade. Alinhando discursos com os de alguns grupos artisticos, os quais não vão além da crítica reformista e mais preocupados comas leis de incentivo e a “classe artistica”. Muitas dessas discussões acabavam por personalizar prefeito Márcio Lacerda como “o” inimigo, atacando apenas a representação do poder. É absolutamente claro que o prefeito faz uma das gestões mais desastrosas e totalmente alinhada com os interesses mercadológicos, mas não nos parece uma boa estratégia elegê-lo como o único e maior mal da cidade, como se bastasse apenas trocar o prefeito para que os problemas de Belo Horizonte se resolvessem .

Não se trata de negar o caráter estético e alegre que a Praia TAMBÉM teve, mas de explicitar a hipótese de que houve a perda de um potencial político e questionador em prol de seu lado cultural e lúdico. Importante frisar que para muitos dos frequentadores da Praia e das pessoas que a discute (no blog e na lista de e-mails), isso não é de fato uma questão relevante, mas nos parece problemático que uma movimentação com um  tamanho potencial agregador e crítico seja tomada apenas como mais uma atração divertida no final de semana.  Ou seja, ao invés da Praia (e das relações que se criaram dentro dela) conter críticas revestidas de um senso festivo e estético, sua inversão a transformou em um produto cultural com leve um verniz  crítico.

O que se chamou e o que se pretendia como constituição de um movimento, não conseguiu dar um passo a frente em direção a uma crítica mais radical, contundente e aprofundada, tampouco conseguiu dialogar com outras agitações da cidade e com outros locais da cidade (mesmo que se tenha tentado, e é necessário destacar, outras ações como o “Que Trem é esse?” e  a Praia no Aglomerado da Serra). Novamente, cabe dizer que também não sabemos qual seria esse próximo passo e o problema permanece aberto ( sem que isso seja um demérito, pelo contrário, só nos instiga a propor mais questionamentos e ações).

Cabe aqui então desmontar a idéia de “novidade”, que acaba por fascinar muita gente e nublar as discussões, historicizando e dando a ver uma série de ações questionadoras da cidade que já continham uma estética “praieira”. Então, apresentaremos um pequeno panorama do que chamamos (pomposamente e de maneira idiota)  de “Tradição Praieira Insurgente” .

Não morreremos na Praia!



Grupo Galpão – Queremos Praia

Em 1989, o Grupo Galpão  criou o happening “Queremos Praia”. O grupo convidou atores e bailarinos de vários grupos teatrais de Belo Horizonte para essa intervenção urbana, realizada na Savassi e na Praça Sete. Todos vestidos em trajes de banho, saem às ruas convocando a população para um protesto em que reivindicavam a criação de uma “praia” em Belo Horizonte.



Lotes Vagos

“Lotes Vagos” foi um documentário de 2006, realizado por Ines Linke e Louise Ganz que retratam a ocupação de seis lotes vagos. Esses lotes tinham tamanhos e características diversas, estavam espalhados por vários bairros da cidade e em cada um foi dado um uso específico, tentando fazer dialogar esse lote com o espaço em torno. Em um desses lotes, foi criado uma praia, com piscina de plástico, espreguiçadeiras e guarda-sóis.



[conjunto vazio] – A Ilha

O coletivo [conjunto vazio] em meados de 2008 realizou a intervenção urbana “A Ilha”, que se propôs a ocupar rotatórias e espaços aparentemente sem uso.

Com uma proposta bem simples, ocupávamos a cidade com nossos amigos, avós e alguns traseuntes para uma tarde divertida e despretensiosa.


Banho de Sol na Praça Raul Soares

 Em julho de 2008 a designer Márcia Amaral ia de maiô à praça Raul Soares, aproveitar a fonte e o sol. Reivindicava o uso e a tomada desse espaço, para que famílias fizessem piqueniques, que as crianças, cadeiras e cangas pudessem ficar no gramado (ainda hoje não é permitido utilizar o gramado). Em agosto de 2008, Marta foi presa enquanto tomava sol na praça, segundo os policiais por desacato à autoridade.


Coletivo Azucrina – Rotatória de Praia

O coletivo Azucrina em dezembrol de 2009 promoveu a rotatória de Praia (importante frisar que o coletivo já estava a alguns anos fazendo festas temáticas e shows em rotatórias), que ocupou com shows a Praça da Estação.



Praia da Estação


Iniciada em 16 de janeiro de 2010, a Praia da Estação é uma ação direta, uma festiva e lúdica forma de ocupar a cidade.



 Praia Atlântico Clube

Intervenção artistica realizada por Ines Linke, Louise Ganz e Daniel Carneiro em agosto de 2010 que transformou um espaço clube-praia com a intenção de discutir temas como consumo,  espaços urbanos e lazer. Foram vendidas  cotas para se tornar sócio do clube por R$0,50.



 Praia da Estação em Coronel Fabriciano

Em maio de 2011 inspirados pela Praia da Estação de Belo Horizonte alunos de Arquitetura da Unileste-MG realizaram uma praia na Praça da Estação  de Coronel Fabriciano na  “17ª Semana Integrada de Arquitetura“.


Piscinão de Ramos em Belo Horizonte

Se você acha a Praia da Estação elitista, não tem mais desculpa: venha para o Piscinão de Ramos da Rodoviária!” em tom de humor e ao mesmo tempo crítico, o Piscinão de Ramos de Belo Horizonte é herdeiro direto da Praça da Estação. A partir da constatação de que era pouco discutir e ocupar apenas a Praça da Estação, sua proposta é levar a praia para um um lugar visto apenas como de passagem, onde habitualmente apenas mendigos e prostitutas se aventuram a permanecer.



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  1. Ótimo texto. Vou re-blogar.

  2. […] A Tradição Praiera Insurgente de Belo Horizonte (via […]) 28/05/2011 Carlos Alberto Deixar um comentário Ir para os comentários (o presente texto não pretende ser uma versão definitiva sobre as movimentações de Belo Horizonte, principalmente sobre a Praia da Estação, já que sua proposta desde o início era a de não eliminar os vários discursos e motivações que a compunham ) Belo Horizonte, no início de 2010 foi tomada pela Praia da Estação, ação aliando estética e política com a proposta de questionar os processos higienizadores que a cidade passa (cujo um dos pontos mais … Read More […]

  3. Gostei da iniciativa
    (http://pracalivrebh.wordpress.com/2011/05/28/a-tradicao-praiera-insurgente-de-belo-horizonte/).

    Tenho seguido o mesmo trajeto, relendo as movidas de dez anos pra cá em BH, passando pela Ilha e pela Rotatória temática “Praia da Estação”. Para desfazer esse mito, sem qualquer apego autoral. Esse documento novo no blog vai servir a esse trabalho, sem dúvida.

    Só tenho precauções mínimas, quando percebo que o “coletivo” está buscando é justamente os “responsáveis”, coordenadores, proponentes, idealizadores da ação. Acho nociva essa disputa autoral que emerge depois que intervenção logrou e, em seguida, definhou. (Por exemplo, qual é a razão de dizer o o [conjunto vazio] previu ou não tal ou qual possibilidade… o coletivo não predestinou nada – e eu digo isso como colaborador direto do tal texto). Abrir o território para esse tipo de rinha não acrescenta muito nos temas gerais que as próprias praias, pelo menos as primeiras, suportaram.

    Só acho que quando o artigo assume uma posição, quando ele elabora seu papel diante de uma necessidade crítica, numa dimensão mais prática, acho que o artigo fica um pouco anêmico, frágil. Temos que nos preocupar com a profundidade das problematizações, estamos em tempo que exige isso, para que as partes insurgentes se façam ser ouvidas com mais atenção, com mais cuidado.

  4. Olá Conjunto Vazio!
    Acredito que estes movimentos são mesmo efêmeros em suas ações e não acho que são suficientes para criarem um senso crítico e político. Mas fazem um outro papel, chamam a atenção de parte da população para nossos problemas urbanos e para as possibilidades do agir social/coletivo. Exigir um engajamento, ou consciência político/social de banhistas, ou outros, não é legal. A construção do cidadão passa por diversos meandros e talvez estes movimentos colaborem mais para alimentar esta construção do que para efetivá-la. Ainda mais se optamos por não ter um caracter engajado direcionado, sem referências, não temos como atuar politicamente. Infelizmente o gosto pelo fazer político é visto como negativo. Enquanto não gostamos de política, somos governados porque gosta. Abç,
    Fidélis

  5. […] Fonte:  https://comjuntovazio.wordpress.com/2011/05/28/tradicao-praiera […]

  6. dois conselhos:

    I. esqueçam debord, os situacionistas e demais formas de marxismo pueril!
    (não estamos na frança e nem na década de 60! ainda bem…)

    II. parem de tentar achar autores, criar mitos e ver arte em tudo!
    (estes são só alguns dos pilares da confortavel posição do artistas contemporâneos…)

    • Felix,
      I. Debord está morto! Realmente morto!
      Quanto a ele ser pueril, não tenho dúvidas disso (afinal onde já se viu pessoa tão chata e intratável?)… agora, quanto a ser marxista, acho que era melhor estar morto que o desgosto dessa alcunha!

      II. Gostamos de autores, fica mais fácil de colocar no curriculo para editais de arte, além de legitimar o próprio [conjunto vazio] nessa história toda (aprendemos com o senhor Stewart Home que escreveu um livro todo só para inserir o seu grupo na história das vanguardas).
      Quanto a ver Arte em tudo, isso é tipico de artistas frustrados como nós. Seriamos artistas contemporâneos de bom grado caso Inhotim nos comprasse, enquanto isso não acontece continuamos a performar nossa “anti”-arte!

      • Gostei dessa resposta. (Fico até rachando de rir, lembrando de discussões como o Dia Seguinte à intervenção Esperando Debord!)

        Ter Arte como delírio expressa, pra mim, uma escolha estratégica. O problema é tornar essa escolha um curralzinho de rinhas autorais que tiram o peso de questões que continuam nos sendo caras. Continuemos a recorrer aos autores como suporte… e a atear fogo em todos os mártires (ou que eles sejam mantidos em meio à poeira das suas teorias teóricas).

  7. […] originalmente no blog Conjunto Vazio. Você poderá gostar também de: Mapeamento ajudará ciclista a escolher melho… Vi de […]

  8. […] – As biolutas e a constituição do comum – por Giuseppe Cocco, no Le Monde Diplomatic. – A tradição praieira insurgente de Belo Horizonte – por Conjunto Vazio – Movimento Nova Cena (Minas Gerais) – – Negri: novo sindicalismo deve unir […]

  9. Esqueceram de mencionar na reportagem da “Encontro” sobre o entorno da Praça da Estação as zonas, casas de prostituições das ruas Guaicurus, São Paulo, pontos suburbanos mas tradicionais da cidade, inacreditavelmente sobreviventes, sabe se lá por quanto tempo resistirão.

  10. […] ideia da Praia partiu de uma ação do coletivo A Ilha em consonância com o que chamamos de Tradição Praieira Insurgente de Belo Horizonte) que acabava por virar mais um divertimento acrítico de final de […]

  11. […] Texto sobre a “A Tradição Praiera Insurgente de Belo Horizonte” do coletivo [conjunto vazio] onde a Praia é inserida em uma longa tradição de outra ações festivas-artística-políticas (https://comjuntovazio.wordpress.com/2011/05/28/tradicao-praiera). […]

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