[conjunto vazio]

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O que fazer quando o capitalismo é muito mais divertido e estético do que a arte?

In blog on abril 15, 2011 at 12:50

Quando eramos novos acreditavamos que fazer arte, criar e expressar nossas idéias era por si só revolucionário. Dizíamos que ter uma banda, montar um coletivo, fazer fanzines, etc. era o caminho para sermos mais autênticos,  coerentes com os nossos desejos e uma forma para combater o status quo dominante. Nossos ideais e ações tinham sempre como premissa a festa e o estético, isso servia para afastar todo o rancor, seriedade e postura militante que encarávamos na “velha esquerda”, ortodoxa e caduca.

Não que agora estejamos velhos ou renegando tais práticas (e muito menos querendo deslegitimar quem ainda crê e realiza tais posturas), trata-se aqui de ser coerente em tentar levar a cabo a crítica que propomos a partir do problema que se apresenta,  mesmo que seja necessário colocar em xeque e até abandonar nossas velhas e entranhadas prerrogativas.

Talvez a questão central: “O que fazer quando o capitalismo é muito mais divertido e estético que a própria Arte?”  não possa ser respondida, mas tampouco poderá ser evitada por aqueles que acreditam que lidar com o estético pode carregar potencias questionadoras e emancipatórias.

Grande parte daqueles  que são atravessados por esses problemas (artistas engajados, artistas políticos, artivistas  ou outro nome qualquer que queiram dar) respondem a questão tentando conciliar um fazer crítico com o estético sem de fato se atentar que em nossa época, as condições para a criação de relações anticapitalistas, criativas, divertidas e rizomáticas nunca foram tão propícias e estimuladas. Estaríamos então simplesmente encarcerados no próprio ciclo de produção que acreditávamos combater?

"Se alguém pensa que Hakim Bey é subversivo é porque ainda não conheceu os publicitários da Volkswagen"

Nessas configurações nos parece evidente que o problema do capitalismo no futuro será a utilização do tempo livre.  O artista aparecerá então, não mais como um pária ou crítico (como querem alguns), mas como um organizador dos  lazeres, cabendo a ele propor eventos e situações (qualquer um que já visitou uma loja da Apple sabe que o vendedor, quase sempre misto de DJ e Designer, não vende o produto mas suas potencialidades de uso e criação) . Tal previsão cria para aqueles que tiverem conhecimento, mesmo que mínimo, das vanguardas artísticas do século XX uma sensação de familiaridade e pavor já que as propostas de emancipação e utopia foram invertidas e incorporadas à lógica capitalista. O potencial disruptivo de tais vanguarda foram transformadas em glamour e novas tendências disponíveis para todos os setores do consumo .

Se a crítica aos moldes clássicos e todo um fazer estético que antes era questionador se mostra inócuo, a simples indiferença também não se mostra um caminho (como algumas críticas querem nos fazer crer ser a única e apocalíptica alternativa) como se bastasse sentar e esperar ruir o mundo sob nossos pés.

Impossível não levar tais críticas para o interior do [conjunto vazio] já que procuramos desvincular estética da Arte,  buscando fugir da lógica de apreensão de um objeto ou evento como imediatamente artístico. Fugindo de lugares onde essa relação já se dá de imediato e tentando de fato usar “procedimentos artísticos” na cotidianidade. Mas qual a real efetividade de tal estratégia?

O problema está posto, resta saber se não estamos incorrendo aos mesmos erros que apontamos…  cabe então, não apenas reelaborar questões e críticas, mas a possibilidade de criar uma nova práxis que se faz no cotidiano para além da Arte, da especulação vazia e da aceitação de grupo.