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verbete #5: [mobilização e catarse]

In vocabulário de palavras em desuso on fevereiro 4, 2010 at 01:33

A história está recheada de situações nas quais ocorre uma mobilização social incapaz de levar a uma modificação das relações sociais, mas que, ao contrário apenas prolonga a sua existência. Há, dessa forma, um gozo substituto para as massas: tal mobilização visa a uma representação e não à causa que motiva a demanda. É o caso de linchamentos, quando a reação de uma comunidade frente a um crime não é voltar-se contra as causas do crime, mas eleger um indivíduo como a encarnação de todo mal. O linchamento é uma espécie de performance para afirmar os valores morais de uma determinada comunidade sem tocar na delicada questão de reformulá-los. O mesmo ocorre, por exemplo, com as medidas públicas de segurança. Está fora de cogitação uma política social para eliminar as causas da violência urbana, mas apenas voltar-se contra infinitos substitutos.

A manipulação de substitutos é um tópico essencial para compreender o modo de funcionamento da ideologia contemporânea. Se há uma decadência da esquerda é também porque todo descontentamento é realizado em “representações ou imagens de descontentamento”, não dando origem a uma verdadeira posição crítica. Antes é preferível oferecer signos de revolta através de objetos de consumo, do que reformular os próprios modos de envolvimento com a realidade social. Sem dúvida, a internet e a democratização da informação são ferramentas úteis para refinar a aderência dessas identificações em nós mesmos.

Algo estranho ocorre em sociedades democráticas. As mobilizações sociais não são totalmente proibidas, mas também não têm, geralmente, poder para transformar as relações sociais. Na verdade, por mais divergentes que elas sejam, elas têm a função precisa de garantir a auto-imagem de democracia. Elas são frequentemente mais performances que conferem certeza do quanto somos democráticos, do que uma verdadeira intervenção política.


Não é possível pensar a recusa de envolvimento político ou jurídico de mobilizações espontâneas como as chamadas T.A.Z (Zonas Autônomas Temporárias) nesses termos? Ou até mesmo passeatas e protestos longe de serem as mobilizações mais subversiva, não são apenas uma catarse para nossos descontentamentos?

Voltaríamos, então, a velhas questões e querelas, como por exemplo, definir quais seriam as formas centrais de se fazer política e efetivar a crítica, já que há uma enorme falácia na chamada “democracia”. Temos voz e podemos pronunciar qualquer critica, mas não há nenhuma comunicação ou horizonte de mudança possível. Além disso, é notório como os próprios meios da política “tradicional” estão sempre prontos a deslegitimar qualquer modo que desvie da sua burocracia e docilização, fomentando a sensação de que o estado das coisas seguem o seu curso de maneira autônoma sem que possamos sequer interferir,  uma tragédia grega onde só podemos sucumbir ao destino.

É necessário evidenciar que a política como conhecemos é uma atividade especializada e separada, exercida por poucos. Por isso, o embate político entre os que procuram gerenciar vidas e aqueles que resistem se dá já no cotidiano (qualquer proletarizado ou minoria política entende isso de imediato). Não poderíamos fugir de confrontar esse fato nem se quiséssemos, basta andar nas ruas ou ligar a TV para que isso salte aos olhos. Essa perspectiva reforça que não podemos nos furtar de inventar novas formas políticas que vão além de um “mudar o estilo de vida” ( discurso usado diversas veze pela publicidade como única forma de mudança possível na sociedade capitalista) ou de uma organização aos moldes da velha esquerda, que está sempre a espera de uma revolução que nunca chega. Não é possível sustentar posições reformadoras!


Seriam as T.A.Z, intervenções urbanas, ações estético-politicas, marchas e protestos (ou outro nome que queiram dar a essas manifestações) capazes de avançar em direção a uma perspectiva mais radical de mudança, mesmo que muitas vezes tais ações sejam usadas em grande parte das vezes para o simples expurgo do tédio cotidiano?

Nossa crítica não significa a  priori a negação de uma potência subversiva que essas ações podem provocar. O grande problema acontece quando há uma satisfação interminável com os “fins de semana revolucionários” sem que isso seja transportado para o cotidiano como um todo negando a especialização e a fragmentação. Embora apreendida e difundida como um modismo contido em kits literários para ativistas, os procedimentos que borrem as instâncias do poder, quando aplicados à prática cotidiana materializada, podem ser bons exemplos das possibilidades de transformar velhas e novas estratégias em radicais territórios autônomos e autogeridos.

Se tomados não como uma espécie de modelo e performance mas a partir de sua potência, tais ações podem enfim nos jogar imediatamente para o agora – é notório o quanto de nós vive no passado ou em planos que ainda não se concretizaram- servindo para esclarecer e trazer a tona o quanto estamos em descompasso com o cotidiano. A partir disso, as falsas promessas que nos vendem e transmitem a ilusória crença de felicidade e reconciliação ficam latentes e carregam a possibilidade de serem alterada. A urgente necessidade de afastar a premissa introjetada de que seria necessário primeiro aceitar as regras do poder instituído com todos os seus procedimentalismos burocráticos, para depois reivindicar a chance de alterar a vida também é posta em xeque. Todas essas manifestações, aparentemente muito simples e banais, serviriam para construir estrategias e ações capazes de criar novas formas de política e subjetividade; Experimentações capazes de gerar resultados imediatos, prazerosos, festivos e questionadores (mas que não encerram a discussão e muito menos as reivindicações).

É necessário frisar e perceber o enorme risco de que tais atividades possam ser inócuas e encerrem-se em si mesmas caso não compreendam o limite tênue em que se equilibram, entre o reificado ativismo e o lazer, como o tempo “livre” passivamente consumido.

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  1. Opa!
    Legal o texto, me fez pensar mais sobre a ocupação do espaço urbano. Acredito que estes “finais de semana revolucionários” são uma escola, o pre-primário para muitos aprenderem sobre política. Percebo uma falta de vontade de envolvimento com o ambiente macro por perceberem como corrompido. De certa forma os políticos profissionais conseguiram criar uma imagem de que não vale a pena se envolver com eles. E a juventude se sente impotente e incapaz de dialogar que estes sacripantas.
    Abraço.

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