[conjunto vazio]

Praia da Estação: Debaixo da praça a praia , debaixo da praia uma cidade inteira a ser ocupada

In blog on janeiro 21, 2010 at 00:23


 

“Sous les pavés la plage”

pichação  em um muro de Paris, maio de 1968

 

A Praia já aconteceu e foi  extremamente prazerosa.  Talvez soe clichê dizer que as pessoas pareciam estar em uma mesma sintonia.  Havia ali na Praça da Estação uma pluralidade de discursos,  com pessoas de vários pontos da cidade, de diversas idades e ideologias, todos compartilhando o mesmo espaço com o intuito de se divertirem e debaterem sobre o significado de se estar ali.

Mas é importante frisar: a Praia já aconteceu e acabou. Não se trata de afirmar que outras não poderão ocorrer ou clamar por um espontaneísmo purista de sua organização, mas pensarmos que quanto mais gerarmos expectativas para algo que se mostra fluido e de agregação horizontal corremos o risco de cairmos em  um evento que incida na perda do seu potencial político e radical, preocupando-se apenas em fornecer mais um serviço cultural para tirar as pessoas de seu final de semana entediante.


 

É preciso que se comece a pensar de fato no que pode significar invadir uma praça, fazendo dela um espaço de convivência e interação para, depois de tudo, voltar para casa em um ônibus que cada vez fica mais caro, no trânsito abarrotado de carros e em meio a pessoas sem perspectivas. Você tem o seu final de semana divertido e lúdico, mas na segunda-feira é obrigado a acordar cedo e ir trabalhar em um emprego que não gosta. Não seria contraditório esquecer isso? Todas estas contradições cotidianas estão relacionadas também com essa intervenção, e revelam o quanto não podemos nos limitar às questões de eventos artísticos poderem ou não ocorrer na Praça da Estação, como a maioria da imprensa noticiou em sua cobertura rasa e primária, um release.

O cerco se fecha em toda a cidade, sob o nome requintado de “revitalização”, que acontece não só em Belo Horizonte, mas atinge São Paulo e suas rampas/bancos antimendigos, a proibição da permanência em algumas áreas do centro; varre a região do cais do porto no Rio de Janeiro, desalojando famílias, recrudescendo investidas nos morros. Só alimentam uma cidade gentrificada e “limpa”, cujo uso não interessa, desde que possa gerar belos cartões postais. Belo Horizonte segue essa inclinação urbanística, esperando que a Copa de 2014 faça escorrer pela cidade uma torrente de dinheiro turístico que justifique essa paranóia higienista e orwelliana, como o “Projeto Olho Vivo” que coloca centenas de câmeras no centro da cidade, querendo nos fazer crer que o preço da “segurança” é a eterna vigilância.


Ações como a Praia vão na direção contrária dessa tendência e nos mostram que parece ser muito mais simples afastar o tédio, se divertir e dialogar com a cidade… então por qual razão esperar que alguém promova algo para aproveitar a cidade? Por que fazer isso só no centro, na praça da estação e não em seus próprios bairros?

 

É por essa razão que vale pensar no paradoxo de se fazer da Praia mais um evento espetacularizado. Por que não exigir tudo? Tudo que pode ser tomado de volta merece ser ocupado, e isso quer dizer não só a Praça da Estação mas todas as praças, todas as ruas e pontos não utilizados da cidade. Impossivel não dialogar com outras mobilizações de Belo Horizonte (Movimento Passe Livre, Brigadas Populares, movimentos dos sem-teto, Bicicletada, dentre outros), é necessário que saiamos do gueto artistico, ainda conservando todo o bom-humor e aspecto lúdico que nos permita exigir TUDO!

… pois a práxis é nossa!

 

Amig@s da Próxima Insurreição e [conjunto vazio]

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  1. Muito doida a idéia, muito doido o texto.

    Boto fé que a principal parte pra mim é “[…] e em meio a pessoas sem perspectivas.”

    Pensar no que está acontecendo, se está tudo errado (está) ou não; mas pensar sobre isso e ter clareza da sua participação no mundo ao seu redor, que fazemos sim diferença, e que a mudança de certos valores muito contraditórios, sem sentido e que atrapalham nossa vida depende da quebra diária deles, por mais que isso pareça muito estranho inicialmente.

    Doido demais, que essa parada da praça sirva pra agregar umas cabeças afim de desconstruir o Homo sapiens atual e sua vida em cidades; a razão, os motivos e os ganhos de um mundo extremamente globalizado em idéias, objetivos e práticas; pra vivenciar os espaços ainda livres que existem (ou não) em meio a montanhas e montanhas de concreto, que em nada andam contribuindo pra vida de quase ninguém.

    Falou.

  2. […] This post was mentioned on Twitter by Sarah Vaz, Paulo Rocha. Paulo Rocha said: https://comjuntovazio.wordpress.com/2010/01/21/praia-da-estacao/ Texto crítico sobre a Praia na Praça da Estação e suas potencialidades […]

  3. Compreendo a crítica, mas acredito que a potência do movimento pode também se encerrar em si. Todo o cuidado é pouco para não deixarmos a vida mais amarga que ela já é! Quando alguém se posiciona contra, ele grita contra tudo!

  4. Acho muito pertinente a atenção do Anônimo. Fico, às vezes, desconfiado dos tons demasiado messiânicos, que se querem como orientadores indispensáveis de algo que ainda não desenvolveu o suficiente seus problemas. Pode atravancar o fluxo, querer ideologizar a algo mais do que si próprio…

  5. Concordo com o que foi dito, trata-se sobretudo de uma questão política, de repensar e redefinir que cidade estamos habitando e como possamos inventar novas formas de estar aqui. De fato, devemos repensar TODOS espaços como foi frisado, não só na região central, mas ao lado e embaixo de nossas janelas. A cidade se alimenta da “fascisação” e da espetacularização dos espaços onde tudo se transforma em lugar de passagem, contemplação – a cidade é um grande shopping center -, e menos de encontros, construção de relações interessantes e diferentes.
    No entanto, penso que a praia pode ser um começo. Talvez será necessário mais tempo, é preciso deixar fermentar e alimentar práticas e discussões mais amplas e concretas, por exemplo, como foi dito no texto no alto, sobre o que significa OCUPAR um espaço que de fato é de todos.

  6. Juro para vocês que esse texto TEM QUE SER distribuído na praia. Ele é um texto necessário nesse momento.

  7. […] evento cultural e fetichizado (um risco que já havia sido tratado pelo próprio [conjunto vazio] aqui no blog e também por outros) […]

  8. […] cultural e fetichizado (um risco que já havia sido tratado pelo próprio [conjunto vazio] em um texto publicado logo após a primeira Praia e que outras pessoas também haviam percebido) […]

  9. […] culturale fetichizado (um risco que já havia sido tratado pelo próprio [conjunto vazio] em um texto publicado logo após a primeira Praia e que outras pessoas também haviam apontado) […]

  10. […] cultural efetichizado (um risco que já havia sido tratado pelo próprio [conjunto vazio] em um texto publicado logo após a primeira Praia e que outras pessoas também haviam apontado) […]

  11. […] cultural e fetichizado (um risco que já havia sido tratado pelo próprio [conjunto vazio] em um texto publicado logo após a primeira Praia e que outras pessoas também haviam apontado) […]

  12. […] pela Praia da Estação (ação que o [conjunto vazio] esteve intimamente envolvido desde seu início, já que  própria ideia da Praia partiu de uma ação do coletivo A Ilha em consonância com o […]

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