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verbete #4: [utopia]

In vocabulário de palavras em desuso on janeiro 10, 2010 at 15:28

É comum compreendermos o “niilismo” como um conceito voltado contra a religião. Mas, de um modo geral, chamamos alguém de niilista quando ela deixa de acreditar em valores transcendentes como critérios orientadores da sua vida, independente se é um deus ou não. A despeito de todas as modificações ou de provas que podem constranger as suas crenças, uma posição não-niilista também insiste no seu engajamento. Então, ao invés de modificar a sua posição por causa dos fatos, a interpretação dos fatos se adequa, de um modo ou de outro, às suas posições. “Utopia” comumente não tem qualquer significado para um niilista, porque uma utopia implica em transcendência, ou seja, implica em orientar a realidade atual tendo em vista uma outra realidade. Não é incorreto tomar também o melancólico por utópico. A lembrança do objeto perdido ou de um estado de plenitude orienta a relação do melancólico com a realidade. Mas, sem dúvida, o mais comum é o olhar do utópico estar voltado ao futuro. A utopia é um mundo por vir. Em última instância, é a redenção do mundo atual.

Batman, Hamlet ou Bloom?

Muitos engodos surgem dessa noção. A promessa de um futuro pleno tem sido uma das estratégias para dissuadir as pessoas a conquistarem agora aquilo que elas podem. Trata-se de convence-las de que não estão preparadas para aquilo que desejam e, assim, a se resignarem ao estado atual de coisas como o melhor modo de alcançar o que desejam. O mundo atual não é amado e o mundo desejado se perde em um futuro longínquo, simultaneamente. A conservação do estado atual de coisas se faz através de um jogo de aproximação e distância com aquilo que é desejado, o importante porém é que a posse seja sempre impossível. É realmente problemático quando as pessoas se sentem plenas nos seus engajamentos. A cada vez que surgir um sentimento de posse e de plenitude, deve-se pensar-se como culpado, como um “eu não tenho direito”.

Independente se esssa cisão no coração do desejo é constitutiva ou não, o mais importante é observarmos o modo como o estado atual de coisas hoje organiza e administra essa cisão. Por um lado, há uma descrença universal em todo tipo de valor transcendente. Somos todos cínicos com toda crença, lei ou engajamento/voluntarismo. Nenhum deus tem a onipotência de antes. De fato, nós somos todos niilistas. Esperamos ser pessoas versáteis que sabem se adaptar a qualquer situação, que sabem transitar de uma crença para outra. Mas, por outro lado, isso não significou uma relação plena com o mundo. Ao invés do amor fatti, há uma insatisfação generalizada. Não é por outro motivo que acreditamos em qualquer coisa que nos oferecem para suturar o buraco dentro de nós. Não há outro significado para o new age, os livros de auto-ajuda, etc. Algo como o personagem principal do filme Clube da Luta que se esforça para tapar o seu vazio com artigos de decoração e reuniões de grupos de auto-ajuda. Por isso (é uma hipótese) deva-se repensar se ao contrário dessa flexibilização total de nós mesmos ser uma liberação em todos os níveis da vida (desejo, trabalho, tempo livre, linguagem, etc), será que ela não foi um modo de moldar as nossas economias subjetivas para satisfazer uma necessidade de um fluxo mais acelerado de mercadorias? Porque é realmente preciso destruir todas as territorializações rígidas (Estados, religiões, culturas tradicionais,  etc.) para existir um capitalismo universal. Foi necessário também livrar-nos das nossas utopias, das nossas crenças em um “para-além” e instituir uma precariedade essencial em todos os sonhos. A contrapartida do esclarecimento ou da desilusão frente às utopias é um certo “realismo capitalista” onde toda tentativa de solucionar um problema não vai além das soluções que reproduzem o atual estado de coisas. Como se nossa condição fosse tão ideológica ao ponto de equacionar o pensar racional com o pensar a favor do status quo. O problema consiste então em recusar a banalidade ou o gratuito e, ao mesmo tempo, não fazer retornar uma territorialidade que só artificialmente poderia ser a nossa. É a atual condição de crença e engajamento/voluntarismo (ainda que com todo o peso e ranço que essas palavras carreguem).

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  1. Esse texto toca em questões que têm me ocupado o bastante recentemente. E a forma da escrita, os elementos que escolheu tratar para re-evocar um termo que há muito tempo é foco das chacotas dos bem-resolvidos (UTOPIA), me soa muito sagaz.

    Uma pequena confusão orienta (e isso não se dá por acaso) o que vocês chamam de “dissuasão” em relação às potencialidades de um fazer-se no agora: a derrocada dos socialismos de Estado não demarca, como presumem os argumentos que vêm do ventre do status quo, a condição necessária do “fim das utopias”. O assunto é sempre tratado como se estas variantes devessem, ambas, estar como sinônimos bastardos em favor da justificação de um “estado de coisas”. Antes de mais nada, o empenho de muitos insurgidos volta-se para arrancar a utopia de sua condição de miragem (espécie de cela imaginária), sua codição de não-lugar normalmente observado à distância com algo de lamento ressentido (aquilo que se assemelha a uma eterna pausa contemplativa).

    Basta ver o exemplo de alguns grupos envolvidos nas rebeliões que estouraram na Grécia em finais de 2008, sua dupla relação entre desconfiança, “descrença” (uma habilidade de duvidar facilmente de tudo) e ação direta eminentemente utopista. É algo mais que simples cinismo.

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