[conjunto vazio]

psicogeografia #2

In mapa afetivo da cidade on janeiro 4, 2010 at 13:47

Andar de madrugada pela cidade tem se tornado uma constante. Quase sempre antes de sair de casa me lembro do meu pai contando que quando era jovem andava durante horas por uma cidade já em constante expansão, ele só voltava quando as pernas não aguentavam mais procurar outro bairro para ir. Pensar nisso ou em uma frase recorrente (“A caminhada impede que fiquemos retornando sempre às interrogações sem resposta, enquanto que na cama remoemos o insolúvel até a vertigem”) me impulsionam para que eu abra a porta e saia. As vezes só é preciso coragem e tédio para mudar sua noite.

Moro na região central de Belo Horizonte, um espaço que durante grande parte do tempo permanece abarrotada de pessoas. A cidade e mais propriamente o Centro é usada apenas como um local de passagem, um trajeto de um lugar particular privado para outro local particular e privado, penso que talvez seja principalmente por causa disso que a região onde moro é deixada de ser vivenciada, não tendo interesse nenhum das pessoas em ver o Centro ( isso se estende por toda cidade) como um local de experimentações e possibilidades.

É verdade que de madrugada poucos se aventuram nas ruas, a não ser os mendigos te parando de esquina em esquina pedindo um cigarro, eventuais trabalhadores voltando para seus bairros de origem a pé, prostitutas desconfiadas que te olham sempre de soslaio, pichadores deixando rastros pelos muros ou pessoas em busca de uma dose violenta de qualquer coisa. Tudo isso demonstra que cruzar o Centro a essa hora é um exercício que poucos estão dispostos.

Tenho feito a vários dias um caminho longo e insistente. Caminho em direção aos bairros ricos, lentamente observo como se dá a passagem de um bairro para outro, percebendo como as edificações, os carros estacionados e os cheiros mudam. As vezes, basta atravessar uma rua para que as construções se verticalizem, pequenos prédios e casas velhas se transformem em construções de mármore branco e vidro fume, a nova obsessão da classe média enriquecida.

Me pergunto por qual razão esse caminho tem me atraído, tento pensar para além dos motivos mais óbvios como esses serem, na maior parte das vezes, os bairros mais arborizados, bem cuidados e “bonitos”. Quase chego a conclusão de que ando por esses bairros para ver os prédios que não poderei morar e a vida que eu nunca vou ter.

De forma nenhum isso é desesperador, simplesmente, ao passar da linha tênue que separa o Centro dos bairros de classe média alta, consigo perceber que sempre nos fizeram acreditar que seriamos ricos, astros do rock, atores famosos… óbvio que isso é um mentira, é bastante claro que não poderei ter nem metade das coisas que vejo ( talvez no fundo nem queira). Parece ser inevitável ao confrontar todas essas possibilidades não se sentir só, mais um dentre tantos que moram em um bairro sujo qualquer, em cidades sujas e afastadas das principais cidades, em países distante dos principais países. É difícil não ser cínico e niilista, se é exatamente assim que rotulam toda “minha” geração, como não tendo aspirações, paixão, nada para reivindicar exceto consumir, ver TV, ir a boates nas noites de sábado e segunda estar pronto para voltar ao trabalho.

Somos os filhos e herdeiros de todas as promessas de ascensão social, isso fica tão nítido nessas noites em que ando por essa parte da cidade e sou obrigado a me confrontar com uma realidade que não posso altera-la de imediato. Engraçado como sempre chega uma hora da madruga em que as pernas vacilam e você se esquece por qual razão procura tanto… aí você volta para casa, deita e dorme…

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  1. […] This post was mentioned on Twitter by Paulo Rocha and Luiz Carlos Garrocho. Luiz Carlos Garrocho said: Maravilhoso texto do blog Conjunto Vazio, por @xpaulorochax – http://bit.ly/gVK5vR – Psicogeografia 2 – […]

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