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Praia da Estação: Debaixo da praça a praia , debaixo da praia uma cidade inteira a ser ocupada

In blog on janeiro 21, 2010 at 00:23


 

“Sous les pavés la plage”

pichação  em um muro de Paris, maio de 1968

 

A Praia já aconteceu e foi  extremamente prazerosa.  Talvez soe clichê dizer que as pessoas pareciam estar em uma mesma sintonia.  Havia ali na Praça da Estação uma pluralidade de discursos,  com pessoas de vários pontos da cidade, de diversas idades e ideologias, todos compartilhando o mesmo espaço com o intuito de se divertirem e debaterem sobre o significado de se estar ali.

Mas é importante frisar: a Praia já aconteceu e acabou. Não se trata de afirmar que outras não poderão ocorrer ou clamar por um espontaneísmo purista de sua organização, mas pensarmos que quanto mais gerarmos expectativas para algo que se mostra fluido e de agregação horizontal corremos o risco de cairmos em  um evento que incida na perda do seu potencial político e radical, preocupando-se apenas em fornecer mais um serviço cultural para tirar as pessoas de seu final de semana entediante.


 

É preciso que se comece a pensar de fato no que pode significar invadir uma praça, fazendo dela um espaço de convivência e interação para, depois de tudo, voltar para casa em um ônibus que cada vez fica mais caro, no trânsito abarrotado de carros e em meio a pessoas sem perspectivas. Você tem o seu final de semana divertido e lúdico, mas na segunda-feira é obrigado a acordar cedo e ir trabalhar em um emprego que não gosta. Não seria contraditório esquecer isso? Todas estas contradições cotidianas estão relacionadas também com essa intervenção, e revelam o quanto não podemos nos limitar às questões de eventos artísticos poderem ou não ocorrer na Praça da Estação, como a maioria da imprensa noticiou em sua cobertura rasa e primária, um release.

O cerco se fecha em toda a cidade, sob o nome requintado de “revitalização”, que acontece não só em Belo Horizonte, mas atinge São Paulo e suas rampas/bancos antimendigos, a proibição da permanência em algumas áreas do centro; varre a região do cais do porto no Rio de Janeiro, desalojando famílias, recrudescendo investidas nos morros. Só alimentam uma cidade gentrificada e “limpa”, cujo uso não interessa, desde que possa gerar belos cartões postais. Belo Horizonte segue essa inclinação urbanística, esperando que a Copa de 2014 faça escorrer pela cidade uma torrente de dinheiro turístico que justifique essa paranóia higienista e orwelliana, como o “Projeto Olho Vivo” que coloca centenas de câmeras no centro da cidade, querendo nos fazer crer que o preço da “segurança” é a eterna vigilância.


Ações como a Praia vão na direção contrária dessa tendência e nos mostram que parece ser muito mais simples afastar o tédio, se divertir e dialogar com a cidade… então por qual razão esperar que alguém promova algo para aproveitar a cidade? Por que fazer isso só no centro, na praça da estação e não em seus próprios bairros?

 

É por essa razão que vale pensar no paradoxo de se fazer da Praia mais um evento espetacularizado. Por que não exigir tudo? Tudo que pode ser tomado de volta merece ser ocupado, e isso quer dizer não só a Praça da Estação mas todas as praças, todas as ruas e pontos não utilizados da cidade. Impossivel não dialogar com outras mobilizações de Belo Horizonte (Movimento Passe Livre, Brigadas Populares, movimentos dos sem-teto, Bicicletada, dentre outros), é necessário que saiamos do gueto artistico, ainda conservando todo o bom-humor e aspecto lúdico que nos permita exigir TUDO!

… pois a práxis é nossa!

 

Amig@s da Próxima Insurreição e [conjunto vazio]

Carta Aberta: Sobre a Praia na Praça da Estação

In blog on janeiro 16, 2010 at 01:05

 

A ação nem aconteceu e já vemos uma celeuma se formando.  Vemos como ferramentas de divulgação pela internet espalham a notícia de forma extremamente eficiente e rápida, ao preço de muitas vezes modificarem e deturparem o sentido original. Notamos o desejo insistente da mídia para noticiar a ação como mais um evento cultural da cidade. Sinceramente não sabemos se é vantajoso o preço que se cobra por tal “divulgação”.

A idéia e a organização da praia se deram de uma forma muito simples e propositalmente anônima. O que parece ser notório é a constatação de algo que quase sempre acontece quando se tem uma adesão tão popular e espontâneo:  o fato de que sempre existe alguém pronto para aparelhar e cooptar o discurso.

Algo comum em passeatas, repletas de bandeiras que se levantam com o intuito de uniformizar um mesmo discurso : “todos aqui lutam pela mesma causa e respondem a um mesmo ideal”. Nesse processo, há a tomada de frente de alguns (sejam individuos ou partidos), que se auto-intitulam porta-vozes de algo que nem existe

É necessário tomar cuidado aqueles que participam espontaneamente do evento, estimulados por um desejo legítimo de aproveitar a praça de uma maneira lúdica,  sejam utilizados como massa de manobra para engrossar as fileiras de uma ideologia que nem sempre compactuam. Ao mesmo tempo, tomar a praia como um flashmob significa retirar todo o potencial subversivo da intervenção, já que tal tipo de manifestação já foi  absorvida por um sistema de publicidade e atualmente é a nova diversão da classe média semi-instruída.

A Praia da Praça da Estação não tem líderes, não tem partido, não precisa deles… muito menos esse integrante do coletivo [conjunto vazio] que vos fala pode determinar o que a praia é ou deixa de ser, simplesmente porque isso não me pertence e a intervenção nem mesmo aconteceu. Se posso dizer algo, digo que essa ação irá se concretizar e não precisa de nenhum discurso que a legitime, muito menos de vanguardas, sejam elas artísticas, políticas ou jornalísticas.

Engraçado, como não só o sistema vigente, mas como também as pessoas dispostas a aderir à ação, ainda cobram esse tipo de legitimação de um grupo organizado,  um significado, sendo que o significante que é a ação em si,  já é auto-suficiente.  Não é necessário nem explicitar que o objetivo é contrariar o decreto autoritário e sem sentido do prefeito Márcio Lacerda, ou promover uma nova utilização da cidade; essa ação simplesmente é e não se encerrará aqui.

Os discursos, as hierarquias, o tédio, a publicidade gratuita tudo isso se cala; pois faremos da cidade nossa novamente!

Praia na Praça da Estação

In blog on janeiro 13, 2010 at 21:42

Onde? Praça da Estação – Hipercentro de Belo Horizonte

Quando? Sábado, 16/01/2010, 9:30

Quanto? De graça!

Venha curtir o sol de verão e se divertir na PRAIA NA PRAÇA DA ESTAÇÃO.

O DECRETO Nº 13.798 DE 09 DE DEZEMBRO DE 2009 do nosso dignissimo prefeito de Belo Horizonte, Marcio Lacerda, proibe que aconteça qualquer tipo de evento na Praça da Estação. A pergunta permanece: a quem interessa que os espaços públicos sejam apenas pontos de passagem e consumo?

Se nos é negado o direito de permanecer em qualquer espaço público da cidade, ocuparemos esses espaços de maneira divertida, lúdica e  aparentemente despretensiosa.

Traga sua roupa de banho (bermuda, calção, biquini, maiô, cueca), boias, cadeiras, toalhas de praia, guarda-sol, cangas, farofa e a vitrolinha…

Traga tambores e viola!

Traga comida para um banquete coletivo!

DEBATE: “REVITALIZAÇÃO POR DECRETO”

Há cinco anos, iniciou-se em regiões de da Grande Belo Horizonte um novo processo de higienização urbana, que tem como base elementar a reestruturação de espaços da cidade em consonância com as tendências contemporâneas de uso e desuso especulativo-mercantil das grandes  cidades.

Além do ostensivo investimento em mecanismos de monitoramento que se espalharam pelos arredores do centro urbano de BH (vide o chamado Projeto Olho-Vivo), tais empreendimentos tendem a sufocar, por vários meios, o encontro espontâneo de indivíduos nas ruas e o livre uso de espaços classificados como “públicos”. Essas intervenções se definem por moldes dos velhos projetos de gentrificação, característicos de todas as modernas cidades erguidas sob os pressupostos unitários do capitalismo: limpeza de aspecto fundamentalmente classista, projetos infra-estruturais de custos estratosféricos, restauração de pontos turísticos, etc.

Em 09 de dezembro de 2009, foi decretada pela administração da cidade,  com assinatura direta do prefeito, a proibição de “eventos de qualquer natureza” na Praça da Estação (ou Praça Rui Barbosa), um patrimônio público que viveu os primeiros suspiros da cidade. A medida pode assinalar a retomada do que se iniciou em 2005/2006, como corrida “emergencial” para a conclusão de todas as obras necessárias para que BH possa dar suporte aos eventos da Copa do Mundo de 2014.

Chamamos a todos os interessados para esmiuçar o tema das “revitalizações” (um termo polido veiculado pelas instituições oficiais) e dos decretos de lei que instauram o deliberado loteamento dos espaços públicos enquanto curtiremos o sol e a cidade.

Panfleto: Sobre a luta anticapitalista

In blog on janeiro 12, 2010 at 16:47

A@s descontentes com a realidade;

Há um pouco mais de 10 anos os Dias de Ação Global foram inaugurados quando, atendendo aos chamados da Ação Global dos Povos, ativistas de diversas partes do mundo coordenavam protestos simultâneos em contraposição aos encontros dos gestores do capitalismo mundial (FMI, Banco Mundial, OMC, BID, etc.).


O mais famoso protesto desses dias foi o N30, esse sim de 10 anos atrás, também conhecido como a “Batalha de Seattle”. Cerca de 50 mil ativistas (entre sindicalistas, ecologistas radicais e anarquistas) simplesmente abortaram a chamada “rodada do milênio” da OMC (Organização Mundial do Comércio) que queria iniciar os anos 2000 negociando uma maior abertura do comércio mundial. Festas de rua, barricadas flamejantes, enfrentamento policial e as inovadoras táticas de comunicação via internet/celulares entre @s ativistas fizeram desse um dia vitorioso para o movimento anticapitalista mundial.

Este, porém, não foi o primeiro Dia de Ação Global (já havia acontecido o J18 em Londres e ainda em 1998 os protestos em Genebra), muito menos foi o último (tantos outros nos anos seguintes como o S26, A20, o G8 em Gênova, dentre outros). Tampouco as idéias, posturas e táticas ali utilizadas nasceram dentro desses Dias (@s autonomistas vinham agitando a Itália desde os anos 70 com suas greves selvagens e sabotagens, e os squatters alemães já usavam a tática Black Bloc nos anos 80) ou se acabaram com eles (a rebelião de Oaxaca em 2006 e a Grécia em chamas de 2008 comprovam isso).


No entanto nós, autônom@s, anticapitalistas, libertári@s, vivemos um momento agora em nossa realidade onde a paralisia é geral. E não adianta procurar justificativas que não existem. O mundo ainda continua sobre ataque constante do Capital e dos Estados, assassínios políticos diversos, super-exploração humana e animal e a destruição cada vez maior do nosso ecossistema em nome do lucro. E claro, a resistência não diminuiu, gritam @s squatters lutando pelos seus direitos na Holanda, @s manifestantes contra a COP15 na Dinamarca, as manifestações na Grécia e a juventude do “Fora Arruda” em Brasília.

O que parece ser notável é a grande miséria que se encontra no meio hardcore/punk, fato que fica visível justamente por ocorrer em um meio que se diz politizado e ativo, mas que atualmente limita todo seu potencial servindo apenas para organizar shows e reproduzir ainda mais o espetáculo da separação entre aqueles que atuam e aqueles que assistem. Não se trata aqui de dizer que o punk, o hardcore, o straight-edge, etc. são inúteis, mas que são ideologias e devem ser superadas para que continuem tendo poder crítico. Devemos descartar o que tem de mais superficial e aproveitar tudo aquilo que deve ser aproveitado.

Também não poderiamos esquecer da velha esquerda, patética e retrograda em seus valores, esperando eternamente que a revolução aconteça enquanto tiram o pó de velhas teorias sentados em suas reuniões burocraticas. Quase sempre estão mais preocupados em “catequizar” as pessoas,  além da notável falta de humor e desejo em seus discursos já empoeirados. A luta contra os poderes coercitivos é diária e deve negar heróis, vanguardas e o tédio.

O que faremos então? Existem duas opções, nos deixarmos levar pela maré da história, ou organizamos um motim, tomarmos o barco e içarmos a bandeira preta, antes de afundá-lo.

A barricada só tem dois lados. Ou se está do lado de quem quer manter a ordem, ou do lado de quem a quer derrubar. Escolha o seu e mobilize-se AGORA!

Amig@s da Próxima Insurreição e [conjunto vazio]

verbete #4: [utopia]

In vocabulário de palavras em desuso on janeiro 10, 2010 at 15:28

É comum compreendermos o “niilismo” como um conceito voltado contra a religião. Mas, de um modo geral, chamamos alguém de niilista quando ela deixa de acreditar em valores transcendentes como critérios orientadores da sua vida, independente se é um deus ou não. A despeito de todas as modificações ou de provas que podem constranger as suas crenças, uma posição não-niilista também insiste no seu engajamento. Então, ao invés de modificar a sua posição por causa dos fatos, a interpretação dos fatos se adequa, de um modo ou de outro, às suas posições. “Utopia” comumente não tem qualquer significado para um niilista, porque uma utopia implica em transcendência, ou seja, implica em orientar a realidade atual tendo em vista uma outra realidade. Não é incorreto tomar também o melancólico por utópico. A lembrança do objeto perdido ou de um estado de plenitude orienta a relação do melancólico com a realidade. Mas, sem dúvida, o mais comum é o olhar do utópico estar voltado ao futuro. A utopia é um mundo por vir. Em última instância, é a redenção do mundo atual.

Batman, Hamlet ou Bloom?

Muitos engodos surgem dessa noção. A promessa de um futuro pleno tem sido uma das estratégias para dissuadir as pessoas a conquistarem agora aquilo que elas podem. Trata-se de convence-las de que não estão preparadas para aquilo que desejam e, assim, a se resignarem ao estado atual de coisas como o melhor modo de alcançar o que desejam. O mundo atual não é amado e o mundo desejado se perde em um futuro longínquo, simultaneamente. A conservação do estado atual de coisas se faz através de um jogo de aproximação e distância com aquilo que é desejado, o importante porém é que a posse seja sempre impossível. É realmente problemático quando as pessoas se sentem plenas nos seus engajamentos. A cada vez que surgir um sentimento de posse e de plenitude, deve-se pensar-se como culpado, como um “eu não tenho direito”.

Independente se esssa cisão no coração do desejo é constitutiva ou não, o mais importante é observarmos o modo como o estado atual de coisas hoje organiza e administra essa cisão. Por um lado, há uma descrença universal em todo tipo de valor transcendente. Somos todos cínicos com toda crença, lei ou engajamento/voluntarismo. Nenhum deus tem a onipotência de antes. De fato, nós somos todos niilistas. Esperamos ser pessoas versáteis que sabem se adaptar a qualquer situação, que sabem transitar de uma crença para outra. Mas, por outro lado, isso não significou uma relação plena com o mundo. Ao invés do amor fatti, há uma insatisfação generalizada. Não é por outro motivo que acreditamos em qualquer coisa que nos oferecem para suturar o buraco dentro de nós. Não há outro significado para o new age, os livros de auto-ajuda, etc. Algo como o personagem principal do filme Clube da Luta que se esforça para tapar o seu vazio com artigos de decoração e reuniões de grupos de auto-ajuda. Por isso (é uma hipótese) deva-se repensar se ao contrário dessa flexibilização total de nós mesmos ser uma liberação em todos os níveis da vida (desejo, trabalho, tempo livre, linguagem, etc), será que ela não foi um modo de moldar as nossas economias subjetivas para satisfazer uma necessidade de um fluxo mais acelerado de mercadorias? Porque é realmente preciso destruir todas as territorializações rígidas (Estados, religiões, culturas tradicionais,  etc.) para existir um capitalismo universal. Foi necessário também livrar-nos das nossas utopias, das nossas crenças em um “para-além” e instituir uma precariedade essencial em todos os sonhos. A contrapartida do esclarecimento ou da desilusão frente às utopias é um certo “realismo capitalista” onde toda tentativa de solucionar um problema não vai além das soluções que reproduzem o atual estado de coisas. Como se nossa condição fosse tão ideológica ao ponto de equacionar o pensar racional com o pensar a favor do status quo. O problema consiste então em recusar a banalidade ou o gratuito e, ao mesmo tempo, não fazer retornar uma territorialidade que só artificialmente poderia ser a nossa. É a atual condição de crença e engajamento/voluntarismo (ainda que com todo o peso e ranço que essas palavras carreguem).

Détournement/Plágio

In blog on janeiro 7, 2010 at 23:00

O plágio é necessário. É o progresso que o implica. Ele analisa de perto a frase de um autor, serve-se das suas expressões, apaga uma ideia errada, substitui-a pela correcta.

Lautremont

Quanto aos efeitos que a honra deverá ter contra o plágio, de tal modo se deixou de ouvir a palavra plágio ou roubo intelectual que temos de concluir  ou que a honra já eliminou o plágio, ou que o plágio deixou de ser atentatório da honra e desapareceu o correspondente sentimento, ou, então, que a menor alteração numa forma exterior se tem já como uma tão alta originalidade, um tão autônomo pensamento, que a ninguém ocorre a idéia de plágio

Hegel

Pode-se usar qualquer elemento, não importa donde eles são tirados, para fazer novas combinações. As descobertas de poesia  moderna relativas à estrutura analógica das imagens demonstram que quando são reunidos dois objetos, não importa quão distantes possam estar de seus contextos originais, sempre é formada uma relação.  Restringir-se a um arranjo pessoal de palavras é mera convenção. A interferência mútua de dois  mundos de sensações, ou a reunião de duas expressões independentes, substitui os elementos originais e produz uma organização sintética de maior eficácia. Pode-se usar qualquer coisa.

Guy Debord e Gil J. Wolman

Utilizar um pouco de um ou outro autor é prova de modéstia”

Bertolt Brechet espertamente ao ser acusado de plágio


psicogeografia #2

In mapa afetivo da cidade on janeiro 4, 2010 at 13:47

Andar de madrugada pela cidade tem se tornado uma constante. Quase sempre antes de sair de casa me lembro do meu pai contando que quando era jovem andava durante horas por uma cidade já em constante expansão, ele só voltava quando as pernas não aguentavam mais procurar outro bairro para ir. Pensar nisso ou em uma frase recorrente (“A caminhada impede que fiquemos retornando sempre às interrogações sem resposta, enquanto que na cama remoemos o insolúvel até a vertigem”) me impulsionam para que eu abra a porta e saia. As vezes só é preciso coragem e tédio para mudar sua noite.

Moro na região central de Belo Horizonte, um espaço que durante grande parte do tempo permanece abarrotada de pessoas. A cidade e mais propriamente o Centro é usada apenas como um local de passagem, um trajeto de um lugar particular privado para outro local particular e privado, penso que talvez seja principalmente por causa disso que a região onde moro é deixada de ser vivenciada, não tendo interesse nenhum das pessoas em ver o Centro ( isso se estende por toda cidade) como um local de experimentações e possibilidades.

É verdade que de madrugada poucos se aventuram nas ruas, a não ser os mendigos te parando de esquina em esquina pedindo um cigarro, eventuais trabalhadores voltando para seus bairros de origem a pé, prostitutas desconfiadas que te olham sempre de soslaio, pichadores deixando rastros pelos muros ou pessoas em busca de uma dose violenta de qualquer coisa. Tudo isso demonstra que cruzar o Centro a essa hora é um exercício que poucos estão dispostos.

Tenho feito a vários dias um caminho longo e insistente. Caminho em direção aos bairros ricos, lentamente observo como se dá a passagem de um bairro para outro, percebendo como as edificações, os carros estacionados e os cheiros mudam. As vezes, basta atravessar uma rua para que as construções se verticalizem, pequenos prédios e casas velhas se transformem em construções de mármore branco e vidro fume, a nova obsessão da classe média enriquecida.

Me pergunto por qual razão esse caminho tem me atraído, tento pensar para além dos motivos mais óbvios como esses serem, na maior parte das vezes, os bairros mais arborizados, bem cuidados e “bonitos”. Quase chego a conclusão de que ando por esses bairros para ver os prédios que não poderei morar e a vida que eu nunca vou ter.

De forma nenhum isso é desesperador, simplesmente, ao passar da linha tênue que separa o Centro dos bairros de classe média alta, consigo perceber que sempre nos fizeram acreditar que seriamos ricos, astros do rock, atores famosos… óbvio que isso é um mentira, é bastante claro que não poderei ter nem metade das coisas que vejo ( talvez no fundo nem queira). Parece ser inevitável ao confrontar todas essas possibilidades não se sentir só, mais um dentre tantos que moram em um bairro sujo qualquer, em cidades sujas e afastadas das principais cidades, em países distante dos principais países. É difícil não ser cínico e niilista, se é exatamente assim que rotulam toda “minha” geração, como não tendo aspirações, paixão, nada para reivindicar exceto consumir, ver TV, ir a boates nas noites de sábado e segunda estar pronto para voltar ao trabalho.

Somos os filhos e herdeiros de todas as promessas de ascensão social, isso fica tão nítido nessas noites em que ando por essa parte da cidade e sou obrigado a me confrontar com uma realidade que não posso altera-la de imediato. Engraçado como sempre chega uma hora da madruga em que as pernas vacilam e você se esquece por qual razão procura tanto… aí você volta para casa, deita e dorme…

Esperando Debord

In performance on janeiro 1, 2010 at 23:33
Performance apresentada no 9° Festival de Cenas Curtas do Galpão Cine Horto, 2008.
Para alguns “Esperando Debord” foram os 15 minutos mais entediantes e onde nada aconteceu, para nós do [conjunto vazio] a constatação que Piero Manzoni estava correto, mesmo um cocô enlatado é consumido com gosto se isso for chamado de arte!

SINOPSE:
“Esperando Debord” é uma performance conceitual que busca um confronto direto com o espectador. Inspirada no filme “Uivos para Sade”, de Guy Ernest Debord, a performance trata da fragmentação entre espetáculo e vida e faz uma crítica (conscientemente contraditória) à arte, temas com os quais Debord já lidava em seus outros filmes e textos.
Não há nenhum discurso a ser feito, a arte está morta e cheira mal.

 

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Crítica da jornalista Soraya Belusi (O TEMPO):
Também há espaço para o questionamento e a reflexão no Cenas Curtas. Claro que a platéia não parece ter gostado muito de encarar, olho no olho, o ator, sem fala e sem ação aparente em cena. Que fique claro: não foi inocência do ator ou falta de saber o que fazer, mas, sim, um enfrentamento consciente entre o conceito que ele tinha a defender e o que a platéia esperava ver. Ao construir um jogo intitulado “Esperando Debord”, Paulo reúne a idéia do que representa “Esperando Godot” com as teorias de Guy Ernest Debord, sobre a espetacularização até da própria arte. É o próprio Debord, em fotografia, que está ao lado de Paulo na cena. O que as pessoas estavam ali esperando: que ele falasse alguma coisa? Que realizasse alguma ação? Que preenchesse o espaço com algo? Pois era tudo que o ator não iria fazer, questionando até mesmo o que caracteriza a arte teatral. É curioso pensar a tamanha facilidade com a qual as pessoas, digo platéia, interferem na cena: falaram, xingaram, pediram para comprar cerveja, fizeram até chacota. Talvez seja exatamente isso o que o ator queria, mas, ao mesmo tempo, “Esperando Debord” não era uma cena como qualquer outra apresentada no evento? Estas são apenas perguntas… A opção do Conjunto Vazio, que idealizou acena, não foi apenas falar sobre o nada, mas, sim, colocar a ausência em cena.

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PANFLETO/QUESTIONÁRIO DISTRIBUIDO AO PÚBLICO

 

 

PARA ENTENDER “ESPERANDO DEBORD”

(OU QUANDO O TRABALHO É PRETENSIOSO E INTELECTUALÓIDE)

O que é a Arte?

(marque a melhor opção)

[   ]  “Silêncio”.

[    ]  A Arte está morta.

[    ]  A Arte deveria estar morta.

[    ]  Ótimo subterfúgio e fonte de renda para críticos pedantes.

[    ]  Pagar mais de R$ 10 para ver essa porcaria.

[    ]  Conversa de desocupado.

[    ]  Por que não vamos embora? (esperamos Debord.)

[    ]  Falar de arte é como transar com uma cadeira de plástico.

[    ]  Juízo de valor, só isso.

[    ]  Um bando de moleques brincando com a minha cara.

[    ]  Ela fede e isso basta para compreendê-la.

[    ]  Só aparece na decadência da vida cotidiana.

[    ]  A vedete da sociedade espetacular.

[    ]  Esse panfleto é uma GRANDE obra de arte!

[    ]  Todas as anteriores.

[    ]  Nenhuma das anteriores.

[    ]  Volte a pergunta: eis a resposta.

Vladimir: Então, devemos partir?

Estragon: Sim, vamos.

Eles não se movem.”

Isso não é  Beckett