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quem tem medo de “teoria”?

In blog on dezembro 31, 2009 at 17:50

Há um certo anti-intelectualismo que não conhece as suas próprias origens e que trafega entre vários grupos como uma espécie de “senso comum normativo”, ou seja, não fundamentado ou elaborado, mas perfeitamente funcional na sua tarefa de expulsar o pensamento. O que não se percebe é que a teoria pode ter também uma eficácia de outro tipo que aquela de marcar com um nome práticas que de forma alguma reclamam isso (Mano Brown diz que: “Somos reféns das palavras, mas não posso ser refém de nada, nem do rap. Vamos quebrar. Aquele Mano Brown virou sistema viciado, uma estátua óbvia demais. Pergunta tal coisa que ele vai responder tal coisa. Eu estava mapeado e rastreado”). Uma intervenção teórica pode ser útil para desarticular uma apropriação ideológica de práticas sociais. Então quando um levante de favelados ocorre em uma metróple por causa da violência policial é preciso uma contrapartida para a legitimação da repressão. É preciso uma resposta contra aqueles que tomam o movimento como selvageria, barbárie ou uma mera vingança. Uma intervenção teórica pode fazer compreender que se trata de um movimento político antes de tudo. Fora de cogitação dar um lugar normativo ou legitimador para uma teoria estética ou política. Ao contrário, há um valor estratégico nas teorias.

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  1. Vou junto.
    Tem gente com medo de teoria. Tenho dito… Já reparou que podemos até ficar ruborizados por cair num erro qualquer… Mas quando se trata do mundo em que acreditamos, viramos uma fera!

    As teorias seriam meios do pensamento? Que não é uma faculdade natural… Mas, como diz Deleuze, uma violência, algo da ordem do fora!

    Abraços

    • Você tem razão! Eu concordo com Deleuze quando ele defende que o pensamento se inicia não por uma boa vontade ou por um direcionamento natural do pensador para a verdade, mas por uma violência, por um constrangimento que não podemos escapar. Em geral, o que violenta o pensador é um “signo sensível”, como é o caso do pensamento sobre a arte (e, por que não, da política?).

      Mas das milhares de vezes que Deleuze fala sobre o pensamento, o seu diálogo com Foucault (“Os intelectuais e o poder”, download: http://www.dossie_deleuze.blogger.com.br/) é realmente fantástico. Eles defendem de um modo muito lúcido um papel emancipatório da teoria que não a coloca em uma relação hierárquica com a prática.

      Deleuze sobre a obra de Foucault e o GIP (Grupo de Informação sobre as Prisões): “Seria totalmente falso dizer, como parece dizer o maoísta, que você teria passado à prática aplicando suas teorias. Não havia aplicação, nem projeto de reforma, nem pesquisa no sentido tradicional. Havia uma coisa totalmente diferente: um sistema de revezamentos em um conjunto, em uma multiplicidade de peças e de pedaços ao mesmo tempo teóricos e práticos. Para nós, o intelectual teórico deixou de ser um sujeito, uma consciência representante ou representativa. Aqueles que agem e lutam deixaram de ser representados, seja por um partido ou um sindicato que se arrogaria o direito de ser a consciência deles. Quem fala e quem age? É sempre uma multiplicidade, mesmo na pessoa que fala ou que age. Nós somos todos grupúsculos. Não há mais representação, há tão-somente ação, ação de teoria, ação de prática em relações de revezamento ou em rede” (DELEUZE, G. “Os intelectuais e o poder”. A Ilha Deserta e Outros Textos. p.266).

  2. Postei em meu blog o fragmento abaixo, que acho, dialoga com este post extremamente urgente de vocês:

    “Os urgentes desafios do comum… de que modos criarmos o comum, espaço fértil às conexões entre heterogêneos, lugar de militâncias ditas menores, do micropolítico que sorrateiramente empurra o macropolítico. O que está em jogo nos dias de hoje é o “como viver junto”, inspirado nesta colocação de Barthes, mas levando-a a outros cantos. E assim nos embrenharmos em meio aos acontecimentos lá onde eles de fato acontecem, não acontecem, estão para acontecer… eis o campo propício a intervenções!”

    Há teorias demais no mundo, teorias sobre o mundo, que sobrecodificam o mundo. Uma multiplicidade de jargões, falseamentos, dando forma a guetos… todo um corporativismos contra a Vida. Teorias que impedem o pensar, exercício raro nos dias de hoje e refoçam a repetição contraproducente e enfadonha de uma espécie de simulaco de um platonismo excessivo.

    Falta-nos o “trabalhar com”, estamos sendo soterrados e nos soterrando com um “trabalhar sobre”, “um trabalhar para” e a intervenções muitas vezes nos ajudam a animar acontecimentos que podem ter um efeito coletivo.

    Continuem com suas travessuras!

    Abraços.

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