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verbete #3: [arte crítica]

In vocabulário de palavras em desuso on dezembro 31, 2009 at 17:32

Para além da solução de fazer da Arte uma metáfora de ideologias procurando na narrativa da obra uma adesão ou uma recusa de determinados sistemas políticos, trata-se de estimular o pensamento sobre como os empreendimentos estéticos contemporâneos não se furtam a habitar o espaço onde o próprio ato criativo já se engaja politicamente sem que para isso seja necessária a referência a um conjunto de valores que o justifique. Isso porque o próprio procedimento incluí uma relação crítica com o exercício do poder.  Tais práticas parecem ser em certa medida a retomada dos anseios do período em que a Arte ainda se engajava em uma tarefa utópica, assim essas ações são herdeiras do projeto das vanguardas do século XX quando, muitas vezes, criam novas formas de vida na contramão da vida comum. Criam uma nova economia das percepções e um novo universo de comunicação com o outro.

Não há qualquer coincidência no fato de ser o estético uma das principais alternativas críticas para muitos grupos. Em primeiro lugar, porque, na maior parte das vezes mais do que as instâncias representativas tais como partidos políticos, ela permite o confronto com uma forma de poder que se exerce em um nível micrológico: na percepção, na criação de significados, no uso de coisas, na habitação do espaço, etc. Com um deslocamento para o estético, a crítica consegue acompanhar as mutações do poder que se exerce, com um refinamento nunca visto (haja vista as novas tecnologias que já compõe o cenário do terceiro mundo) no nível dos corpos. Nesse sentido, o estético acessa um confronto político que permanece aquém dos parlamentos. Em segundo lugar, o ambiente criativo parece ser mais apropriados para que se projete determinadas expectativas organizacionais como, por exemplo, a horizontalidade auto-gestionária, a grande abertura para modificações estruturais significativas ou mesmo o anonimato.

O maior exemplo da interseção entre o estético e a política tem sido as “intervenções urbanas” que se lançam em uma heterogeneidade tal que cabe uma análise atenta de suas várias formas. Mas de pixações a intervenções cênicas, passando por manifestações anti-globalização, todas elas propõem (por vezes silenciosamente) um tipo de apropriação do espaço urbano que causa um forte ruído na organização da cidade como mero espaço de circulação de mercadorias.

Se por um lado os artistas urbanos não deixam de buscar alguma inspiração na história da Arte, por outro, o “caso Piveta” (pichadora presa por invadir e segundo as autoridades “depredar” a 28ª Bienal de  arte de São Paulo em 2008) provou que também há tensões entre as intervenções urbanas e a Arte. Se é realmente correto aceitar que a intervenção urbana é Arte, isso não ocorre sem o questionamento radical deste domínio, inclusive institucionalmente. Mas também precisamos lembrar que flash mobs organizados por empresas de telefonia e diversas outras empresas, além da a emulação dos modos de organização dos coletivos autônomos pelos teóricos de recursos humanos colocam uma séria questão: qual a real efetividade crítica de de tais estratégias?

Chantal Mouffe em Artistic Ativism and Agonistic Space se pergunta corretamente se “práticas artíticas podem ainda exercer um papel crítico em uma sociedade onde a diferença entre arte e propaganda tem se tornado turva e onde artistas e trabalhadores culturais tem se tornado parte necessária da produção capitalista”. O problema não é apenas o fato de artistas e publicitários se dissolverem em um mesmo papel social, mas bem mais se a produção artística, mesmo a mais radical, não é cúmplice em seus procedimentos daquilo que ela pretende recusar. Por exemplo, não é certo que os efeitos de impacto e choque de uma intervenção urbana sejam essencialmente diferentes de uma publicidade (atualmente já se fala em “marketing de guerrilha”). O que nos leva também a ver com suspeita editais para eventos artísticos, ainda que públicos, e mesmo a academia é que há uma emulação sutil ou pornográfica dos discursos radicais dentro desses meios que busca, de uma forma ou de outra, torna-los domesticáveis, tornar as idéias não somente menos perigosas, mas mais precisamente sem efetividade alguma.

Em nenhum momento o mais importante é que tenhamos respostas para os problemas, mas que determinemos de modo objetivo os NOSSOS problemas. Para toda tarefa crítica, o problema é: como tornar-se efetiva? Como tornar possível algo além do atual estado de coisas?

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  1. olá!Achei bem legal este post, ja escrevi um texto sobre isso, maneiro encontrar pensamentos próximos!
    http://revistatatui.com/revista/tatui-8/artepublicidade-artenacidade/

    =)

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