[conjunto vazio]

psicogeografia #1

In mapa afetivo da cidade on dezembro 17, 2009 at 01:42

Moro em um bairro industrial na periferia de Contagem. No meu bairro você encontra fábricas abandonadas, linhas de trem que atravessam sobre corrégos à céu aberto ao lado de barracos onde milagrosamente moram pessoas. Há muitos galpões, chaminés com tochas de fogo vermelho e azul. Agora tudo fica um pouco mais decadente porque estão destruindo casas e prédios para construir uma grande avenida que ligará dois pontos da cidade. Andando ou jogados nas ruas, há senhores bebados, senhoras perdidas, cachorros vira-latas. Há também pessoas da minha idade que encobrem a sua miséria com uma euforia plástica oferecida por uma série de mercadorias de segunda mão como celulares, roupas coloridas,  carros, som, computadores, etc.  A maioria dessas pessoas são, como eu, filhos de filhos de trabalhadores rurais que vieram para a capital na época do governo JK.  A casa onde meu avô (ex-congadeiro) atualmente mora foi praticamente doada em troca da sua mão-de-obra, não menos doada. O resto de toda positividade cultural dessa região está lançada nas milhares de igrejas evangélicas que habitam cada esquina e os forrós que tocam músicas de três notas gravadas em teclado Casio. Os velhos se dividem entre esses dois ambientes, mas para ambos eles usam a mesma quantidade de perfume. Nos dias de semana, há operários dormindo depois do almoço no passeio e crianças voltando da escola, mais ou menos eufóricas com papagaios que caem a todo momento quando é julho. As pessoas mais novas, como eu, passam a maior parte do dia fora do bairro, porque é daqui que sai toda a mão-de-obra que alimenta os bairros ricos. Atendentes do comércio, empregadas domésticas, funcionários públicos, motoristas de ônibus, etc. todos saem cedo em coletivos abarrotados de gente e só voltam no final da tarde na mesma situação. Eu atravesso isso tudo com o rosto enfiado em um livro escrito do outro lado do mundo na esperança de encontrar algo que me diga como tornar isso tudo um pouco menos cinza. Tem dias que funciona e vejo algumas coisas interessantes e até mesmo bonitas.

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