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Vitória, cinco de Março de 2001

In de: (...) para: (...) on dezembro 6, 2009 at 14:27

é mal colocada a questão do prazer. simplesmente não importa se há ou se não há. afinal, que diferença faz? você pode fazer um bocado de coisas na vida para as quais a realização será indiferente ao fato de você gostar ou não gostar disso. de todo modo, eles vêm e vêm querendo algo. vêm no seu furor irrestível. vêm com uma febre alarmante ou com a serenidade de uma brincadeira. grande parte vêm como uma máquina. trata-se quase de uma espécie de hora-extra. como diz um tio meu com uma precisão que muitos psicanalistas não atingem: trata-se de “trocar o óleo”. é uma questão econômica. poderiam substituir tudo isso por uma máquina de socar. por uma máquina de correr. as pessoas amarram seu corpo nela e pronto: todo seu excesso está sugado e não provocará mais ruído. guardadas as diferenças no que diz respeito às avaliações morais, é quase como uma academia de ginástica. em geral, a despeito de toda loucura a que se permitem no momento determinado, todos são muito bem comportados conosco. tratam-nos com a educação que tratam a atendente de uma padaria. pois não é muito diferente disso. somos trabalhadoras e eles são consumidores. sempre foi assim. mas antes eu imagino que era menos assim. era mais fácil para as coisas debandarem. não é bom se isso acontece. é bom que cada um mantenha o seu lugar. não é bom misturar as coisas. fazemos a nossa função e eles vêm a nós para conseguir cumprir a deles. eu já vi a culpa correr pelo rosto de muitos. a culpa pela incompatibilidade que nunca conseguem ressolver entre aquilo que eles fazem conosco e toda a vida lá onde eles conseguiram conquista-la. ainda pior aqueles que já nada sentem. nem mesmo culpa. não é mais uma mente que avalia. não há mente. não têm mais outra vida para ressentir e, na verdade, tudo aquilo lhes cai muito bem. a culpa dá um colorido ao vício que sem ela seria de uma satisfação como aquela de esvaziar o estômago ou a bexiga na privada. a culpa: quanto mais avançamos para um lado, quanto mais intenso fica o outro. como se vissemos melhor com os olhos das costas assim que nos falha o da fronte. algo quis que seja o sexo o bode expiatório de nós mesmo, algo quis que ele ocupasse esse lugar mais afastado das cidades, não porque está longe (está sempre ao alcance da mão), mas porque está sempre nas fronteiras (na beira dos portos, das rodoviárias e das estradas), como que sobrevivendo sob eterna possibilidade de expulsão definitiva. não é o bordel que colocamos no visível das nossas cidades, porque não é o sexo que queremos que seja visto em nossos corpos, não é ele que queremos que seja ouvido na nossa linguagem. o bordel está na borda. bons homens que sabem administrar esse negativo. sabem passar pelo inevitável do desejo sem ser tragado por ele. sabem se sujar, mas sabem se limpar. sabem parecer inocentes. independente do motivo que levou a ser o sexo o nosso principal negativo, sendo ele, descobrimos que ele é administrável, que não é uma matéria indócil. mais importante do que a possibilidade de ser eternamente tragado pela paixão é a presença do imaginário sobre a paixão como algo que nos leva até ao desumano.

estou em vitória. mandaram-me para cá. ouvi dizer que as coisas são melhores que em são paulo. não tenho certeza. o cheiro da rua onde fica o hotel é tão ruim quanto ao outro. algo como urina e cheiro de suor de gente mais o álcool derramado nos bares. é bom mudar de lugar com tanta frequência assim. não temos tempo suficiente para se adaptar, então o sofrimento que acumulamos no lugar onde estavamos permanece precariamente dentro de nós porque não reconhecemos mais tão facilmente os signos que remetiam a ele. custamos a identificar os rostos que nos trazem desprazer, onde lemos o signo da frustração. esse é todo o segredo da viagem. os signos de perigo, no entanto, são destacados e podemos senti-lo em cada traço.  mas não quero ficar aqui por muito tempo. depois que a beatriz nascer, acho que é hora de parar. de fazer outra coisa. ainda não sei o quê, mas prometo que vou tentar.

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