[conjunto vazio]

Sils-Maria, quatorze de Agosto de 1881

In de: (...) para: (...) on dezembro 6, 2009 at 14:15

“(…) não somos fixados a um estado ou a um momento, mas somos sempre fixados por uma idéia como pelo clarão de um olhar, sempre fixados num movimento no qual, não obstante, estamos necessariamente implicados. afinal, de que adiantaria uma idéia se não fosse fixa e cruel tal como aquela descrita por Villiers de l’Isle-Adam?”

“estrelas, pão, bibliotecas orientais e ocidentais, naipes, tabuleiros de xadrez, galerias clarabóias e caves, um corpo humano para andar pela terra, unhas que crescem na noite, na morte, sombra que esquece, atarefados espelhos que multiplicam, declives da música, a mais dócil das formas do tempo, fronteiras do Brasil e do Uruguai, cavalos e manhãs, um peso de bronze e um exemplar da Saga de Grettir, álgebra e fogo, a carga de Junín no teu sangue, dias mais populosos que Balzac, o odor da madressilva, amor e véspera de amor, recordações intoleráveis, o sono como um tesouro enterrado, o liberal acaso e a memória, que o homem não olha sem vertigem”.

um pensamento me corrói a alma. provoca uma espécie de vertigem tal qual aquela que, segundo Borges, Averróis sentiu por um instante. na descrição borgeana, junto com as escravas de cabelos negros (e também aquela única de cabelos ruivos), Averróis desvanece como a fumaça de um cigarro sob o efeito da brisa, e também a lembrança desse comentador de Aristóteles na memória de Borges. e é esse desvanecer, que ocorre como a sombra de um pensamento ao qual me é impossível detalhar com precisão, que me causa medo e espanto. medo, porque a parte de mim que me resta olha para a outra desaparecendo e treme ao refletir sobre o seu futuro. espanto, porque jamais algo estável pode se conceber desvanecido e indistinto de si mesmo, por mais que o veja no outro (parecido com ele) o desvanecimento. por isso, aparece-lhe como algo de sublime aquilo que lhe é colocado agora diante dos olhos. trata-se de um elemento estranho. privado de qualquer tipo de objetivação, mas determinante e presente. e sua presença garante a singularidade daquilo a que ele se aproxima, naquilo em que ele se insiste. jamais poderia chamar-lhe um vazio, mas, precisamente: o que dá positividade àquilo que chamaríamos “preenchido”. * com essas especulações metafísicas, passei longo tempo atormentado sem ao menos poder comunica-las a algum conselheiro que alcançasse uma profundidade semelhante ou, de preferência, alcançasse uma profundidade superior, o que, por sua vez, o capacitaria a arrancar esse mal de dentro do meu peito[1]. ele seria capaz de me explicar o que, nos dias de hoje, parece-me impossível. livrar-me-ia de um pensamento que suponho estar tão arraigado quanto o fato de possuir um corpo e de não poder me livrar dele sem livrar de mim mesmo. parece ser a condição ou o pressuposto essencial que quando desvelado torna-se insuportável e elimina aquilo para o que ele dava base ou, simplesmente, se oculta. o fato da minha linguagem estar tão afetada por uma certa vulgata filosófica aumenta ainda mais a minha angústia para expressar-me e por vezes me obriga a usar palavras chulas com o intuito de escapar desse – se me é permitido essa expressão inovadora – “cacoete ontológico” (no sentido ambíguo que lhe cabe). precisamente, a questão jamais é a de encontrar um meio-termo entre dois idiomas (ambos impotentes), mas antes de não ter havido em tempo algum os opostos. * lidamos com nossas obsessões, com pensamentos que jamais nos abandonam, acreditando que não o expressamos simplesmente porque não queremos expressa-los. a cada vez que surgem, a própria mente apazigua o desespero que traz a dura necessidade dizendo para si própria: “é assim, mas facilmente poderia não ser”. mas o impossível é dar a prova dessa crença. impossível é dizer tudo aquilo que insiste em nossas mentes. não somos capazes disso e esse é o fato econômico que funda nossa trágica e onipresente ambigüidade. pensamento maldito, porque insiste em se debruçar, nos momentos mais inoportunos, sobre alguma sugestão abismal do instante. factualmente falando, trata-se para esse pensamento de impor ao indivíduo o qual ele implica uma relação frente aos outros uma posição de sincera inexistência. vontade de desaparecer, ainda que isso signifique privação (material, sobretudo), porque a fé de que há um algo a mais nesse desaparecimento, algo mais vital, algo realmente pulsante que virá a preencher o vazio deixado pelas preocupações fúteis e transitórias da sociedade, dos outros, dos amigos, do trabalho, do samsara… o viajante, por causa de seu pensamento, não se entrega à estrada porque queira ficar só, mas porque é apenas com a condição de encontrar um lugar realmente vazio que ele fará surgir os seus verdadeiros companheiros… é na extrema solidão decidida que o um se torna dois… eis porque, quando este pensamento ou quando algo pulsa realmente, quando uma seta brilha no deserto e nós não lhe recusamos a sugestão, por mais que isso seja aquilo a que mais depende a vida, por mais que seja de fato o seu verdadeiro sentido, isso significará para cada um de nós uma eterna maldição. a cada vez que o desejo encontrar o exterior, ele será traído. por isso, o cinismo é a manifestação mais honesta consigo próprio (ainda que devamos ser intoleráveis com um cínico, mas sempre tolerar a nós mesmo). um casal de amantes deve permanecer cínico com as sugestões exteriores para não dissolver o amor que corre apenas entre os dois. nesse sentido, é plausível a tese de que a distância conserva a mais estreita cumplicidade. * creio que você compreenda o que eu digo. creio que por mais que possamos através de algum malabarismo teórico provar que não é o mesmo significado que desfrutamos, a sua vontade em não me considerar menor por ser excêntrico (mas, ao contrário, ver uma virtude na coragem necessária para assumir essa posição) já me basta… faulkner, em palmeiras selvagens (um livro sobre o amor), sabia de tudo isso e sabia também da maldição a que se está implicado quando, sinceramente, desejamos [2]. * o pensamento se insinua pela borda desfazendo-a incisivamente procurando alcançar o centro. é o caos que se oferece ao pensamento. e se o mundo é o caos que o pensamento quer ordenar fabulando uma racionalidade para apreende-lo, não é apenas melhor, mas também não é mesmo necessário, que o próprio pensamento se torne ele mesmo o caos? e não seria o se emaranhar nessa alegria e multiplicidade originária a sua maior liberdade, a saber, a morte? sim! percebo agora: não é o pensamento que me atormenta, mas aquilo que é essencialmente o fora do pensamento.

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[1] “… a outra causa que me faz infeliz é o pensamento… em mim o pensamento provocou por longuíssimo tempo e ainda provoca martírios tais, pela simples razão de que me teve sempre e ainda me tem à sua mercê… que me prejudicou de maneira evidente, e acabará por matar-me, se eu antes não mudar de condição”.

[2] “ – (…) Existe algo em mim que você e ela geraram, de que você é o pai. Me dê a sua benção. – Fique com a minha maldição – respondeu McCord”.

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