[conjunto vazio]

São Paulo, onze de Agosto de 2008

In de: (...) para: (...) on dezembro 6, 2009 at 14:19

querida,

li esse conto em um jornal achado no metrô às onze horas e trinta minutos de ontem e lembrei de você e sua impaciência. o trecho que revelaria o autor se encontrava omitido por uma espécie de mancha de sorvete (ou de bosta). acredito que o texto, mais minha lembrança, lhe bastarão.

“j. r. rodrigues de alencar, fotógrafo de uma pequena e não muito bem-sucedida empresa de publicidade, já não sabe mais ao certo a que tipo exato de imagens ele se direciona. desde que resolveu fotografar apenas instantes os mais raros, ele permanece constantemente com um singular estado de espírito, esperando uma manifestação, aguardando o sinal que a precede. das duas uma: ou ele desenvolve uma serenidade constante, indiferença emocional e fria atenção; ou ele passa todos os instantes acreditando ser o derradeiro. esta última seria insuportável. ele não sobreviveria um dia sequer. tudo seria o motivo para uma imensa descarga de energia, todo momento poderia preceder uma criação fantástica. um virar de rosto acompanhado dos cabelos, um sorriso por nada (do nada), uma lágrima que escorre sem motivo, um tropeção que precede a risada sem graça e as risadas de deboche, um possível atraso no vôo de uma ave entre os carros, a mão que balança nervosa contra os gatos em cima da mesa e que não espera jamais uma reação coletivamente enfurecida e tão organizada, o casal de namorados que já não sabe mais do que falam e parece que isso é realmente proposital: eles se perdem para se encontrar onde eles queriam desde o princípio e esse é o momento que j. r. ansiosamente aguarda. j. r. rodrigues de alencar sabe que é realmente uma limitação sua o fato de não poder abençoar todos os momentos, de não poder sacralizar a todos conservando-os. ele sabe que o que resta para ele é deixa-los fluir e abandonar-se à embriaguez contemplativa que era viver. não que isso fosse peculiar apenas a ela, mas ele sabe que sua profissão tem os seus meios particulares de se curvar frente ao mundo e ao tempo. e parece-lhe tão ausente de sentido chamar isso de ‘profissão’, porque ele pode passar dias, semanas, anos ou mesmo toda a sua vida sem conseguir fazer aquilo que ele almeja com a sua máquina. então, ele sabe e aceita que o agir envolvido na sua ‘profissão’ não era fazer isto ou aquilo, mas era esperar, pacientemente, esperar, que isto ou aquilo fosse feito. não por ele. que heresia dizer que era ele! que falta de sensibilidade dizer ‘meu’, ‘seu’, ou, pior ainda, ‘eu’! ele sabia não se tratar nunca de j. r. rodrigues de alencar, mas sempre de uma brisa, de um clima, de uma luz, de um instante…”.

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