[conjunto vazio]

Eu me vendo por muito menos do que você paga

In performance on dezembro 6, 2009 at 15:00

Uma das performances ganhadoras 10ª edição do Festival de Cenas Curtas do Galpão Cine Horto, 2009.  Apresentada como um grande golpe de marketing com o único intuito de lesar o público, o evento e conseguir dinheiro.

“Eu me vendo por muito menos do que você paga” foi criada como uma continuação “lógica” da cena apresentada no mesmo festival em 2008, “Esperando Debord“, mas ao inves da tentativa de não espetacularização todos os clichês de uma cena pós-moderna/pós-dramática foram apresentadas.  A única coisa importante da performance era o seu momento final, onde  propomos comprar os votos do publico, afinal é assim que funciona o mercado artistico.

Incrivelmente, ganhamos com 48% dos votos, após o primeiro dia da temporada das cenas “vencedoras/mais votadas” para nossa felicidade fomos convidados pela organização a nos retirar do festival (acho que eles não engoliram o conceito de “work in progress” e nossa leve alteração na performance original), o que um bando de adolescentes pode querer mais do que isso?

A partir disso, nos dias restantes começamos a apresentar a performance na rua em frente ao Galpão Cine Horto (principalmente para tentar conquistar publicidade gratuita com o pequeno tumulto e a alcunha de enfant terribles para colocar nos próximos projetos e releases).

a recepção da cena pode ser vista aqui:www.blogcenascurtas.blogspot.com

SINOPSE:

“Esperando Debord” falhou e é preciso enterra-lo. Não queremos mais fingir que isso tudo não é um espetáculo, tudo aqui é potencialmente falso e você pode simplesmente responder “Isso é óbvio, estamos no teatro!” ou se perguntar “será que não estou cansado de tanta mentira e cinismo?”. É só fazer sua escolha! Mas sabemos que toda nossa retórica vazia já indica o obvio: não é preciso nenhum discurso, não há nada que não será visto e assimilado como espetácular e principalmente, você perceberá que nós nos vendemos por muito menos do que você paga! E você, por quanto quer nos comprar?

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PANFLETO DISTRIBUIDO AO PÚBLICO NA PRIMEIRA APRESENTAÇÃO

ARTE E MERCADORIA,UMA RELAÇÃO TAUTÓLOGICA

“(…) qualquer entusiasmo é religião.” (Max Stirner)

Por que pagar 20 reais para assistir a isso? Sinceramente, não entendemos  por que razão especial um “artista” deveria desfrutar de algum tipo de  privilégio como, por exemplo, ser bancado pelo Estado. Não se trata de negar o valor de artefatos ou acontecimentos estéticos, mas simplesmente de se pensar em todo o conteúdo de um discurso que legitima algumas coisas como artísticas (logo passíveis de serem consumidas e receberem investimentos) e outras não. Quem pronuncia, de onde vêm, de onde fala? Há gastos com cultura,  independente se muito ou pouco, o que já possibilita  dizer que ela tem seu preço e que os artistas permanecerão choramingando à  eternidade o quanto não estão cheios os seus bolsos. Trata-se, ainda, de  pensar no quanto “nós”, os “artistas”, nos beneficiamos da falácia  humanista que diz “Arte para todos!”, quando nossa única motivação óbvia é que tampouco queremos morrer de fome.

Recebemos 500 reais para construir essa cena. “Não é muito”, dirá a  maioria. Porém, se pensarmos que é muito mais do que um salário mínimo a quantia que está sendo investida numa cena de 15 minutos, poderemos percebê-lo de outra forma. Talvez aí esteja mais uma belíssima ilusão que o capital fomenta, e que o [conjunto vazio] também adoraria fomentar: acreditemos, então, que fazer “arte” não consiste numa atividade necessariamente alienada e finjamos o contrário, ou seja, que estamos supostamente fazendo valer um “dom essencial e exclusivo” de representação das coisas ou conferindo a isso uma “função social” auto-justificada. Parte considerável dos “artistas” pretende dizer que fazer arte é uma resistência ao modo operante do capitalismo, ignorando que, com rarísimas exceções, os trabalhos nunca são feitos sem dinheiro, seja do Estado ou de alguma grande empresa “patrocinadora”. A arte é (e não há como deixar de ser), por si só, reprodução integral das relações exploratórias típicas do mundo mercantil. Seus namoricos com a mercadoria constituem, de todo modo, uma união estável e inevitável.

A não ser que você, um espectador por excelência ou comodidade, transfira  ao trabalho artístico algo de sagrado e considere que essa condição coloca  o “artista” numa posição excepcional, como se ele pudesse dizer: “Sente-se aí e assista, vou fazer-lhe um favor”. Afinal, não é isso que você está fazendo agora?

Basta então lembrar que a cultura nunca sai de moda. Está sempre em alta, como uma mercadoria-vedete ideal que te incita a comprar todas as outras. Não é de se estranhar, portanto, que os políticos profissionais e os artistas por ofício que se declaram engajados encham a boca de bons verbos para oferecê-la aos seus consumidores em potencial.

Arte é chiclete pregado debaixo de uma mesa. Cultura é detergente em promoção. Listaremos então o que se pode fazer com 500 reais (afinal, é essa a base da  alienação: crer que uma quantia de dinheiro vale de fato uma quantia de qualquer outra coisa):

– Uma cena de teatro de 15 minutos.

– Uma performance que tire sarro com o fato de você estar pagando 20 reais para assistir isso.

– Comprar 25 ingressos para o X Festival de Cenas Curtas.

– Comprar 50 ingressos meia-entrada para o X Festival de Cenas Curtas.

– Montar 2,5 cestas básicas.

– Pagar o aluguel do seu apartamento.

– 1 transa com uma prostituta de luxo.

– 50 transas com uma prostituta na Guaicurus.

– Alugar uma casa para fazer uma orgia com @s amig@s.

– Seduzir pés-rapados a apresentarem uma cena curta num teatro falido qualquer.

– Aplicar nas ações da Petrobrás, como já vêm fazendo os setores privados da economia.

– Comprar 1 passagem de avião para o Paraguai e, com o que sobrar, adquirir alguma muamba em Ciudad del Este.

– Comprar aproximadamente 250 kg de tomate ou pode simplesmente catar do lixo do CEASA.

Essa cena foi feita exclusivamente para lesar você, espectador, que por meio dos impostos que paga permitiu que pudéssemos tirar sarro novamente aqui no Galpão Cine Horto. Obrigado por tudo e dedicamos toda nossa “arte” a você. Longe de nós a intenção de destruir suas esperanças… a vida se encarregará disso.

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PANFLETO DISTRIBUIDO AO PÚBLICO NA APRESENTAÇÃO DAS CENAS VENCEDORAS DO X FESTIVAL DE CENAS CURTAS

CARTA SUÍCIDIO DO [conjunto vazio]

‘(…) a primeira vez como tragédia, a segunda como farsa”. (Karl Marx)

Reiteramos que:

1. Somos mais influenciados por Sex Pistols do que por vedetes teóricas normalmente adoradas pelo público artístico em geral;

2. Nos vendemos tanto quanto a platéia e ainda compramos votos. Não há “princípios” regedores do festival que poderiam impedir qualquer um de faze-lo, portanto não existem ilegitimidades;

3. As atividades do [conjunto vazio] são experimentos de estratégias para charlatanismo crítico. Se funcionam ou não, o estardalhaço generalizado é que nos revela.

Da TRAGÉDIA: Esperando Debord fracassou. O que se propôs a ser uma intervenção se converteu numa cena de teatro, foi assimilado e apreendido imediatamente como mais uma peça do mercado cultural.

Da FARSA: Um ingrediente indispensável ao espetacular: a crítica do Espetáculo. Preferimos ir direto ao ponto. Se o Espetáculo toma para si tudo o que o circunda – seja para criticá-lo, seja para confirmá-lo – que façamos borrão nas suas instâncias. Não temos a mínima pretensão de sermos originais. A originalidade é pura demais e não nos daria dinheiro.

O [conjunto vazio] não quer estar aqui presente e nossos porquês já são bem claros. Voltamos apenas para tirar mais sarro com a cara daqueles que degustam como doce o chorume do lixo que (re)produzimos. Se continuamos a cruzar essas portas, o fazemos por um único elemento básico que nos interessa: o gigantesco montante de dinheiro colocado nos círculos desgastados do cassino cultural.

A platéia não é “manipulada”, como querem insinuar alguns. Só faz repetir uma prática previsível, estéril, mais que consensuada há séculos no interior dos ambientes artísticos ou frente a qualquer outro produto consumível. Não são necessários estímulos externos excessivos para tal e nem mesmo cremos sermos capazes de realizar tamanha travessura.

Nosso “improviso medíocre” logrou a gritaria desatada de figuras que se pretendem suficientemente sábias, aplicadas ou resolutas a ponto de se sentirem autorizadas a nos ensinar sobre os “encantos da vida”, sobre o “idealismo artístico”, sobre “a originalidade”, que falta à juventude precária que compomos. Uma “mentalidade oca e sensacionalista” nos rende R$ 500 com muita facilidade. Somos dotados de espírito de empreendimento juvenil do século XXI. Por que será que alguns ressentidos que vêm de uma geração envelhecida insistem em boicotar essa habilidade que herdamos dela mesma?

A esses que molham nossas mãos e calibram suas bilheterias com mão-de-obra fácil e barata, dedicamos mais do nosso péssimo gosto frente ao “papel fundamental da arte”. Agradecemos novamente àqueles que, por persistência, se viciam com a imbecilidade “cheia de merda” que nos assola.

Mais fotos aqui

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