[conjunto vazio]

Belo Horizonte, doze de Maio de 1985

In de: (...) para: (...) on dezembro 6, 2009 at 14:17

aos poucos, ao contrário do que os títulos sugeriam, percebi que não eram livros de filosofia, porém de aventura. e perdido como estava entre uma seqüência interminável de “fulano disse que sicrano pensou que o outro defendia…”, me decidi, por fim, afirmar como de minha autoria a tese fundamental que, a princípio, comporia uma simples ementa de um livro que julgo impreciso, indeterminado e sem muita importância para qualquer literato mais rigoroso. talvez bastasse apenas que fosse atento. no entanto, qualquer coisa de curioso havia naquele livro que merecia a minha dedicação e para escrever-lhe um prólogo à altura precisaria de uma inspiração que, com toda sinceridade, só poderia dever a Borges e mais a nenhum outro, ainda que ele fosse completamente alheio ao tema do livro, o que não tem qualquer importância.

pois bem! uma de suas peculiaridades é que o livro a que me refiro não existe. existiu talvez em algum passado, quando ainda se acreditava nele, ou existirá em um futuro longínqüo, quando se tornará afinal possível, mas hic et nunc ele era impossível.

já passava da meia-noite. havia perdido as contas das minhas tentativas vãs de folhear as suas páginas. nunca havia me deparado com páginas mais impenetráveis. autor deveras confuso. afirmava e negava simultaneamente as suas teses, como em um esforço do paradoxo que não aceita solução sem fazer aparecer uma outra tese que não decorreria, por sua vez, de nenhuma característica particular da anterior, mas que surgiria assim, como que do nada. para afirmar essa terceira, apenas com uma violência interpretativa vinda do leitor e nada que fosse do próprio autor. sentia-me angustiado com aquela situação e, para evitá-la, restava-me recorrer a outros autores e dizer que eles que haviam dito aquilo que pretendia extrair do livro ao qual agora eu abordava. naturalmente, aqueles que revisaram o meu texto me objetaram firmemente a impossibilidade de tal movimento teórico, tendo em vista que não me baseava sobre qualquer prova concreta de uma relação entre o autor a que me referia e aquele sobre o qual pretendia falar. (é por essas e outras que tendo a acreditar que mais insuportável que os críticos são os críticos dos críticos, aqueles que conservam, lendo-os, essa profissão apenas por uma espécie de sadismo).

permanecia com uma paciente perseverança, esperando encontrar no meu espírito aquela coerência que apenas as noites solitárias podem nos oferecer. aos poucos, aereamente, comecei a percorrer o emaranhado fio que, desenrolando-se, poderia compor ao final uma narrativa. aquela pista que me oferecia tinha um aspecto fortemente hipotético, porém ainda assim resolvi sem hesitação percorrê-la até onde fosse capaz.

aquilo que viera a se desenrolar não era tão diferente assim da situação em que o fio pudera ser primeiramente percebido. tratava-se de um lugar calmo e seguro no meio de uma floresta. uma casa em uma clareira, muito longe de qualquer vizinhança. ao chegar nos limites que abriam para a mata fechada, podia-se escutar o zumbido louco e intratável de um coral heterogêneo de insetos somado ao arrastar dos pequenos animais que devem encostar suas barrigas nas folhas para se locomoverem. a única abertura que não tinha saída para a floresta era a de um pequeno rio. o rio ficava exatamente abaixo da janela da casa na clareira e, após passar por ela, continuava seguindo de onde havia começado: às margens da mata.

o livro dá poucas pistas sobre as características de quem habitava a casa. se era fraco ou forte, grande ou pequeno, corajoso ou covarde, sábio ou ignorante. em todo caso, sabemos que vivia preso e pressionado pelo caos. o zumbido afetava-o imensamente e seu aprendizado, mesmo que possuísse apenas a parte positiva das duplas de características que listamos, seria o de enfrentar essa forte afecção. se fosse muito covarde, permaneceria no centro da casa, onde provavelmente a onda que o cercava poderia atingi-lo com menor intensidade. mas seria de outro modo caso fosse muito corajoso. se fosse demasiadamente corajoso, ele se aproximaria em algum dos mil cantos da parede que o cercava até ser completamente tragado por ela e, por fim, desapareceria completamente se emaranhando na terra úmida, na água lodosa, na atmosfera quente que percorre por cima do solo, nas gotas que escorrem pelas folhas, longamente conservadas. seus vasos sanguíneos seriam um cano em extensão com as fibras das plantas. seu grito seria o ponto de referência para que os pássaros soubessem se localizar e mesmo quando fosse atacado por algum animal violento ou venenoso, seu corpo ainda serviria de adubo e até as suas partes mais vergonhosas seriam devoradas por espécimes incontáveis de vermes.

por fim, convenço-me que o livro é capaz de confirmar que as coisas se passaram exatamente assim.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: