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Archive for dezembro \31\UTC 2009|Monthly archive page

quem tem medo de “teoria”?

In blog on dezembro 31, 2009 at 17:50

Há um certo anti-intelectualismo que não conhece as suas próprias origens e que trafega entre vários grupos como uma espécie de “senso comum normativo”, ou seja, não fundamentado ou elaborado, mas perfeitamente funcional na sua tarefa de expulsar o pensamento. O que não se percebe é que a teoria pode ter também uma eficácia de outro tipo que aquela de marcar com um nome práticas que de forma alguma reclamam isso (Mano Brown diz que: “Somos reféns das palavras, mas não posso ser refém de nada, nem do rap. Vamos quebrar. Aquele Mano Brown virou sistema viciado, uma estátua óbvia demais. Pergunta tal coisa que ele vai responder tal coisa. Eu estava mapeado e rastreado”). Uma intervenção teórica pode ser útil para desarticular uma apropriação ideológica de práticas sociais. Então quando um levante de favelados ocorre em uma metróple por causa da violência policial é preciso uma contrapartida para a legitimação da repressão. É preciso uma resposta contra aqueles que tomam o movimento como selvageria, barbárie ou uma mera vingança. Uma intervenção teórica pode fazer compreender que se trata de um movimento político antes de tudo. Fora de cogitação dar um lugar normativo ou legitimador para uma teoria estética ou política. Ao contrário, há um valor estratégico nas teorias.

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verbete #3: [arte crítica]

In vocabulário de palavras em desuso on dezembro 31, 2009 at 17:32

Para além da solução de fazer da Arte uma metáfora de ideologias procurando na narrativa da obra uma adesão ou uma recusa de determinados sistemas políticos, trata-se de estimular o pensamento sobre como os empreendimentos estéticos contemporâneos não se furtam a habitar o espaço onde o próprio ato criativo já se engaja politicamente sem que para isso seja necessária a referência a um conjunto de valores que o justifique. Isso porque o próprio procedimento incluí uma relação crítica com o exercício do poder.  Tais práticas parecem ser em certa medida a retomada dos anseios do período em que a Arte ainda se engajava em uma tarefa utópica, assim essas ações são herdeiras do projeto das vanguardas do século XX quando, muitas vezes, criam novas formas de vida na contramão da vida comum. Criam uma nova economia das percepções e um novo universo de comunicação com o outro.

Não há qualquer coincidência no fato de ser o estético uma das principais alternativas críticas para muitos grupos. Em primeiro lugar, porque, na maior parte das vezes mais do que as instâncias representativas tais como partidos políticos, ela permite o confronto com uma forma de poder que se exerce em um nível micrológico: na percepção, na criação de significados, no uso de coisas, na habitação do espaço, etc. Com um deslocamento para o estético, a crítica consegue acompanhar as mutações do poder que se exerce, com um refinamento nunca visto (haja vista as novas tecnologias que já compõe o cenário do terceiro mundo) no nível dos corpos. Nesse sentido, o estético acessa um confronto político que permanece aquém dos parlamentos. Em segundo lugar, o ambiente criativo parece ser mais apropriados para que se projete determinadas expectativas organizacionais como, por exemplo, a horizontalidade auto-gestionária, a grande abertura para modificações estruturais significativas ou mesmo o anonimato.

O maior exemplo da interseção entre o estético e a política tem sido as “intervenções urbanas” que se lançam em uma heterogeneidade tal que cabe uma análise atenta de suas várias formas. Mas de pixações a intervenções cênicas, passando por manifestações anti-globalização, todas elas propõem (por vezes silenciosamente) um tipo de apropriação do espaço urbano que causa um forte ruído na organização da cidade como mero espaço de circulação de mercadorias.

Se por um lado os artistas urbanos não deixam de buscar alguma inspiração na história da Arte, por outro, o “caso Piveta” (pichadora presa por invadir e segundo as autoridades “depredar” a 28ª Bienal de  arte de São Paulo em 2008) provou que também há tensões entre as intervenções urbanas e a Arte. Se é realmente correto aceitar que a intervenção urbana é Arte, isso não ocorre sem o questionamento radical deste domínio, inclusive institucionalmente. Mas também precisamos lembrar que flash mobs organizados por empresas de telefonia e diversas outras empresas, além da a emulação dos modos de organização dos coletivos autônomos pelos teóricos de recursos humanos colocam uma séria questão: qual a real efetividade crítica de de tais estratégias?

Chantal Mouffe em Artistic Ativism and Agonistic Space se pergunta corretamente se “práticas artíticas podem ainda exercer um papel crítico em uma sociedade onde a diferença entre arte e propaganda tem se tornado turva e onde artistas e trabalhadores culturais tem se tornado parte necessária da produção capitalista”. O problema não é apenas o fato de artistas e publicitários se dissolverem em um mesmo papel social, mas bem mais se a produção artística, mesmo a mais radical, não é cúmplice em seus procedimentos daquilo que ela pretende recusar. Por exemplo, não é certo que os efeitos de impacto e choque de uma intervenção urbana sejam essencialmente diferentes de uma publicidade (atualmente já se fala em “marketing de guerrilha”). O que nos leva também a ver com suspeita editais para eventos artísticos, ainda que públicos, e mesmo a academia é que há uma emulação sutil ou pornográfica dos discursos radicais dentro desses meios que busca, de uma forma ou de outra, torna-los domesticáveis, tornar as idéias não somente menos perigosas, mas mais precisamente sem efetividade alguma.

Em nenhum momento o mais importante é que tenhamos respostas para os problemas, mas que determinemos de modo objetivo os NOSSOS problemas. Para toda tarefa crítica, o problema é: como tornar-se efetiva? Como tornar possível algo além do atual estado de coisas?

Quando as idéias voltam a ser perigosas

In blog on dezembro 27, 2009 at 15:22

cena do filme "Reds" de Warren Beatty

“O que queremos, de fato, é que as idéias voltem a ser perigosas.”
Internacional  Situacionista

Foi durante a filmagem de Reds, filme sobre o jornalista John Reed que acompanhou a revolução comunista na Rússia,  que  o diretor Warren Beatty com o intuito de ter atuações mais verossímeis e “reais” dos figurantes nos papeis dos trabalhadores russos explorados, ensinou a eles  as formas  como esses  resistiam, lutavam e sobre como funcionava o modo de produção capitalista.

Beatty, certa vez, discursava antes  de uma filmagem para a figuração sobre a revolução, a igualdade, a política, o comunismo, dentre vários outros assuntos, ao terminar sua fala não tardou para os figurantes entrassem em greve em busca de melhores salários, montando piquetes e impedindo o filme de continuar as gravações.

Poderíamos dizer que o diretor forneceu as ferramentas necessárias para que os figurantes tomassem consciência de sua exploração, permitindo que  eles tentassem deixar de ser meros espectadores/figurantes de suas próprias vidas ou  podemos simplesmente dizer que pregações políticas são entediantes e que os figurantes entenderam que já há teorias demais no mundo…

É hora de fatos e ato.

A sonata de Vinteuil executada pelo Sigur Rós

In blog on dezembro 24, 2009 at 19:39

Eu nunca vi nenhum leitor de Proust dizer que o Em Busca do Tempo Perdido é monótono. Óbvio: essa é a característica onde os leitores se apoiam para argumentar porque eles não lêem Proust. Mas o que não se percebe é que talvez possa haver uma espécie de “poética da monotonia”. Isso realmente funciona e, se não fosse a impressão de que Proust parece escrever em um mesmo tom durante todas as centenas de página do livro, a Recherche não seria parecida, como pensava Guattari, com uma “teia de aranha”. É apenas porque é monótono que o acontecimento mais sutil pode ressoar e encontrar seu lugar no romance ao invés de ser algo inócuo. Algo parecido acontece com o Sigur Rós e talvez a banda e o livro sejam duas coisas realmente muito parecidas.

ideologia, shopping center e billy wilder

In blog on dezembro 24, 2009 at 00:53

Um filme sobre cinema, Crepúsculo dos Deuses de Billy Wilder conta a história de Norma Desmond uma atriz aposentada que não conseguiu sustentar sua fama depois das modificações cinematográficas que tiveram como consequência o estabelecimento do cinema falado. Então, ela vive em uma caríssima e decadente mansão junto com o mordomo e um macaco que, nos primeiros instantes do filme, é substituído por um roteirista falido de Hollywood. O interessante do filme é que, a despeito da sua decadência real, Norma sustenta para si mesma que ela continua amada pelos fãs que, segundo sua imaginação, estariam esperando ansiosamente o seu retorno para as telas. Para assegurar a ilusão, o mordomo está disposto a qualquer coisa como, por exemplo, forjar cartas de fãs que nunca existiram. O real se insinua em todos os cantos, mas Norma vê o que quer vê.

Bela metáfora sobre a ideologia. Bela metáfora sobre a nossa época. Nada melhor do que o shopping center para comprová-lo. O shopping é a abolição do tempo, um lugar que materializa a ausência de história. Quem nunca sentiu a sensação de “não ver o tempo passar”, enquanto fazia compras? Isso porque entrar em um shopping é uma espécie de experiência de imersão. Ele não é outra coisa senão um “útero arquitetônico”. Ele realiza a nossa fábula de mundo perfeito e seguro. Mundo sem conflito ou contradições. É possível dizer que ele é a realização do ideal urbanístico de limpeza e higiene a todo custo. Afinal, não é disso que se trata quando os projetos urbanísticos levam para longe a pobreza, ou seja, não se trata de transformar as ruas, tal qual os corredores de um shopping, em uma passarela de mercadorias?

Panfleto: DIA SEM COMPRAS 2009

In intervenção urbana on dezembro 23, 2009 at 22:28

Panfleto do Dia Sem Compras

Panfleto do Dia Sem Compras

DIA SEM COMPRAS: SEUS DESEJOS ESTÃO À VENDA

A crítica à sociedade de consumo não é motivada porque consumimos demais, mas porque consumir virou a única coisa que nos é permitido. Somos sempre levados a viver o capitalismo da forma que ele é vendido, mas o que aconteceria se acreditássemos mesmo na publicidade? Se de fato “vivêssemos o agora” como mandam as propagandas? Os bancos não existiriam, as ruas amanheceriam com as pessoas cantando e dançando ao redor dos carros pegando fogo. Não sobrariam outdoors, propagandas, publicidade. Não haveriam mais empregos e nem dinheiro.

“Aproveite o minuto”, “Faça algo novo”, “Tudo o que você gosta muito, diariamente”, “Toda hora é hora de aproveitar”, “Leve a vida do melhor jeito que você puder”, todo um mundo de possibilidades fornecidos por juros baixos ao mês. Estamos intoxicados pelo espetáculo, aceitando sacrifícios diários à espera de uma vida futura que não chegará. Hoje, dia 24 de Dezembro, vocês celebram o natal consumindo e perdendo suas vidas achando que comprar é a única forma de demonstrar qualquer tipo de afetividade e de envolvimento com o outro.

Cuidado com o que desejam nobres consumidores,  isso ainda se voltará contra vocês!

[conjunto vazio] e Amig@s da Próxima Insurreição

psicogeografia #1

In mapa afetivo da cidade on dezembro 17, 2009 at 01:42

Moro em um bairro industrial na periferia de Contagem. No meu bairro você encontra fábricas abandonadas, linhas de trem que atravessam sobre corrégos à céu aberto ao lado de barracos onde milagrosamente moram pessoas. Há muitos galpões, chaminés com tochas de fogo vermelho e azul. Agora tudo fica um pouco mais decadente porque estão destruindo casas e prédios para construir uma grande avenida que ligará dois pontos da cidade. Andando ou jogados nas ruas, há senhores bebados, senhoras perdidas, cachorros vira-latas. Há também pessoas da minha idade que encobrem a sua miséria com uma euforia plástica oferecida por uma série de mercadorias de segunda mão como celulares, roupas coloridas,  carros, som, computadores, etc.  A maioria dessas pessoas são, como eu, filhos de filhos de trabalhadores rurais que vieram para a capital na época do governo JK.  A casa onde meu avô (ex-congadeiro) atualmente mora foi praticamente doada em troca da sua mão-de-obra, não menos doada. O resto de toda positividade cultural dessa região está lançada nas milhares de igrejas evangélicas que habitam cada esquina e os forrós que tocam músicas de três notas gravadas em teclado Casio. Os velhos se dividem entre esses dois ambientes, mas para ambos eles usam a mesma quantidade de perfume. Nos dias de semana, há operários dormindo depois do almoço no passeio e crianças voltando da escola, mais ou menos eufóricas com papagaios que caem a todo momento quando é julho. As pessoas mais novas, como eu, passam a maior parte do dia fora do bairro, porque é daqui que sai toda a mão-de-obra que alimenta os bairros ricos. Atendentes do comércio, empregadas domésticas, funcionários públicos, motoristas de ônibus, etc. todos saem cedo em coletivos abarrotados de gente e só voltam no final da tarde na mesma situação. Eu atravesso isso tudo com o rosto enfiado em um livro escrito do outro lado do mundo na esperança de encontrar algo que me diga como tornar isso tudo um pouco menos cinza. Tem dias que funciona e vejo algumas coisas interessantes e até mesmo bonitas.

A explosão dos guetos e favelas

In blog on dezembro 15, 2009 at 13:04

“O controle é de curto prazo e de rotação rápida, mas também contínuo e ilimitado, ao passo que a disciplina era de longa duração, infinita e descontínua. O homem não é mais o homem confinado, mas o homem endividado. É verdade que o capitalismo manteve como constante a extrema miséria de três quartos da humanidade, pobres demais para a dívida, numerosos demais para o confinamento: o controle não só terá que enfrentar a dissipação das fronteiras, mas também a explosão dos guetos e favelas” (Deleuze, G. Post-Scriptum sobre as Sociedades de Controle).

É possível resistir a um capitalismo rizomático?

In blog on dezembro 15, 2009 at 00:46

Gilles Deleuze e Félix Guattari afirmam explicitamente: o capitalismo tem o seu próprio Corpo sem Órgãos. O que isso quer dizer? Significa que o capital precisa dissolver todas as territorialidades do planeta para faze-las retornar cinicamente, de acordo com as leis do mercado. A indeterminação não é índice de revolta no capitalismo tardio como é nas culturas tradicionais. Ao contrário, ele joga com a indeterminação. Giorgio Agamben conta uma historieta bastante ilustrativa sobre os protestos de Gênova. Quando perguntado se não era a função da polícia manter a ordem, um policial responde que evidentemente não se trata disso. Na verdade, o que a polícia faz – ele responde – é administrar a desordem. O Iraque e o Afeganistão são dois países onde se exerce a administração da desordem e não a instauração da ordem. O mesmo ocorre quando se declara temporariamente estado de sítio por causa de um inicidente terrorista, de uma favela ocupada pela PM ou de uma manifestação de rua.

O fato incômodo é que aquilo que Deleuze/Guattari chamam de “desterritorialização” não é algo específico da resistência ao poder. O poder também opera desterritorializações. Um fenômeno que ocorre desde os primórdios do capitalismo é fazer nascer uma mão-de-obra completamente nova destruindo os referenciais de um grupo cultural determinado. Basta imaginar uma fábrica que chega em um espaço semi-urbano em alguma cidade do interior do Brasil e passa a impor à comunidade toda uma dinâmica de vida completamente estranha àquela que eles conservam há dezenas de anos ou talvez séculos. Inquietante também é o fato que mesmo grupos de resistência muitas vezes se satisfazem de um certo conjunto de símbolos e imagens que orientam as suas práticas revolucionários (territorializam o seu mundo) e que, tudo isso, de uma hora para outra, também é alvo de uma processo de desterritorialização. O problema todo então é: qual modelo de crítica é eficaz contra um sistema que estimula ele mesmo a sua crítica sem  que isso implique sua superação?

Carlo Giuliani - Gênova, 2001

Carlo Giuliani - Gênova, 2001

O devir-arte da mercadoria

In blog on dezembro 12, 2009 at 20:42

Para além dos discursos que defendem que há uma arte vendida, deixando na sombra – sem muitas vezes conseguir mostrá-lo – que há uma “arte não-vendida”, é preciso pensar que talvez exista uma afinidade essencial entre a natureza do objeto artístico e da mercadoria. Isso explica não só porque a arte é tão facilmente mercantilizável, mas também porque cada vez mais nós temos a impressão que é a vida cotidiana colonizada pelo capital que se torna mais e mais “estética”.

O que significa transformar um objeto banal em um objeto artístico? Antes de qualquer outra coisa, é dissolver o seu uso comum e, em última instância, dissolver o seu uso ou tornar o uso o valor menos importante da coisa. Jamais respondemos para que serve um objeto de arte. Ele, ao contrário, nos confronta com um tipo de abertura que apenas de modo perverso conseguimos restaurar dentro de um uso qualquer. E realmente é como a perversão sexual: é preciso desviar o uso natural dos objetos para torna-los artísticos. Só podemos dizer que uma intervenção urbana é de algum modo artística, porque ela subverte o uso cotidiano do espaço. Ao mesmo tempo, a esperança é que ela se torne política quando o que determina o uso do espaço urbano é o poder.

O que significa transformar um objeto banal em mercadoria? Significa também dissolver o seu uso e fazer deste o valor menos determinante da coisa. Isso quer dizer que o objeto guarda propriedades para além da nossa apreensão empírica (“sutilezas metafísicas”, diria Marx). Não determinamos o que é o objeto na nossa relação direta com ele, mas todas as suas propriedades são determinadas por seu valor de troca. O uso é completamente submetido às leis de mercado, ao imperativo de circulação de mercadorias, por isso a relação de estranhamento tanto do trabalhador quanto do consumidor frente às coisas que povoam e controlam o seu mundo. É preciso no entanto instaurar uma mobilidade ilimitada no mundo dos objetos para que eles se submetam pacificamente às leis do capital. Eles podem ser usados para qualquer coisa. Há um verdadeiro espírito estético no capitalismo mais do que um espírito protestante.

Um exemplo disso é a possibilidade de reintegração daquilo que constrange a sociedade dentro da sua própria maquinaria. De camisas do Che Guevara até linha de maquiagens inspirada em viciados só são possíveis quando os objetos habitam um contexto social onde há uma mobilidade ilimitada de sentido. Então: deixem passar as simulações infinitas!