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verbete #1: [ideologia]

In vocabulário de palavras em desuso on novembro 11, 2009 at 23:19

O filme Corporation mostra uma cena em que manifestantes invadem a residência de um poderoso empresário na expectativa de, após algum enfrentamento, as suas exigências fossem aceitas. Esperava-se que o FBI interviesse, que houvessem presos e confusão. Ao contrário, o empresário e sua esposa são dois simpáticos velhinhos que recebem os manifestantes com chá e biscoitos mantendo com eles uma agradável conversa onde eles revelam a sincera preocupação com as questões ambientais do nosso planeta. O problema é maior do que simples hipocrisia. Como é possível um poder absolutamente transparente, que não esconde os seus pressupostos, mas que os revela cinicamente?

Uma das táticas peculiares dos protestos anti-globalização consistia em confrontar a polícia com indivíduos fantasiados. Ao invés dos black blocs (indivíduos com roupas pretas armados com coquetel molotov), os policiais entravam em confronto com fadinhas e palhaços. O efeito claro era de desterritorialização; amenizar, pela confusão que o inusitado provoca, a violência policial.

De certo modo, é um efeito desse tipo que ocorre quando o espectador é convidado a assistir a crítica mais radical de sua condição. “Desligue a tv e vá ler um livro”. Mesmo que o espectador obedeça a essa ordem, no momento em que ele fizer isso, ele revela a sua adesão à emissora que o ordena. Ao expor a sua própria crítica dentro das condições que deveriam ser criticadas, os aparatos de poder esterilizam toda crítica.

É porque vivemos em uma época na qual o poder se exerce transparentemente que se acredita que a palavra IDEOLOGIA não faz sentido. É como em um filme pornográfico: parece que os críticos do nosso sistema social não tem nada a revelar, porque tudo já está obscenamente exposto e isso não muda nada. Até então, a crítica à ideologia significava trazer à luz do dia o que os discursos que legitimavam determinadas práticas sociais ocultavam no intuito de desestabilizar o fundamento desses discursos e práricas. Tratava-se para os críticos de um trabalho de arqueólogo: revelar o fundamento enterrado nas profundezas e instaurar algo que faz juz a essa verdade.

Podemos ler a crise da esquerda por esse viés. Mesmo as suas correntes mais radicais são impotentes em vislumbrar algo após o nosso sistema vigente que não seja morte e catástrofe. Na impotência crítica, aqueles que ocupam o papel de vedetes da negação se apegam a causas que não causam mal a ninguém, que todos concordam de antemão, como, por exemplo, as causas ambientais. Será que ninguém percebe que podemos salvar o planeta sem dar um passo de emancipação humana? Ou seja, mesmo o maior porco capitalista pode reciclar o seu lixo.

Devemos nos confrontar com a seguinte hipótese que coincide com aquela do “fim da história”: o capitalismo realizou tudo. Não há exterioridade ao capitalismo, ele é tudo e o que ele não é ainda, é potencialmente. É o significado do multiculturalismo: todas as crenças, todas as cores, todos os deuses. Como em um shopping onde as diferentes mercadorias se co-habitam pacificamente.

Tudo nos indica que há algo de ilusório nessa realização total. É impossível conciliar todo o universo sem que para isso anulemos algumas das características mais essenciais do seus elementos. A promessa da democracia capitalista é que podemos assumir posições sem que isso provoque qualquer efeito. Mas isso não é o mesmo que não assumir posição alguma?

Um filósofo, uma banda punk ou um publicitário podem ser profundamente radicais nos seus discursos sem que isso implique em absolutamente nada. Se nas ditaduras as palavras são estupidamente carregadas de significado, a condição de possibilidade da democracia parece ser que elas sejam vazias. De fato, as pessoas parecem acreditar em alguma coisa, mas o que elas acreditam não são significados que emergem para aqueles que, incapazes de acreditar, acreditam em qualquer coisa, no que resta?

Antes de tudo a primeira tarefa de uma crítica da ideologia hoje é negar o engodo de que nosso discurso é o mais esclarecido e não envolve posição alguma senão a única posição possível. Supor que um discurso é impermeável a condições de verdade é o primeiro passo para torná-lo incontestável e absoluto. A segunda tarefa é saber o quanto ineficaz é procurar verdades ou essências que explicam os fenômenos ideológicos. De um modo radical, o anti-capitalismo deve assumir uma perspectiva estratégica e criativa.