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Sobre Mapas Afetivos (e dramas burgueses ruins para fins didáticos)

In mapa afetivo da cidade on abril 3, 2010 at 17:49

PRIMEIRO ATO


Casa de família, classe média. Sala de estar com TV ao centro, sofá, abajur, quadros, outros móveis e apetrechos típicos. Uma saída à esquerda leva para o corredor. À direita, a porta principal, de entrada da casa.

 

CENA I
Luther e Monty

Monty recostado no sofá lê um livro.
Luther sentado à mesa toma café e permanece muito entediado.

LUTHER
O que é um mapa afetivo da cidade?

MONTY
Pense em um mapa…

LUTHER
Pensei!

MONTY
Agora pense em um mapa sobreposto a esse mapa… o SEU mapa!

LUTHER
Esboçando uma cara de dúvida

MONTY
É mais simples do que você pensa… seu mapa teria por exemplo “pontos turísticos” da sua própria vida ou as rotas que você faz quando sai entediado pela madrugada mas não conta para ninguém.

LUTHER
Não faz o menor sentido…

MONTY
Eu sei que não, mas imagina uma cartografia dos pontos que são importantes só para você. Uma cartografia sentimental, solipsista, mas que você gostaria de compartilhar com os outros…

LUTHER
Mas esse mapa afetivo seria do leitor?

MONTY
Inicialmente não, ele é primeiro uma indicação daquele que pensa, confecciona ou faz o mapa e é justamente ao ser compartilhado que se inicia o jogo. Assim, esse mapa poderá alterar (ou não) esse “outro” que você chama de “leitor”, por exemplo, direcionando seu olhar para um ponto da cidade que passa despercebido ou revestindo um espaço comum e banal com uma história e sensação que não a dele.

LUTHER
Acho que começo a entender, mas ainda fico pensando de que forma isso poderia acontecer e ser compartilhado…

MONTY
Talvez experimentando desenhar mapas ou escrever indicações de locais que você quer compartilhar em banheiros sujos pela cidade… ou em xerox de mapas alterados, deixado nos bancos do metro, ônibus, praças…. usando a internet para divulgar anonimamente seus mapas, esperando que alguém um dia se interesse por eles. Sei lá, propondo ao seus amigos jogos idiotas de caça ao tesouro pela cidade. As possibilidades são infinitas e basta…

LUTHER
Interrompendo-o
Tá, entendi!

MONTY
… encontrar pontos importantes para cada um de nós…

LUTHER
Você escutou?! Eu já entendi!

MONTY
…. que serviriam para montar um percurso para esse “outro”, “leitor”, “jogador”.

LUTHER
Cara, você nunca sabe a hora de parar!

MONTY
Seja propondo efetivamente um percurso ou apenas um novo olhar.

LUTHER
Cala a boca!

Monty fica em silêncio.

LUTHER
Ainda me resta uma dúvida: se um mapa não é o território, o que ele é afinal?

MONTY
Eu sinceramente não sei! Longe de te dar qualquer resposta eu só queria que você parasse de me encher o saco…

Os dois riem e subitamente olham pela janela da sala, ao longe a cidade pega fogo

 

FIM

psicogeografia #2

In mapa afetivo da cidade on janeiro 4, 2010 at 13:47

Andar de madrugada pela cidade tem se tornado uma constante. Quase sempre antes de sair de casa me lembro do meu pai contando que quando era jovem andava durante horas por uma cidade já em constante expansão, ele só voltava quando as pernas não aguentavam mais procurar outro bairro para ir. Pensar nisso ou em uma frase recorrente (“A caminhada impede que fiquemos retornando sempre às interrogações sem resposta, enquanto que na cama remoemos o insolúvel até a vertigem”) me impulsionam para que eu abra a porta e saia. As vezes só é preciso coragem e tédio para mudar sua noite.

Moro na região central de Belo Horizonte, um espaço que durante grande parte do tempo permanece abarrotada de pessoas. A cidade e mais propriamente o Centro é usada apenas como um local de passagem, um trajeto de um lugar particular privado para outro local particular e privado, penso que talvez seja principalmente por causa disso que a região onde moro é deixada de ser vivenciada, não tendo interesse nenhum das pessoas em ver o Centro ( isso se estende por toda cidade) como um local de experimentações e possibilidades.

É verdade que de madrugada poucos se aventuram nas ruas, a não ser os mendigos te parando de esquina em esquina pedindo um cigarro, eventuais trabalhadores voltando para seus bairros de origem a pé, prostitutas desconfiadas que te olham sempre de soslaio, pichadores deixando rastros pelos muros ou pessoas em busca de uma dose violenta de qualquer coisa. Tudo isso demonstra que cruzar o Centro a essa hora é um exercício que poucos estão dispostos.

Tenho feito a vários dias um caminho longo e insistente. Caminho em direção aos bairros ricos, lentamente observo como se dá a passagem de um bairro para outro, percebendo como as edificações, os carros estacionados e os cheiros mudam. As vezes, basta atravessar uma rua para que as construções se verticalizem, pequenos prédios e casas velhas se transformem em construções de mármore branco e vidro fume, a nova obsessão da classe média enriquecida.

Me pergunto por qual razão esse caminho tem me atraído, tento pensar para além dos motivos mais óbvios como esses serem, na maior parte das vezes, os bairros mais arborizados, bem cuidados e “bonitos”. Quase chego a conclusão de que ando por esses bairros para ver os prédios que não poderei morar e a vida que eu nunca vou ter.

De forma nenhum isso é desesperador, simplesmente, ao passar da linha tênue que separa o Centro dos bairros de classe média alta, consigo perceber que sempre nos fizeram acreditar que seriamos ricos, astros do rock, atores famosos… óbvio que isso é um mentira, é bastante claro que não poderei ter nem metade das coisas que vejo ( talvez no fundo nem queira). Parece ser inevitável ao confrontar todas essas possibilidades não se sentir só, mais um dentre tantos que moram em um bairro sujo qualquer, em cidades sujas e afastadas das principais cidades, em países distante dos principais países. É difícil não ser cínico e niilista, se é exatamente assim que rotulam toda “minha” geração, como não tendo aspirações, paixão, nada para reivindicar exceto consumir, ver TV, ir a boates nas noites de sábado e segunda estar pronto para voltar ao trabalho.

Somos os filhos e herdeiros de todas as promessas de ascensão social, isso fica tão nítido nessas noites em que ando por essa parte da cidade e sou obrigado a me confrontar com uma realidade que não posso altera-la de imediato. Engraçado como sempre chega uma hora da madruga em que as pernas vacilam e você se esquece por qual razão procura tanto… aí você volta para casa, deita e dorme…

psicogeografia #1

In mapa afetivo da cidade on dezembro 17, 2009 at 01:42

Moro em um bairro industrial na periferia de Contagem. No meu bairro você encontra fábricas abandonadas, linhas de trem que atravessam sobre corrégos à céu aberto ao lado de barracos onde milagrosamente moram pessoas. Há muitos galpões, chaminés com tochas de fogo vermelho e azul. Agora tudo fica um pouco mais decadente porque estão destruindo casas e prédios para construir uma grande avenida que ligará dois pontos da cidade. Andando ou jogados nas ruas, há senhores bebados, senhoras perdidas, cachorros vira-latas. Há também pessoas da minha idade que encobrem a sua miséria com uma euforia plástica oferecida por uma série de mercadorias de segunda mão como celulares, roupas coloridas,  carros, som, computadores, etc.  A maioria dessas pessoas são, como eu, filhos de filhos de trabalhadores rurais que vieram para a capital na época do governo JK.  A casa onde meu avô (ex-congadeiro) atualmente mora foi praticamente doada em troca da sua mão-de-obra, não menos doada. O resto de toda positividade cultural dessa região está lançada nas milhares de igrejas evangélicas que habitam cada esquina e os forrós que tocam músicas de três notas gravadas em teclado Casio. Os velhos se dividem entre esses dois ambientes, mas para ambos eles usam a mesma quantidade de perfume. Nos dias de semana, há operários dormindo depois do almoço no passeio e crianças voltando da escola, mais ou menos eufóricas com papagaios que caem a todo momento quando é julho. As pessoas mais novas, como eu, passam a maior parte do dia fora do bairro, porque é daqui que sai toda a mão-de-obra que alimenta os bairros ricos. Atendentes do comércio, empregadas domésticas, funcionários públicos, motoristas de ônibus, etc. todos saem cedo em coletivos abarrotados de gente e só voltam no final da tarde na mesma situação. Eu atravesso isso tudo com o rosto enfiado em um livro escrito do outro lado do mundo na esperança de encontrar algo que me diga como tornar isso tudo um pouco menos cinza. Tem dias que funciona e vejo algumas coisas interessantes e até mesmo bonitas.

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