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O destino das Vanguardas Artísticas

Em blog, dezembro 14, 2011 às 04:48

Guy Debord teria dito que a vanguarda da arte é o seu desaparecimento, mas o real  destino de toda vanguarda é virar uma apresentação no Power Point.

A Tradição Praiera Insurgente de Belo Horizonte

Em blog, maio 28, 2011 às 04:06

(o presente texto não pretende ser uma versão definitiva sobre as movimentações de Belo Horizonte, principalmente sobre a Praia da Estação, já que sua proposta desde o início era a de não eliminar os vários discursos e motivações que a compunham )

Belo Horizonte, no início de 2010 foi tomada pela Praia da Estação, ação aliando estética e política com a proposta de questionar os processos higienizadores que a cidade passa (cujo um dos pontos mais evidentes foi o decreto Nº 13.798 DE 09 DE DEZEMBRO DE 2009 do prefeito Márcio Lacerda que proibia “eventos de qualquer natureza” na Praça da Estação). Durante quase um ano (mesmo que com alguns períodos esparsos) pessoas vestidas com roupas de banho, cadeiras de praia e guarda-sóis aproveitavam as manhãs de sábado para ocuparem a praça de uma forma divertida e debater sobre questões relativas à cidade.

É verdade que a Praia permitiu vários e preciosos encontros e a partir dela muitas articulações foram organizadas, por outro lado, isso não impediu que depois de alguns meses ocorresse um certo apaziguamento de suas propostas, fato que acabou transparecendo na recepção da Praia como apenas mais um evento cultural e fetichizado (um risco que já havia sido tratado pelo próprio [conjunto vazio] em um texto publicado logo após a primeira Praia e que outras pessoas também haviam apontado) .

O que deveria ser um espaço aberto para vivenciar e discutir a utilização da cidade acabou por se tornar um local mais para ver e ser visto, um point obrigatório e descolado. A apreensão da imprensa muitas vezes ajudou a reforçar apenas esse lado festivo, a reportagem da revista Encontro intitulada “Até Parece A Lapa” aparece como a mais sintomática nesse aspecto. A matéria não expõe, nem mesmo superficialmente,as críticas feitas ao Prefeito Márcio Lacerda que com seus mandos e desmandos foi o mote para a primeira praia, no relato da revista jovens aparecem, como que em um passe de mágica,usando trajes de banho e tomando sol na Praça com o intuito de revitalizar o Centro.

Também nos parece significativo que vários banhistas da Praia fossem sistematicamente convidados para participarem de debates sobre os novos rumos da cultura na cidade. Alinhando discursos com os de alguns grupos artisticos, os quais não vão além da crítica reformista e mais preocupados comas leis de incentivo e a “classe artistica”. Muitas dessas discussões acabavam por personalizar prefeito Márcio Lacerda como “o” inimigo, atacando apenas a representação do poder. É absolutamente claro que o prefeito faz uma das gestões mais desastrosas e totalmente alinhada com os interesses mercadológicos, mas não nos parece uma boa estratégia elegê-lo como o único e maior mal da cidade, como se bastasse apenas trocar o prefeito para que os problemas de Belo Horizonte se resolvessem .

Não se trata de negar o caráter estético e alegre que a Praia TAMBÉM teve, mas de explicitar a hipótese de que houve a perda de um potencial político e questionador em prol de seu lado cultural e lúdico. Importante frisar que para muitos dos frequentadores da Praia e das pessoas que a discute (no blog e na lista de e-mails), isso não é de fato uma questão relevante, mas nos parece problemático que uma movimentação com um  tamanho potencial agregador e crítico seja tomada apenas como mais uma atração divertida no final de semana.  Ou seja, ao invés da Praia (e das relações que se criaram dentro dela) conter críticas revestidas de um senso festivo e estético, sua inversão a transformou em um produto cultural com leve um verniz  crítico.

O que se chamou e o que se pretendia como constituição de um movimento, não conseguiu dar um passo a frente em direção a uma crítica mais radical, contundente e aprofundada, tampouco conseguiu dialogar com outras agitações da cidade e com outros locais da cidade (mesmo que se tenha tentado, e é necessário destacar, outras ações como o “Que Trem é esse?” e  a Praia no Aglomerado da Serra). Novamente, cabe dizer que também não sabemos qual seria esse próximo passo e o problema permanece aberto ( sem que isso seja um demérito, pelo contrário, só nos instiga a propor mais questionamentos e ações).

Cabe aqui então desmontar a idéia de “novidade”, que acaba por fascinar muita gente e nublar as discussões, historicizando e dando a ver uma série de ações questionadoras da cidade que já continham uma estética “praiera”. Então, apresentaremos um pequeno panorama do que chamamos (pomposamente e de maneira idiota)  de “Tradição Praiera Insurgente” .

Não morreremos na Praia!



Grupo Galpão – Queremos Praia

Em 1989, o Grupo Galpão  criou o happening “Queremos Praia”. O grupo convidou atores e bailarinos de vários grupos teatrais de Belo Horizonte para essa intervenção urbana, realizada na Savassi e na Praça Sete. Todos vestidos em trajes de banho, saem às ruas convocando a população para um protesto em que reivindicavam a criação de uma “praia” em Belo Horizonte.



Lotes Vagos

“Lotes Vagos” foi um documentário de 2006, realizado por Ines Linke e Louise Ganz que retratam a ocupação de seis lotes vagos. Esses lotes tinham tamanhos e características diversas, estavam espalhados por vários bairros da cidade e em cada um foi dado um uso específico, tentando fazer dialogar esse lote com o espaço em torno. Em um desses lotes, foi criado uma praia, com piscina de plástico, espreguiçadeiras e guarda-sóis.



[conjunto vazio] – A Ilha

O coletivo [conjunto vazio] em meados de 2008 realizou a intervenção urbana “A Ilha”, que se propôs a ocupar rotatórias e espaços aparentemente sem uso.

Com uma proposta bem simples, ocupávamos a cidade com nossos amigos, avós e alguns traseuntes para uma tarde divertida e despretensiosa.


Banho de Sol na Praça Raul Soares

 Em julho de 2008 a designer Márcia Amaral ia de maiô à praça Raul Soares, aproveitar a fonte e o sol. Reivindicava o uso e a tomada desse espaço, para que famílias fizessem piqueniques, que as crianças, cadeiras e cangas pudessem ficar no gramado (ainda hoje não é permitido utilizar o gramado). Em agosto de 2008, Marta foi presa enquanto tomava sol na praça, segundo os policiais por desacato à autoridade.


Coletivo Azucrina – Rotatória de Praia

O coletivo Azucrina em dezembrol de 2009 promoveu a rotatória de Praia (importante frisar que o coletivo já estava a alguns anos fazendo festas temáticas e shows em rotatórias), que ocupou com shows a Praça da Estação.



Praia da Estação


Iniciada em 16 de janeiro de 2010, a Praia da Estação é uma ação direta, uma festiva e lúdica forma de ocupar a cidade.



 Praia Atlântico Clube

Intervenção artistica realizada por Ines Linke, Louise Ganz e Daniel Carneiro em agosto de 2010 que transformou um espaço clube-praia com a intenção de discutir temas como consumo,  espaços urbanos e lazer. Foram vendidas  cotas para se tornar sócio do clube por R$0,50.



 Praia da Estação em Coronel Fabriciano

Em maio de 2011 inspirados pela Praia da Estação de Belo Horizonte alunos de Arquitetura da Unileste-MG realizaram uma praia na Praça da Estação  de Coronel Fabriciano na  “17ª Semana Integrada de Arquitetura“.


Piscinão de Ramos em Belo Horizonte

Se você acha a Praia da Estação elitista, não tem mais desculpa: venha para o Piscinão de Ramos da Rodoviária!” em tom de humor e ao mesmo tempo crítico, o Piscinão de Ramos de Belo Horizonte é herdeiro direto da Praça da Estação. A partir da constatação de que era pouco discutir e ocupar apenas a Praça da Estação, sua proposta é levar a praia para um um lugar visto apenas como de passagem, onde habitualmente apenas mendigos e prostitutas se aventuram a permanecer.



Piscinão de Ramos de Belo Horizonte

Em blog, maio 20, 2011 às 01:40

Se você acha a Praia da Estação elitista, não tem mais desculpa: venha para o Piscinão de Ramos da Rodoviária!

Futebol, farofa, gente diferenciada e se fizer sol gente de sunga e biquíni.


Onde? Praça da Rodoviária – Belo Horizonte

Quando? Domingo, 29 de Maio, 13:00

Quanto? De graça!

Debate: Qual é a cidade que queremos?

Belo Horizonte passa por um período de proibições e possibilidades. A cidade com seus despejos, “revitalizações”, decretos forçados, prisão de pixadores, especulação imobiliária, parcerias público-privadas feitas por debaixo dos panos, poder público e a população seduzidos pela Copa, convivem com  movimentos populares, festas de rua, ocupações, com o Movimento Passe Livre, Brigadas Populares, Praia da Estação, Massa Crítica, Comitê Popular dos Atingidos pela Copa, Piores de Belô dentre outros.

Então de qual lado estamos? Qual é a cidade que queremos? Qual é a cidade que eles querem?

Se nos é negado o direito de permanecer em qualquer espaço público da cidade, ocuparemos esses espaços de maneira divertida, lúdica e  aparentemente despretensiosa. Todo espaço vago deve ser tomado!

Traga sua roupa de banho (bermuda, calção, biquini, maiô, cueca), boias, cadeiras, toalhas de praia, guarda-sol, cangas, farofa e a vitrolinha… e se fizer frio, traga seu calor humano.

Traga tambores e viola!

Traga bola, vamos mostrar que futebol vai para além da Copa!

Traga comida para um banquete coletivo!

Venha vivenciar a cidade!

O que fazer quando o capitalismo é muito mais divertido e estético do que a arte?

Em blog, abril 15, 2011 às 12:50

Quando eramos novos acreditavamos que fazer arte, criar e expressar nossas idéias era por si só revolucionário. Dizíamos que ter uma banda, montar um coletivo, fazer fanzines, etc. era o caminho para sermos mais autênticos,  coerentes com os nossos desejos e uma forma para combater o status quo dominante. Nossos ideais e ações tinham sempre como premissa a festa e o estético, isso servia para afastar todo o rancor, seriedade e postura militante que encarávamos na “velha esquerda”, ortodoxa e caduca.

Não que agora estejamos velhos ou renegando tais práticas (e muito menos querendo deslegitimar quem ainda crê e realiza tais posturas), trata-se aqui de ser coerente em tentar levar a cabo a crítica que propomos a partir do problema que se apresenta,  mesmo que seja necessário colocar em xeque e até abandonar nossas velhas e entranhadas prerrogativas.

Talvez a questão central: “O que fazer quando o capitalismo é muito mais divertido e estético que a própria Arte?”  não possa ser respondida, mas tampouco poderá ser evitada por aqueles que acreditam que lidar com o estético pode carregar potencias questionadoras e emancipatórias.

Grande parte daqueles  que são atravessados por esses problemas (artistas engajados, artistas políticos, artivistas  ou outro nome qualquer que queiram dar) respondem a questão tentando conciliar um fazer crítico com o estético sem de fato se atentar que em nossa época, as condições para a criação de relações anticapitalistas, criativas, divertidas e rizomáticas nunca foram tão propícias e estimuladas. Estaríamos então simplesmente encarcerados no próprio ciclo de produção que acreditávamos combater?

"Se alguém pensa que Hakim Bey é subversivo é porque ainda não conheceu os publicitários da Volkswagen"

Nessas configurações nos parece evidente que o problema do capitalismo no futuro será a utilização do tempo livre.  O artista aparecerá então, não mais como um pária ou crítico (como querem alguns), mas como um organizador dos  lazeres, cabendo a ele propor eventos e situações (qualquer um que já visitou uma loja da Apple sabe que o vendedor, quase sempre misto de DJ e Designer, não vende o produto mas suas potencialidades de uso e criação) . Tal previsão cria para aqueles que tiverem conhecimento, mesmo que mínimo, das vanguardas artísticas do século XX uma sensação de familiaridade e pavor já que as propostas de emancipação e utopia foram invertidas e incorporadas à lógica capitalista. O potencial disruptivo de tais vanguarda foram transformadas em glamour e novas tendências disponíveis para todos os setores do consumo .

Se a crítica aos moldes clássicos e todo um fazer estético que antes era questionador se mostra inócuo, a simples indiferença também não se mostra um caminho (como algumas críticas querem nos fazer crer ser a única e apocalíptica alternativa) como se bastasse sentar e esperar ruir o mundo sob nossos pés.

Impossível não levar tais críticas para o interior do [conjunto vazio] já que procuramos desvincular estética da Arte,  buscando fugir da lógica de apreensão de um objeto ou evento como imediatamente artístico. Fugindo de lugares onde essa relação já se dá de imediato e tentando de fato usar “procedimentos artísticos” na cotidianidade. Mas qual a real efetividade de tal estratégia?

O problema está posto, resta saber se não estamos incorrendo aos mesmos erros que apontamos…  cabe então, não apenas reelaborar questões e críticas, mas a possibilidade de criar uma nova práxis que se faz no cotidiano para além da Arte, da especulação vazia e da aceitação de grupo.

Sobre a masturbação teórica para além da especulação vazia

Em blog, março 25, 2011 às 01:47

Raoul Vaneigem,  um dos principais teóricos da Internacional Situacionista (I.S.)  juntamente com Guy Debord,  publicou no número 10 da revista do grupo o texto Alguns tópicos teóricos que precisam ser tratados sem debate acadêmico ou especulação ociosa” sobre questões a serem debatidas e pensadas para além da pura especulação vazia e por aqueles que efetivamente estão envolvidos nas lutas para subverter  a ordem vigente.

“Crítica da economia política – Crítica das ciências sociais – crítica da psicanálise (em especial Freud, Reich e Marcuse) – Dialética da decomposição e da superação na realização da arte e da filosofia – A semiologia, contribuição para o estudo de um sistema ideológico – A natureza e as suas ideologias – O papel do lúdico na História – História das teorias e teorias da História – Nietzsche e o fim da filosofia – Kierkegaard e o fim da teologia – Marx e Sade – Os estruturalistas.

A crise romântica – o maneirismo – O barroco – As linguagens artísticas – A arte e a criatividade cotidiana – Crítica do dadaísmo – Crítica do surrealismo – Perspectiva pictórica e sociedade – A arte autoparódica – Mallarmé, Joyce e Malévitch – Lautréamont – As artes primitivas – Da poesia.

A revolução mexicana (Villa e Zapata) – A revolução espanhola – Astúrias 1934 – A insurreição de Viena – A guerra dos camponeses (1525) – A revolução espartaquista – A revolução congolesa – As revoltas camponesas na França de 1358 e depois – As revoluções desconhecidas – A revolução inglesa – Os movimentos comunalistas – Os Enragés – A Fronda – A canção revolucionária (estudo e antologia) – Kronstadt – Bolchevismo e trotskismo – Socialismo e subdesenvolvimento – A cibernética e o poder – O Estado – As origens do Islã – Teses sobre a anarquia – Teses para uma solução definitiva para o problema cristão – O mundo dos especialistas – Da democracia – As internacionais – Da insurreição – Problemas e teoria da autogestão – Partidos e sindicatos – Da organização dos movimentos revolucionário – Crítica do Direito Civil e do Direito Penal – As sociedades não industrializadas – Teses sobre a utopia – Louvor de Charles Fourier – Os conselhos operários – O fascismo e o pensamento mágico.

Do repetitivo na vida cotidiana – Os sonhos e o onirismo – Tratado das paixões – Os momentos e a construção das situações – O urbanismo e a construção popular – Manual do détournement subversivo – Aventura individual e aventura coletiva – Intersubjetividade e coerência nos grupos revolucionário – Jogo e vida cotidiana – Os devaneios individuais – sobre a liberdade de amar – Estudos preliminares para a construção de uma base – Loucura e estado de transe.”

A Implantação das Perversões Sexuais

Em blog, fevereiro 28, 2011 às 19:44

Em contraponto aos teóricos da repressão como Reich e Marcuse, Michel Foucault defende que os discursos a respeito do sexo foram incitados e estimulados progressivamente, constituindo o que mais tarde (a partir do final do século XVIII) configuraria um fenômeno que o francês chama de “explosão discursiva”. Entretanto, a importância da incitação dos discursos não reside no mero aumento quantitativo, mas nos meios pelos quais se fala de sexo (as formas de imposição do discurso), bem como no conteúdo desses dizeres. Em suma, a partir do pensamento foucaultiano nos direcionaremos à  posição que a proliferação discursiva toma em meio à sistemática das instituições, e não à simples abordagem superficial do crescimento dos discursos. Nesta análise, remontaremos o contexto do dispositivo da aliança, onde o casamento era o principal foco dos regimentos sexuais, e o surgimento do dispositivo da sexualidade em meio a essa conjectura, concentrado, principalmente, nas sexualidades desviantes, classificadas e vistas como desvios patológicos da conduta sexual recomendável. O dispositivo da sexualidade, desse modo, foi extremamente favorecido pela chamada proliferação discursiva, visto que é por meio desta que se observa uma implantação de perversões cada vez mais variadas, especificadas e plurais, destinadas a qualificar e a apontar comportamentos indesejáveis.

De fato, a partir do século XIX, houve uma multiplicação das sexualidades e suas variáveis, uma implantação múltipla das heterogeneidades sexuais através da propagação dos discursos. Um cenário bem distinto daquele antecedente, onde apenas três grandes códigos explícitos concentravam as diretrizes sexuais: o direito canônico, a pastoral cristã e a lei civil. Tais normalizações se ocupavam, principalmente, da estipulação do lícito e do ilícito, do permitido e do proibido. Por sua vez, esta fixação, é necessário dizer, tinha uma área de atuação bem definida: a relação matrimonial. Definia, dessa maneira, o dever conjugal, seu cumprimento e a capacidade de desempenhá-lo, bem como sua fecundidade e periodicidade. O casamento tomava para si todas as atenções das normas a respeito do prazer, sendo o sexo do casal excessivamente regrado por essas constrições. Outras questões, como a sodomia ou a sexualidade das crianças, eram vistas com incerteza e certa negligência.

Outra característica peculiar a esses códigos está na falta de distinção nítida entre as infrações às regras da aliança. Eram igualmente condenados o desrespeito às leis do casamento e a prática de sexualidades estranhas. Assim, o adultério e a sodomia eram consideradas subversões, antes de qualquer coisa, ilegais, e tratadas dentro do campo das ilegalidades. Algo que Foucault chamou de “ilegalismo global”, sem diferenciação das condutas sexuais condenáveis, sendo todas punidas como subversões contrárias à lei. Em outras palavras, embora o considerado “contra-natureza” fosse marcado por uma abominação particular, constituía apenas uma forma extremada do “contra-a-lei”, não trazendo os agentes de tais condutas nenhuma característica essencialista ou patológica fundamentadora. O sodomita, por exemplo, era, antes de mais nada, um infrator, assim como o adúltero ou qualquer outra figura que viesse a cometer uma prática contra legem.

As proibições relativas ao sexo, desse modo, portavam uma natureza jurídica, isto é, configuravam-se como interdições legais. Essa característica mostra-se evidente ao se estudar que, por exemplo, durante muito tempo os hermafroditas foram considerados criminosos, ou filhos do crime. Sua disposição anatômica e sua própria existência, embaraçavam a lei que distinguia os sexos e prescrevia sua conjunção.

A explosão discursiva iniciada no final do século XVIII, e desenvolvida, principalmente, durante o século XIX, provocou duas modificações no cenário que havia se estabelecido durante o dispositivo da aliança. A primeira delas diz respeito a um movimento “centrífugo” em direção à monogamia heterossexual. Com isso, embora as relações heteromonogânicas tenham continuado como paradigma, fala-se delas cada vez menos, e com crescente sobriedade. Elas não são interpeladas ou acuadas para que mostrem seus segredos e particularidades, pois o casal legítimo tem direito à discrição. A aliança heterossexual “normal” está inserida em um contexto mais rigoroso, porém silencioso e velado.

Há ainda uma segunda modificação, no campo das práticas sexuais: o que se interroga a partir do século XIX são as sexualidades desviantes do padrão. A sexualidade das crianças, dos loucos, dos criminosos, dos homossexuais, bem como as obsessões e pequenas taras, tornam-se os principais alvos do discurso. Todas essas figuras, anteriormente apenas entrevistas, passam agora de avançar para tomar a palavra e fazer a difícil confissão daquilo que são. Sem dúvida não são menos condenadas, mas passam a ser escutadas. A partir dessas sexualidades periféricas que a sexualidade regular será constituída.

Esta definição da sexualidade regular a partir das sexualidades desviantes configura um movimento de “refluxo”. Portanto, essas duas imagens (a centrífuga e o refluxo) demonstram a transformação da sistemática discursiva a respeito do prazer, observada a partir do final do século XVIII. Desse modo, houve, no campo da sexualidade, a consagração de uma dimensão específica do “contra-natureza”, tomada como mais grave. Antes, como já foi dito, não existia diferenciação entre esse grupo de práticas consideradas anti-naturais e os outros tipos de subversão à aliança matrimonial. A sodomia, assim, torna-se algo mais grave do que se casar com um parente próximo, por exemplo. Como resultado, as sexualidades desviantes ganham autonomia em relação às demais ilegalidades do prazer. Torna-se bastante evidente a nova ordem das condutas sexuais: de um lado, há as infrações à legislação do casamento, da família e da moral; de outro, existem os danos à regularidade de um funcionamento natural (que a lei, inclusive, pode muito bem sancionar).

Com isso, passa a existir, no âmbito do prazer, condutas originárias de uma natureza desviada, perversões patológicas essenciais ao agente. Leis naturais do casamento passam a ocupar um registro distinto das regras imanentes da sexualidade. Cria-se um “mundo das perversões”, que é secante ao da infração moral ou legal, mas que é totalmente autônomo em relação a ele. Há, com isso, uma mudança de pensamento. Os “pervertidos”, embora também tenham sido perseguidos pelos códigos e regimentos, passam a ser tratados como vítimas de um mal inerente à própria pessoa, ou seja, anseiam por tratamento, normalização, correção de um caráter essencial que lhes pertence necessariamente. Podem, inclusive, incidir dentro do âmbito da lei, porém enquadram-se dentro de outra seara: a dos viciados, isto é, das vítimas escandalosas dos vícios contra a natureza.


“Crianças demasiado espertas, meninas precoces, colegiais ambíguos, serviçais e educadores duvidosos, maridos cruéis ou maníacos, colecionadores solitários, transeuntes com estranhos impulsos: eles povoam os conselhos de disciplina, as casas de correção, as colônias penitenciárias, os tribunais e asilos; levam aos médicos suas infâmias e aos juízes suas doenças. Incontável família dos perversos que se avizinha dos delinqüentes e se aparenta com os loucos. No decorrer do século, eles carregaram o estigma sucessivamente da ‘loucura moral’, da ‘neurose genital’, da ‘aberração no sentido genésico’, da ‘degenerescência’ ou do ‘desequilíbrio psíquico’ “¹

Assim, aquilo que se desvia das relações matrimoniais torna-se o centro do discurso e não mais o casamento e as regras da aliança. O contra a natureza, antes abarcado pelo domínio das infrações conjugais, ganha agora um destaque e uma condenação maior. Passa a ser classificado, precipuamente, como patologia, ultrapassando assim a condição de mera subversão normativa.

Dessa forma, as sexualidades periféricas estiveram, a partir do séc. XIX, no posto de objeto principal de um ardil suplementar à severidade dos códigos. Foram transformadas em sede principal de atuação de instâncias de controle e mecanismos de vigilância instituídos pela pedagogia e pela medicina. A justiça, em muitas situações, cede lugar às diretrizes médicas de normalização (ou é aplicada de acordo com elas). Os “desviados” passam a ser taxados exaustivamente pelos regimentos institucionais terapêuticos. O interesse maior das redes de poder recai sobre as anormalidades sexuais e suas incontáveis variedades. Prevê-las e listá-las, determinando o tratamento adequado aos doentes, torna-se a fulcral preocupação das forças políticas. Por isso, campos como a medicina são tão importantes: eles estipulam o limite entre o normal e o patológico, substituindo a dicotomia legal/ilegal.

Aliás, é perceptível que a medicina começou a desempenhar também, a função da Igreja de intervir na sexualidade conjugal: inventou toda uma patologia orgânica, funcional ou mental, originada nas práticas sexuais “incompletas”; classificou com desvelo todas as formas de prazeres anexos, integrou-os ao “desenvolvimento” e às “perturbações” do instinto, empreendeu a gestão de todos eles. Apresentam-se aqui, como as práticas disciplinares dialogam com práticas discursivas: o anormal passa a ser interrogado para que seja, assim, tratado de acordo com determinações paradigmáticas. Ele não é, de forma alguma, forçado a se calar, mas pelo contrário, é coagido a dizer tudo sobre si e sua natureza “decaída”.

Percebe-se, então, que a proibição não foi o principal mecanismo de propagação, de controle e de normalização das sexualidades desviantes. A censura e a interdição funcionaram, principalmente, inseridas dentro de uma complexa sistemática de exercício de poder, muito mais direcionada à incitação do discurso que no combate dele.

 

 

NOTAS

1- Trecho de “A História da Sexualidade, Volume 1: A vontade de saber ” de Michel Foucault

Manifesto: LIBERDADE AOS PIORES DE BELÔ

Em blog, setembro 28, 2010 às 21:50

Longe dos holofotes da Bienal Internacional de Arte de São Paulo e da imprensa especializada sobre arte, a pixação* invade a cidade e ainda é duramente reprimida pelo poder.

No dia 24 de agosto, cinco pixadores do grupo conhecido como os Piores de Belô foram presos. A polícia havia pedido a prisão preventiva dos integrantes por formação de quadrilha, pichação, invasão a propriedade alheia, crime ambiental, depredação de patrimônio público e apologia ao tráfico de drogas.

Tal fato não se mostra de forma nenhuma isolado, já que, desde junho do ano passado, a Polícia Civil desencadeou a “Operação BH Mais Limpa”, que resultou no cumprimento de nove mandados de busca e apreensão. Ainda esse ano, a Polícia Civil criará uma delegacia para combater especificamente as gangues de pixadores que agem em Belo Horizonte, fato já amplamente divulgado como uma ação visando a Copa do Mundo. Nos parece óbvio que, com a aproximação da Copa e o ímpeto de gerar uma cidade limpa e asséptica, serão criados cada vez mais novos meios de repressão.

Além dessa nova delegacia, a Prefeitura de Belo Horizonte prevê também uma central de monitoramento eletrônico. As câmeras serão instaladas para vigiar os prédios públicos e locais de grande concentração de pessoas, como o Parque Municipal no Centro, o mirante das Mangabeiras e também a Praça da Estação (que, como já sabemos, é um espaço que só atende às demandas da própria Prefeitura, da socialite Ângela Gutierrez, o seu Museu de Artes e Ofícios e o interesse de grandes empresas que podem pagar o preço absurdo de utilização da praça). Essas novas formas de combate ao crime são legitimadas pela falsa sensação que o cidadão comum tem de que o poder público efetivamente o protege e zela pela boa conservação da cidade quando, na verdade, a cidade só deve estar limpa e bem apresentada para receber o capital estrangeiro que escoará por aqui no período da Copa. Tais ações transformam a cidade em um lindo cartão postal, longe de qualquer uso efetivo e real pelas pessoas.

O preço de toda essa “segurança” e limpeza?! Eis aqui a conhecidíssima resposta: a eterna vigilância e a repressão constante. Tudo pretensamente justificado  pelos dados que a própria prefeitura apresenta, alegando gastar R$ 2 milhões por ano em reparos de equipamentos públicos depredados, incluindo pixações. Parece ser preferível pelo poder público gastar com reparos e repressão do que efetivamente discutir o problema para além do âmbito criminoso. Como transformar jovens com rolinhos de tinta em assaltante ou traficante? Prenda o pixador por formação de quadrilha e enjaule todos juntos! A manobra política efetuada pela força tarefa do Ministério Público em conjunto com Prefeitura e a Polícia Civil para enquadrar os Piores de Belô como uma quadrilha, modificando o procedimento normal dispensado ao delito, além de cruel, é extremamente simplista, reduz a questão a um caso de polícia e encarcera sumariamente os autores de uma das práticas estéticas mais questionadoras do espaço urbano. Nos parece que tal acusação é só uma forma de infligir penas mais duras para aqueles que, como dizem os próprios Piores de Belô, apenas “jogam tintas nas paredes”.

O que nos surpreende é o caso ter sido negligenciado tanto por artistas quanto por “intelectuais”, pois é necessário e urgente que haja uma defesa da pixação, dos Piores de Belô e das movimentações que vão contra os processos de gentrificação que Belo Horizonte está passando. A única defesa pública do fato vem de Deborah Pennachin, doutoranda da Escola de Belas Artes da UFMG que tem como objeto de estudo a pixação e que, ao defendê-los em uma reportagem, afirma: “Para quem estuda, eles são top de linha da pichação em Belo Horizonte”. Sabemos o quanto é provável que a impressa tenha cortado partes importantes do seu argumento, mas não podemos deixar de considerar que defendê-los apenas por seu valor estético, além de ser um argumento fraco, soa oportunista. Afinal, isso pode acontecer com qualquer “pixadorzinho meia-boca” e é o que de fato ocorre: a maioria desses pixadores vive em comunidades carentes onde traficantes e assassinos não passam o que eles passaram nas mãos da polícia por causa da pixação. De janeiro a agosto deste ano, foram presos 257 pixadores em Belo Horizonte.

Sem entrar em qualquer mérito sobre a pixação, espaços excludentes, relação com a cidade, arte/anti-arte, colocamos a questão: será que só o fato de ser uma medida autoritária que vai aumentar a quantidade de processos desnecessários no judiciário, abarrotar ainda mais nossas cadeias que ferem cotidianamente o básico dos direitos humanos e possivelmente servir de escola de bandidagem para jovens que só andavam por aí armados de rolinhos e tinta, será que só isso não basta para ser contra a prisão destes jovens?

Devemos lembrar que Os Piores de Belô ainda estão detidos por tempo indeterminado em uma unidade comum até que ocorra o julgamento.

* Utilizamos a grafia “pixo” no lugar de “picho”, conforme o uso que os próprios interventores fazem

Respostas ao texto “Pixação: questões sobre arte, mercado e práxis”

Em blog, abril 26, 2010 às 10:15

Reproduzimos abaixo um e-mail de Djan Cripta em resposta ao texto “Pixação: questões sobre arte, mercado e práxis“,  achamos que é extremamente relevante publica-lo aqui pois problematiza questões ainda obscuras e relevantes da questão . Além disso, esse e-mail corrige algumas informações erradas do texto anterior e exibe a visão de alguém que está totalmente imerso na pixação.

Outra resposta ao texto do [conjunto vazio], dessa vez sob uma perspectiva de revelar o que é o desejo por trás da crítica e questionar o proprio posicionamento do coletivo , pode ser encontrada aqui .

“Salve Coletivo (CV).

Meu comentário foi mais em questão de algumas colocações erradas de vocês sobre nos, Não somos o coletivo Sustos, Sustos é o nome de uma das turmas ou gangs como preferirem, Sustos é a turma que a Caroline faz parte.
Nossa revolução foi batizada de “Alem do Bem e do Mal”, varias turmas da pixação paulista resolverem se juntar a essa causa após receberem um convite que foi distribuído em points de pixadores, o mentor intelectual de todos os ataques foi o Rafael Pixo BomB porem ele precisou da minha influencia com vários pixadores para executar os ataques, eu sou conhecido por Cripta Djan entre os pixadores, foi levantando o nome da turma Cripta que fiquei conhecido no movimento.
Eu e Rafael que sempre pixamos e escalamos prédios juntos nos juntamos nessa revolução, eu como líder das ações e Rafael como mentor intelectual, vou explicar o motivo de todos os ataques para que vocês entendam melhor.

Dez do primeiro ataque nosso propósito foi o de resgatar o lado contestador da Pixação que estava perdido e inserir o movimento em uma discussão no meio artístico, começamos pelo meio acadêmico que acabou rejeitando a tese de RAFAEL PIX BOMB que defendeu em seus quatro anos de estudos na Faculdade de Belas Artes a Pixação como forma de expressão artística.
A Galeria Choque Cultural sempre disse ser a única representante da arte de Rua do Brasil, e que não tinha preconceitos com nenhum tipo de expressão urbana, então demos a eles uma verdadeira exposição de Pixação dentro do contesto do movimento que é a ilegalidade, a resposta deles foi prestar uma queixa crime na policia.

A Bienal foi um convite da própria curadoria que declarou que a Bienal daquele ano (Em vivo contato) estava aberta para intervenções urbanas, e a resposta deles foi mandar a Pixadora Caroline Piveta da Motta para cadeia.

Os atropelos aos painéis de Grafites autorizados e financiados e uma cobrança a conduta dos Grafiteiros que se renderam ao sistema e assassinaram o espírito marginal do Graffiti, pois o verdadeiro Graffiti nasceu na ilegalidade e sempre se apropriava de espaços públicos de forma ilegal, alem disso o Graffiti passou a ser usado como antídoto contra a Pixação, já que os donos dos muros empresários e Governantes perceberam que locais Grafitados não eram pixados.

Neste ultimo ataque (Painel de Graffiti dos irmãos Os Gêmeos) entra duas questões, a do Graffiti autorizado e financiado, e da prefeitura estar mais preocupada em maquiar a cidade do que cuidar de outros problemas que a ela tem, independente se o mural foi patrocinado ou não pela Associação comercial de Empresários de São Paulo, essa iniciativa poderia ser tomada para cuidar de outras necessidades muitos mais importantes que a cidade tem, um painel de Grafite não tem utilidade nenhuma a não ser de enfeitar, e do que adiante pintar um local que cheira a bosta e urina humana, onde pessoas dormem na rua convivendo com ratos e baratas, esse projeto cidade limpa é varrer a sujeira da cidade para de baixo do tapete.

A exposição na fundação Cartier em Paris foi um tapa na cara da sociedade hipócrita Brasileira que sempre reduziu a Pixação somente a sujeira e vandalismo, a única obrigação que a Pixação tem é de ser ilegal é na RUA, em outros locais como no caso da Fundação Cartier será somente representativa, e só fiz essa reprodução por que em Paris não existe nossa Pixação, e nada mais justo para a Pixação do que ser lembrada em uma exposição que retratava a historia da arte de rua mundial.

Ao todo participaram dessa revolução cerca de 100 turmas de pixadores, em vista do numero de turmas que existe ainda é pouco, muitos ainda preferem se dedicar somente a seus pixos, esse é um problema, a vaidade atrapalha muito para que aconteça um levante maior, mas estamos lutando pra mudar isso.

No caso de agora estarmos envolvidos nessa Bienal até parece que estamos nos rendendo, mas não vou estragar a surpresa sobre de que forma vamos fazer isso sem cair em contradição.

Qualquer outra duvida me avisem.

Abraço”

Pixação: questões sobre arte, mercado e práxis

Em blog, abril 21, 2010 às 19:30

A quem interessa uma inserção mercadológica e um status de arte da pixação*?

O que antes era considerado vandalismo e um ato criminoso começa a ser visto e reivindicado como produto artístico. Podemos observar tal fato se lembrarmos do livro “Pixação: São Paulo Signature” do pesquisador, arquiteto, designer gráfico, tipografo e fotografo francês, François Chastanet, que foi à São Paulo catalogar as letras espalhadas em muros e prédios, lançando este livro, que expõe a tipografia e caligrafia da pixação. Fato semelhante ocorreu com o livro “Ttsss… a Grande Arte da Pixação em São Paulo, Brasil“ organizado pelo pixador Boleta, considerado um dos maiores nomes do gênero. O livro é vendido como o “primeiro grande livro de arte de vanguarda” e tem grande aceitação na Alemanha, Estados Unidos, França, Espanha e Holanda. Lá fora a pixação já é considerada uma arte e é vista por alguns como artigo de exportação, o que seria comprovado com a recente camisa de futebol da seleção brasileira, feita pela Nike, em que se utilizou a estética do pixo.

 

Nunca x Nike Sportswear "Team Brazil" Pack

Design: Nike Sportswear

 

A questão parece ser ainda mais relevante se analisarmos as últimas ações organizadas pelo Susto’’s e o recente anúncio da participação de pixadores na 29ª Bienal Internacional de Arte de São Paulo. Estes acontecimentos levantam importantes indagações sobre a comercialização e o apaziguamento do caráter subversivo da pixação. Isso não parece surpreender aqueles que já acompanham os desdobramentos de uma polêmica que começa em junho de 2008,  com a invasão de Rafael  PixoBomb (integrante do Susto’’s) à  formatura/exposição da Faculdade de Belas Artes, curso que fazia e que estava prestes a se formar. Pixaobomb acompanhado de outros pixadores intervieram em várias obras de arte que lá estavam e acabaram por entrar em confronto com alunos, familiares e seguranças da galeria, saindo algemados do local. Pixabomb alegou ter sido esse o seu Trabalho de Conclusão de Curso (TCC).

Em setembro de 2008, acontece a invasão da Choque Galeria de Arte, especializada na chamada Street Art. Cerca de 30 pixadores invadiram a Choque e pixaram não só as paredes, como várias obras que lá estavam expostas. A ação foi organizada através de um manifesto chamado “Atack Part 2: A Caminho da Revolução 2008″ como uma critica a galeria Choque, que mesmo sendo considerada uma galeria dedicada à arte de rua underground, não abriria espaço e nem exporia obras de pixadores. Sobre essa intervenção, falou-se  até de uma suposta valorização monetária das obras pixadas, como se um maior valor simbólico fosse agregado a elas.

Um mês depois, em outubro de 2008, acontece a invasão da 28ª Bienal de  arte de São Paulo. Cerca de 40 pixadores (integrantes do Susto”s, Secretos e 4) invadiram a abertura da Bienal ao público pixando as paredes do segundo andar que estava propositadamente vazio. Tal ação gerou muita repercussão, principalmente pela prisão da pixadora e integrante do Sustos, Caroline Pivetta.

Um aspecto problemático vem a tona com as ações do Susto’’s. Do ponto de vista de uma atitude antiartística, as intervenções do coletivo parecem extremamente coerentes com uma crítica revolucionária aos padrões de arte dominante. A grande questão recairia sobre os discursos proferidos pelo Susto’’s e, principalmente, pelo  Pixobomb, que remetem sempre a uma tentativa de inserção  no mercado, citando várias vezes sobre como o pixo não é considerado arte ou sobre como apenas algumas pessoas ganham dinheiro com a pixação. É notório como parece haver nessas intervenções um caráter espetacularizado e midiático, gerando sempre a dúvida: é uma oposição/questionamento da arte ou simplesmente uma atitude para que o pixo tenha o mesmo status da arte (e consequentemente tenha o mesmo valor financeiro)? Aparentemente, o que seria uma relação negativa à arte, com ações que levariam a crer em um total desprezo de instituições, obras, artistas e da própria arte,  revela-se marcada pela tentativa de fazer do pixo ele mesmo uma categoria de arte elevada e legítima, em que os pixadores seriam reconhecidos como artistas e, consequentemente, obteriam inserção mercadológica nos circuitos artísticos.

O pretenso discurso revolucionário e questionador do Susto’’s e Pixobomb, afirmando fazer protestos contra a comercialização, institucionalização e domesticação da cultura de rua parece soar ainda mais contraditório e ingênuo após o aceite ao convite da Bienal para a participação de pixadores no evento. O que antes era considerado uma contravenção pelos antigos curadores, que chamaram a ação de “vandalismo agressivo e autoritário”, é visto pelo atual curador da Bienal, Moacir dos Anjos, como um convite ao pensar. Para ele, o pixo borraria e questionaria os limites que separam a arte e a política, fato que  o levou a convidar os mesmos lideres da invasão do pavilhão vazio , em 2008, a expor seus ( agora assim chamados) trabalhos artísticos. A atitude da curadoria nos parece não só esperta, mas extremamente coerente, já que funcionaria como uma forma de expiar a omissão da instituição e sua repercussão negativa no caso da última edição (principalmente pela prisão de Pivetta). Esse “polêmico” convite da curadoria também daria visibilidade ao evento, criando um falso debate que lota jornais, revistas e meios acadêmico ávidos por esse tipo de celeuma. Não é preciso dizer que isso só ajuda a anular o pixo em suas dimensões políticas e de diálogo com a cidade para transforma-lo em apenas mais uma “escola” absorvida na instituição da arte.

Não se trata, aqui de fazer um juízo moral/estético sobre o pixo ou uma tentativa de retirar todo potencial questionador e revolucionário, os quais acreditamos existir nas ações dos pixadores. Concordamos com Baudrillard, que sobre o assunto diz: “A cidade é um “corpo sem órgãos”, como diz Deleuze, um cruzamento de fluxos canalizados. Os pichadores se vêm como aqueles que colocam ordem territorial. Eles se territorializam decodificado espaços urbanos – uma rua, parede ou bairro vem à vida através deles, tornando-se um território coletivo novamente. Eles não se limitam ao gueto, eles exportam o gueto através de todas as artérias da cidade, eles invadem a cidade branca e revelam que ele é o verdadeiro gueto do mundo ocidental “. A pixação é uma atividade em íntimo contato com a cidade, já que o pixador ressignifica violentamente o espaço. Mesmo assim, não podemos nos furtar de indicar que um dos problemas da pixação  reside em seu aspecto muitas vezes bairrista e exibicionista, servindo apenas para reafirmar a  demarcação de um território por um indivíduo ou um grupo. Tais grupos constantemente se organizam na forma de “gangues” com um caráter verticalizado e hostil à outros grupos que também intervêm na cidade.

Para além dessa discussão sobre o caráter positivo/negativo da pixação, é necessário questionar o uso que alguns fazem da pixação, evitando que sua prática se transforme em algo estéril, domesticado e  longe da juventude que já a quase 20 anos faz uso dela como uma forma de diversão e protesto. É através do pixo que eles expressam seu desrespeito ao urbanismo que não contempla a permanência na cidade, tratando-a apenas como um ponto de passagem sem que se favoreça uma real interação entre pessoas e esses locais e, principalmente, não permite que tais jovens, em sua maioria, moradores de regiões distantes dos centros urbanos, vivam a cidade de outras formas que não essa. Então, deveríamos pensar se o que dizem os Amig@s da Próxima Insurreição sobre o Susto’’s e Pixobomb está correto (“…os companheiros do Grupo Susto’s são inimigos da arte moderna e da liberdade artística”) ou se por trás de toda essa prática questionadora exista apenas o desejo de alguns serem integrados ao sistema da arte que aparentemente se opõem? Talvez seja esse o perigo de toda práxis crítica, transformar-se exatamente no que combate!

 

* Utilizamos a grafia “pixo” no lugar de “picho”, conforme o uso que os próprios interventores fazem

A quem interessa uma inserção mercadológica e um status de arte da pixação? O que

Movimentos LGBT: Crítica e Análise

Em blog, abril 18, 2010 às 10:43

Cerca de dois séculos se passaram desde o surgimento do que Michel Foucault chama de “dispositivo da sexualidade”. A partir de então, diz o filósofo, os indivíduos passaram a ser qualificados e taxados por normas pedagógicas, médicas, jurídicas, científicas e morais, criadas a partir de um paradigma heterossexual. Dessa forma, o sexo extraconjugal e estéril passa a ser classificado não mais como uma subversão contra legem (infratora da aliança do casamento), mas como uma anomalia, ou seja, um desvio do padrão considerado saudável. Estava, então, estipulado o limite entre o normal e patológico, que guiaria toda a atuação da disciplina sobre os corpos. Os doentes deviam, desse modo, ser tratados e conduzidos em direção à normalidade pelas instâncias do poder disciplinar.

Nesse sentido, a sexualidade se tornava principal fator de subjetivação do indivíduo. O processo de constituição do sujeito passava a ser, assim, determinado por ela. Exemplo disso é a diferença do tratamento direcionado às práticas homossexuais antes e depois da origem do dispositivo. Anteriormente ao século XIX, a sodomia (termo dado pela época às relações homoafetivas) era tão-somente uma infração tipificada pelo antigo direito canônico ou civil, isto é, um crime em que o autor se posicionava como mero agente (um simples sujeito jurídico). No século XIX, entretanto, surge a figura moderna do homossexual. Para Foucault, o homossexual “torna-se uma personagem, uma história, uma infância, um caráter, uma forma de vida; também é morfologia, como uma anatomia discreta e, talvez, uma fisiologia misteriosa. Nada daquilo que ele é, no fim das contas, escapa à sua sexualidade. Ela está presente nele todo: subjacente a todas as suas condutas, (…) inscrita sem pudor na sua face, já que é um segredo que se trai sempre. É-lhe consubstancial, não como pecado habitual, mas como natureza singular”. Desse modo, conclui-se que enquanto o sodomita era um reincidente, o homossexual passa a ser uma espécie anormal. O indivíduo se constituía, com isso, a partir de sua sexualidade, inscrita e marcada em uma suposta “essência”.

Entrecruzadas a esses procedimentos de subjetivação, estão as chamadas práticas discursivas, surgidas e instituídas por meio de um fenômeno nomeado por Foucault de explosão ou proliferação dos discursos. De fato, o francês esclarece que a colocação do sexo em discurso não foi restringida, mas pelo contrário, incitada. As técnicas de poder e a vontade de saber, na verdade, empenharam-se no conhecimento das sexualidades polimorfas e no estabelecimento de uma ciência da sexualidade. As instituições passaram a estimular que o sexo fosse dito, explicita e detalhadamente. Nada mais conveniente para os mecanismos institucionais, uma vez que as definições dos padrões de normalidade só poderiam ser conhecidas se o sexo fosse estudado a fundo, interrogando os indivíduos a respeito de seus mais íntimos segredos – herança evidente da pastoral cristã e seus ritos de confissão. Além disso, o confessar participa de uma sistemática de reconhecimento subjetiva. Isto porque o indivíduo, ao confessar sua sexualidade, pensa-se enquanto sujeito, ou seja, torna-se um sujeito que se reconhece ao admitir sua “natureza”. Logo, a subjetivação do indivíduo pela sexualidade também perpassa as práticas de confissão.

É dentro deste contexto teórico que a atuação dos movimentos de defesa da comunidade LGBT pode se revelar problemática. Logicamente, é indiscutível que eles representam um importante papel social, posicionando-se, quase sempre, contrários à discriminação e à exclusão impingida aos homossexuais. Contudo, a institucionalização desses grupos em um corpo quase partidário faz com que seus membros colaborem para um efeito discursivo presente no pensamento de Foucault: a subjetivação pelo auto-reconhecimento. Quando alguém se ”filia” a uma organização dessa natureza, constitui-se sujeito a partir de sua sexualidade, ou seja, ”confessa” que é “homossexual”, sendo este fato o principal fator constitutivo de sua personalidade. Algo, convenhamos, muito conveniente às redes de poder, que se empenham na classificação e especificação dos indivíduos. O sujeito se torna uma espécie desviante do paradigma normativo. Aliás, outro ponto controverso relacionado ao movimento gay está justamente ligado a esse “paradigma normativo”. Os grupos de defesa dos homossexuais reivindicam, necessariamente, direitos civis de inspiração heteronormativa, como o casamento e a adoção de crianças. Essas reivindicações transparecem uma busca por um tipo de adequação ao padrão normal social heterossexual.

Tal empenho colabora com os procedimentos de docilização dos corpos e ”normalização das aberrações” que há séculos vêm sendo formulados e aplicados pelas instâncias do poder disciplinar. Como conseqüência, essa incessante luta por uma assimilação da heteronormatividade, torna os gays marionetes de uma campanha que apresenta interesses ocultos das parcelas privilegiadas da sociedade, e que não afasta o modelo de supremacia masculina heterossexual arraigado. Desse modo, os homossexuais são ”assimilados”, mas continuam sendo valorados de forma inferior àqueles que seguem o padrão normalizador (heterossexismo). Assim, em última instância, a campanha pelos direitos LGBT termina cooptada e controlada por setores de dominação como a mídia.

Além disso é notório uma forte questão mercadológica envolvendo o LGBT, como se a  partir da sexualidade todo um comércio se abrisse. Os homossexuais passam a ser vistos como consumidores de produtos, bens e serviços de lazer e entretenimento, conceituado teoricamente um novo  e lucrativo nicho de mercado.  Para citar um exemplo desse processo, pacotes e eventos ditos GLS,  aumentaram as vendas em 40% no setor de  Turismo no Brasil, sem contar boates e restaurantes destinados apenas ao público homoafetivo.  Tal “segmento” é visto por vários especialistas como o nicho de maior  potencial comercial da atualidade. Assim,  o movimento LGBT deixa de ser algo político para ser visto apenas como mais um segmento mercadológico, aquietando seu potencial de luta efetiva .

Não se quer dizer com tudo isso, absolutamente, que os homossexuais não devam reivindicar pelos seus direitos. Pelo contrário, isso deve ser feito. Porém, cabe pensar que nem todos os movimentos o fazem de maneira realmente subversiva. Lutar por igualdade sexual passa por fatores bem mais complexos do que a mera assimilação. O erro dos grupos de defesa da comunidade LGBT está, justamente, na crença de que os gays se adequarão ao modo de vida machista e heterossexual predominante na nossa sociedade. Com esse pensamento, o homossexual se rende ao rótulo de parte dominada e anômala dado pela disciplina àqueles que se desviem do paradigma. O indivíduo confessa, produz um discurso, torna-se sujeito pertencente a uma espécie e, a partir disso, é docilizado, domesticado para que depois seja ‘normalizado’ e disciplinado (práticas subjetivadoras e discursivas). Desse modo, o homossexual é assimilado. O movimento LGBT deve ser, antes de mais nada, uma resistência à violência e à marginalização imposta aos homossexuais por uma estrutura hierárquica e patrilinear. Mas há maneira de um grupo escapar dos efeitos do poder impostos pela disciplina? Para nós é evidentemente que sim. Agrupamentos horizontalmente, sem uma estrutura hierárquica forte, aliada a uma ausência de um critério de aceitação/composição (ainda que imposto de forma implícita), esquivam-se das redes de dominação. Neste sentido, dizer-se homossexual dentro de um conjunto sem líderes e ao mesmo composto por qualquer indivíduo de natureza subversiva; não sendo seqüestrado, dessa forma, por qualquer setor da sociedade com interesses financeiros, políticos e/ou midiáticos; deixa de ser um processo de subjetivação conveniente aos mecanismos institucionais, para ser uma resistência às práticas disciplinares

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